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SUPERAÇÃO

Emoção na formatura do ex-cortador de cana que virou médico, no Recife

Jonas Lopes foi um dos 74 jovens que colaram grau em medicina na noite desta quarta-feira pela UPE

Publicado em 29/06/2016, às 23h08

Homenageado pelos colegas, Jonas chorou  / Foto: Alexandre Gondim / JC Imagem
Homenageado pelos colegas, Jonas chorou
Foto: Alexandre Gondim / JC Imagem
Margarida Azevedo

Milagre é explicado como algo extraordinário, admirável, espantoso. Acontecimento que chama a atenção, que desperta interesse, que faz o povo ficar surpreso. Aos 30 anos, Jonas Lopes da Silva é sinônimo disso. Perseverança, coragem e firmeza foram virtudes que ajudaram a transformar seu destino. Combustível para que o ex-cortador de cana, egresso da Zona da Mata pernambucana, estivesse entre os 74 jovens que colaram grau na 95ª turma de medicina da Universidade de Pernambuco (UPE) no Teatro Guararapes, em Olinda, no Grande Recife, na noite desta quarta-feira (29).

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O reconhecimento pela sua difícil trajetória até conseguir o tão sonhado diploma foi louvado pelos colegas, que decidiram homenageá-lo. Aplaudido, Jonas ficou surpreso. Não esperava tamanha consideração. Tímido, chorou ao ficar de pé, em destaque, entre os demais (agora) médicos.

“Não existem vidas comuns. Apesar de termos tantos milagres hoje a contar, a turma 95 escolheu um desses milagres para receber o grau (de médico) em nome de todos nós. Antes de ser estudante de medicina ele lutou contra a exploração de mão de obra infantil nas usinas de cana-de-açúcar no interior de Pernambuco”, discursou a oradora, Débora Lima, assim que a solenidade começou.





“Nascido em Palmares, criado em Joaquim Nabuco, foi cortador de cana até os 15 anos. Aos 24, o quinto dos sete filhos de seu José Lopes e dona Edileusa chega à universidade. Hoje nossa turma pede que Jonas Lopes da Silva fique de pé para receber nosso aplauso e reconhecimento”, complementou Débora. O rapaz foi aclamado com muitas palmas.

Para testemunhar esse momento, uma pequena caravana saiu de Joaquim Nabuco, distante 113 quilômetros de Recife, antes do sol se pôr: os pais, os seis irmãos, cunhados, alguns primos, tios. Três carros cheios de gente e de orgulho.

“Não dormi nem comi direito. Meu coração está acelerado, a mil por hora. Meu filho conseguiu realizar o sonho de se tornar médico”, comentou dona Edileusa, tão tímida quanto o filho. Ela precisou levar Jonas para acompanhá-la na cansativa labuta de cortar e limpar cana, quando ele era criança, pois dali que tirava o sustento para garantir o feijão com arroz de todos os dias.

Também estava lá Benjamim Gomes, professor de Jonas no terceiro período do curso médico e que tanto o apoiou em vários momentos da faculdade. Fernando Beltrão, igualmente professor de medicina da UPE e de um cursinho onde Jonas ganhou bolsa para se preparar para o vestibular, foi outro que presenciou a formatura.

A alegria pela conclusão da graduação médica era a mesma de Márcio Nascimento, 29 anos, colega de turma de Jonas. Suas histórias se parecem. Ambos moraram na Casa do Estudante de Pernambuco, no Derby, área central do Recife. Enfrentaram restrição financeira e saudade dos parentes enquanto cursaram os seis anos da faculdade. Não desistiram.

“A formatura é o apogeu. Esperei muito por esse dia. É uma alegria sem tamanho”, destacou Márcio, ao lado da esposa, Juliane, grávida de seis meses, e do filho Bruno, 8 anos. Os pais, sogros, irmãos e parentes também saíram de Floresta, no Sertão (a 417 km de Recife), para participar da colação de grau em Olinda.

“Foi um milagre de Deus eu virar médico. Ele, minha família e tantas pessoas apostaram em mim e sou muito grato por isso. Espero ser um bom médico para retribuir”, afirmou Jonas, que agora tem como desafio passar na residência em clínica médica ou cardiologia.


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