Jornal do Commercio
TRADIÇÃO

A saga do milho

Ivanilda Pereira da Silva assumiu lugar da mãe e de domingo a domingo vende pamonha, canjica e milho cozido na esquina da Rua do Espinheiro com Avenida João de Barros

Publicado em 30/06/2012, às 16h20

Ciara Carvalho

“Não deixe aquele ponto cair.” O pedido, feito pela mãe um dia antes de morrer, soou como uma ordem para a filha. A mãe é Terezinha Maria da Conceição, que, durante 40 anos, debaixo de sol ou de chuva, de dia e de noite, vendeu pamonha, canjica e milho cozido na esquina da Rua do Espinheiro com a Avenida João de Barros, no bairro do Espinheiro, Zona Norte do Recife. A senhora simpática e excelente cozinheira ganhou clientela fiel. Sua barraca virou referência, ponto de parada dos apreciadores da boa comida regional. Com a morte da mãe, aos 85 anos, a filha, Ivanilda Pereira da Silva, 53, assumiu o posto. “Prometi continuar o trabalho dela e vou cumprir. Só saio de lá, quando Deus me chamar. Igual a minha mãe.” Assim, Ivanilda vai ajudando a escrever a história da família, marcada por mulheres no fogão e milho na panela.


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De domingo a domingo, a barraca estaciona na calçada da Rua do Espinheiro no começo da tarde e só vai embora de noite, geralmente com os caldeirões vazios. Não foi fácil assumir o lugar da mãe, morta há três anos. A clientela sentiu a ausência de dona Terezinha. “O povo achava que ela tinha vendido o ponto. Quando eu contava que ela havia morrido e eu era filha dela, as pessoas tomavam um susto. Era muito querida por todos”, diz, Ivanilda, sem conseguir segurar as lágrimas. Sempre que fala da mãe, a filha se emociona. E recorre o tempo todo às palavras da matriarca para ir costurando seu futuro. “Ela dizia para mim: ‘Calma, levanta a cabeça, tenha força’. Quando me desespero, lembro de tudo o que ela passou e não me dou o direito sequer de adoecer”, diz a confeiteira, que, na ausência da mãe, precisou trocar os doces pela palha do milho.



Até o ano passado, a missão de seguir a saga da família parecia ameaçada. “As vendas caíram muito. As pessoas ainda procuravam por ela”, lembra. Este ano, a história é outra. Ivanilda começou a formar sua própria clientela. As vendas aumentaram e até encomendas ela já recebe. “O segredo é fazer com amor, tratar o cliente bem e ir sempre melhorando a qualidade dos produtos”, diz, feliz da vida com os tempos promissores. Quem era acostumado a comprar com a mãe aprovou o tempero da filha. “A comida é muito gostosa. Ela conseguiu manter a mesma qualidade. Sempre que passo, levo pamonha e canjica para casa”, elogia a professora Lenice Lima, 44, ressaltando a limpeza e a organização da comerciante.

Quem vê Ivanilda na calçada, cheia de atenção com os clientes, não imagina a operação que é chegar até ali, com paneladas de pamonha, canjica, milho cozido, além de tapioca e bolos. Ela acorda religiosamente às 5h, todos os dias, para preparar a comida que será vendida logo mais. Não faz isso sozinha. Em Santo Amaro, na região central do Recife, onde mora numa casa com outras 11 pessoas, tudo gira em torno do milho. Na sala, praticamente não há móveis. Só panelas, fogão e uma mesa onde a comida é cuidadosamente preparada. As mulheres da família se juntam para dividir tarefas. Cunhadas, irmãs, sobrinhas, todas colaboram. Só para mexer a canjica são duas horas de fogo. No braço. Sem deixar emboloar. Ninguém reclama. Tudo o que se tem ali, inclusive a casa, foi comprado com o dinheiro do milho. Legado de dona Terezinha que cabe agora a Ivanilda comandar.

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