Não pegou bem. Os atores envolvidos com a cadeia de produção de tecnologia de Pernambuco acompanharam a opinião do resto do setor produtor de TI brasileiro e reagiram com ceticismo ao programa TI Maior, lançado pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp, na semana passada. Na última sexta-feira, o ministro em pessoa veio ao Recife falar do programa ao empresariado pernambucano, num movimento que mostra a intenção do governo de fortalecer a indústria de TI do Nordeste.
Mas nem isso, nem o anúncio das 1,2 mil vagas de capacitação do TI Maior só para Pernambuco, deixou o ecossistema empolgado. A maior crítica tem a ver com a própria concepção do projeto que, na opinião de alguns, vai na contramão da vocação do mercado brasileiro, além de não ter foco definido.
“Sempre pensamos em focar no produto, em vez de nos inserimos dentro da cadeia de valor do mercado global”, critica o economista Abraham Sicsú, que comandou a Coordenação de Estudos em Ciência e Tecnologia (CECT) da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). A posição de Sicsú é a mesma que ele sempre defendeu, por exemplo, sobre o papel das empresas embarcadas no Porto Digital com relação ao complexo industrial de Suape.
Ou seja, em vez de criar empresas cujo foco seria desenvolver softwares como produto final, para o consumidor doméstico ou corporativo, as políticas públicas deveriam incentivar a inserção das empresas brasileiras no meio do processo, fornecendo soluções, ou até funcionando como fábricas de software para as grandes empresas de tecnologia.
“Este programa não transformará as empresas brasileiras em produtoras de plataformas. Isso é algo que digo há muito tempo na Softex. O Brasil é um grande mercado de tecnologia, mas não somos grandes produtores. Somos consumidores. E talvez o TI Maior seja incompatível com nossas características”, defende.
A mesma crítica é feita pelo economista e ex-secretário executivo de Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Sectec), José Carlos Cavalcanti. Segundo Cavalcanti, o TI Maior não tem um objetivo claro e não diz exatamente como pretende cumprir seus objetivos. “Em nenhum lugar do documento o governo diz qual é a meta do programa. Só o ministro é que disse que a ideia era fazer do Brasil um protagonista no mercado de TI. O problema é que já somos protagonistas”, afirma. “Agora, se o governo quer que passemos a ser líderes na produção de TI, o programa não explica como cumprir essa meta”, diz Cavalcanti.
O economista também critica o volume do investimento, no entanto, ele declara que mais importante é a gestão dos recursos já disponíveis e que não chega sequer ao conhecimento dos empresários. “O Ministério da Fazenda chegou a cortar R$ 6,5 bilhões dos recursos destinados ao setor de TI simplesmente porque não eram utilizados. Há recursos sobrando, mas o problema é que é tudo muito mal administrado”, dispara. “A Lei de Informática ajuda o mercado interno, mas é irrelevante para o mercado externo. Já o CT-Info, da Finep, as empresas nem sabem que ele existe. Além disso, o próprio governo brasileiro não compra do mercado nacional”, exemplifica.
OTIMISMO
Apesar das críticas, o TI Maior também está sendo encarado com otimismo por parte do mercado local, principalmente por criar uma política pública direcionada para o setor. Para o presidente do Porto Digital, Francisco Saboya, a importância do programa reside no endereçamento da questão do software como produto, além de considerar TI um eixo estruturante da economia.
Saboya diz que o Porto tentará ser uma das aceleradoras de startups previstas no programa e se cadastrará para ter uma estrutura de certificação local assim que os critérios forem definidos. Outra ambição é tentar direcionar a capacitação de 1,2 mil profissionais para as necessidades do polo local, além de aproveitar o plano de internacionalização para reforçar sua presença no Vale do Silício.
Já o cientista-chefe do Cesar, Silvio Meira, avaliou positivamente o programa. “Pela primeira vez, depois de muita reclamação, a gente tem um princípio de política nacional de software. Obviamente, há muito o que reclamar, mas a gente sempre lamentou que o governo não fazia nada. Agora ele está fazendo e cabe a nós participarmos do processo”, diz.
Meira também atacou uma das maiores críticas ao programa: a meta de crescimento de cerca de 10%. “A meta foi colocada pelo próprio mercado, que foi bastante conservador. Essa não é nossa estimativa. O Cesar, por exemplo, cresceu 30% em 2011”, comentou. Meira revelou também que sua empresa, a Ikewai, também tentará ser uma das aceleradoras de startups do projeto.
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