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HISTÓRIA DE VIDA

Estudante que pedia esmola em Pernambuco vai estudar medicina no Canadá

Denis José da Silva, morador de Ribeirão, na Zona da Mata, ganhou bolsa numa universidade canadense

Publicado em 01/07/2016, às 05h35

Denis não se intimidou com as dificuldades e conseguiu bolsa para estudar medicina no Canadá / Foto: Ashlley Melo / JC Imagem
Denis não se intimidou com as dificuldades e conseguiu bolsa para estudar medicina no Canadá
Foto: Ashlley Melo / JC Imagem
Margarida Azevedo

Denis José da Silva, 17 anos, cresceu pedindo esmolas e comida nas ruas. Primeiro em Ipojuca, no Grande Recife, quando era criança. Depois, e até hoje, em Ribeirão, na Zona da Mata pernambucana. O que ganhava, entregava a mãe. Um trocado ou outro gastava em lan houses. Foi quando começou a desejar estudar medicina nos Estados Unidos. Em setembro, o sonho começará a ser realizado, mas no país vizinho do Canadá. Para viabilizar a viagem, ao custo estimado de R$ 8 mil – o curso, a alimentação e a moradia estão garantidos pela faculdade – Denis começou uma campanha de arrecadação online. Em menos de 24h conseguiu atingir a meta. Há mais R$ 26 mil pendentes. Se o dinheiro a mais chegar realmente, o adolescente já sabe o que fazer: comprar uma casa para sua família antes de embarcar.

“Não esperava uma repercussão tão rápida. Comecei a campanha domingo. Até quarta-feira à noite tinha R$ 130. Depois que a minha história saiu em um site de notícias nacional (o UOL) as doações começaram a chegar. Estou muito feliz porque já tenho garantido o dinheiro para custear a viagem. Se sobrar quero comprar uma casa para meus pais e irmãos”, diz Denis. Ele sabe bem a importância de ter um lugar para viver. Na infância a família morou embaixo de uma ponte, em Ipojuca, e em um barraco de lona e lençóis em uma quadra abandonada em Ribeirão.



Do tempo que morou embaixo da ponte, Denis lembra das lagartas de fogo que queimavam a pele e dos refrescantes banhos de rio. “Nessa época eu ficava a noite toda na frente de um supermercado para esperar as sobras de comida e carne”, recorda a mãe dele, Rita Maria da Silva, 50, que ainda hoje vai para rua pedir comida quando o prato em casa está vazio. A dificuldade era tão grande que a família mudou-se para Ribeirão. A sina de pedir comida pelas ruas nunca parou. Nenhum dos cinco filhos frequentava a escola. Ao passar em uma residência, o menino, então com 6 anos, viu um episódio de Chaves na televisão. Pediu para assistir. A dona da casa deixou. E lá Denis viveu dos 6 aos 10 anos, quando começou a estudar num colégio público.


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“Essa senhora me adotou. Ela era casada e não tinha filhos. Me criou como se fosse um. No primeiro ano cursei a 1ª série. Depois pulei logo para a 4ª série porque era um programa de aceleração (Se Liga e Acelera). Concluiu o ensino fundamental com 11 anos. Pegava os assuntos fácil, gostava de ir para a escola”, diz Denis. Foi a época que voltou a viver com os pais. Parou de estudar. “Fomos morar na zona rural, não havia ônibus para levar para a escola. Mas nunca abandonei o desejo de estudar. Quando catávamos roupas e brinquedos no lixo sempre achava livros. Adorava porque lia assuntos de biologia e ciências, meus preferidos.”

Em 2014 a família voltou a viver em Ribeirão. “Pedi tanto para voltar aos estudos que minha mãe foi comigo numa escola, mas não tinha vaga. Depois fomos em outra, a que estou atualmente. Fui muito bem recebido”, relembra Denis, aluno do 3º ano do ensino médio da Escola Estadual Padre Américo Novais. Aluno aplicado, com boas notas desde que iniciou o ensino médio, em 2014 candidatou-se a uma vaga do programa de intercâmbio Ganhe o Mundo, do governo estadual. Conseguiu (tirou média 9,6 em inglês, 9 em português e 8 em matemática). Em agosto do ano passado viajou para Manitoba (Canadá), onde morou até fevereiro deste ano.

Viveu na casa de uma médica que tem 3 filhos pequenos. Um luxo impossível na sua realidade do Brasil: tinha um quarto só seu (aqui ele, os pais e os quatro irmãos habitam uma casa de dois quartos. Denis dorme num sofá na sala). Em janeiro, numa feira de universidades que aconteceu na escola canadense, inscreveu-se em duas universidades pleiteando uma bolsa em medicina. A surpresa veio no último dia 15, com a confirmação de que teria uma bolsa integral na Universidade de Manitoba (por ano o curso de medicina custa cerca de R$ 120 mil, segundo o rapaz).

Para se manter lá ele planeja trabalhar nos finais de semana num hotel da família canadense que o recebeu. “Com o dinheiro da campanha vou comprar passagens e agasalhos pois chegarei no inverno. Também alimentação e transporte durante o percurso”, explica Denis. A conclusão no ensino médio deverá ser antecipada. “Estou estudando 10 horas por dia para o Enem pois planejava tentar medicina na UFPE. Agora vou para o Canadá. Voltarei médico, se Deus quiser. Assim poderei ajudar meus pais, melhorar a vida deles.”




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