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Patrimônio

Engenho São João, em Itamaracá, ameaçado pelo abandono

Lugar de nascimento do abolicionista João Alfredo, o engenho remonta ao século 17 e é tombado pelo Estado

Publicado em 07/12/2015, às 08h08

Fundarpe tem projeto para recuperação da propriedade, mas alega falta de recursos / Foto: Ashley Melo/JC Imagem
Fundarpe tem projeto para recuperação da propriedade, mas alega falta de recursos
Foto: Ashley Melo/JC Imagem
Da Editoria Cidades

A casa-grande do Engenho São João, na Ilha de Itamaracá, onde nasceu o abolicionista João Alfredo Corrêa de Oliveira, em 12 de dezembro de 1835, continua desmoronando à vista de todos, às margens da PE-35. Destelhado, cheio de mato, com piso quebrado e paredes rachadas, nem parece que o casarão é tombado como patrimônio histórico de Pernambuco desde 1983. O prédio, sem uso e sem conservação, pertence ao governo do Estado.

Em 2012, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco elaborou projeto para transformar toda a área do engenho no Centro de Referência Cultural e Ecológica de Itamaracá. A obra, avaliada em quase R$ 6 milhões, esbarrou na falta de verba. “Infelizmente, o projeto não foi levado adiante”, afirma a arquiteta Rosa Bonfim, chefe da Unidade de Preservação da Fundarpe.

A proposta previa novos usos para o casarão, a fábrica – onde se produzia o açúcar – e os demais imóveis erguidos no terreno quando o espaço era ocupado pela Penitenciária Agrícola de Itamaracá, no século 20. Todos voltados para o turismo histórico e ambiental. A fábrica não é tombada, mas faz parte da área de preservação do monumento.


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Um dos primeiros engenhos movidos a vapor no Brasil, o São João remonta ao século 17. O casarão atual, possivelmente do século 18, foi construído sobre as ruínas da edificação mais velha e mantém a fachada no estilo arquitetônico neoclássico, informa Rosa Bonfim. No século 19, o engenho pertencia ao avô materno de João Alfredo.

Conselheiro e estadista do reinado de Dom Pedro II (1840-1889), João Alfredo Corrêa de Oliveira tem o nome vinculado à abolição da escravatura no Brasil. Ele foi ministro do Gabinete Rio Branco, que promulgou a Lei do Ventre Livre, em 28 de setembro de 1871; e presidente do Gabinete de 10 de Março, que ordenou a publicação da Lei Áurea (documento redigido pelo abolicionista pernambucano), em 13 de maio de 1888.



A última intervenção realizada pela Fundarpe na casa-grande foi a estabilização das paredes, em 2008. Na época, a fundação vedou as aberturas de portas e janelas, para evitar novos saques. Logo depois, vândalos abriram um buraco nos tijolos. O casarão serviu como residência para o diretor da Penitenciária Agrícola, nos anos 50 e 60.

De acordo com Tácito Galvão, pesquisador do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, até então, sabia-se que o São João já moía cana em 1689. Porém, mapas antigos indicam a existência de outro engenho, denominado Trapiche, nesse mesmo local, no início da ocupação holandesa no Nordeste brasileiro, em 1630.

“É possível que o Engenho São João seja o Trapiche, reconstruído após a saída dos holandeses, em 1654, e renomeado”, declara. Há um ano e meio ele pesquisa a história da Ilha de Itamaracá e está coletando dados sobre a origem dos engenhos de cana-de-açúcar. O São João era propriedade do português João Guedes Alcoforado. Depois de vendido chegou às mãos de João de Medeiros Raposo, o avô de João Alfredo, diz Tácito.

Sábado próximo, 12 de dezembro, é o aniversário de 180 anos de nascimento de João Alfredo. O abolicionista morreu no Rio de Janeiro em 6 de março de 1919.



Comentários

Por Paulo Maurício Barros de Oliveira,21/04/2018

Eu quando num curto período exerci os cargos de vice diretor e diretor de produção da Penitenciária Agrícola de Itamaracá no final da década de 80, fazia minhas refeições na varanda dos fundos deste casarão, existia naquela época uma preocupação em não se andar pelas dependências do casarão porque poderia desabar, usávamos a cozinha enorme, a varanda dos fundos, um banheiro e um único quarto, tudo aos fundos do grande casarão. Me lembro de arriscar e caminhar por uma varanda lateral e entrar na grande sala ainda com algumas mobílias da época, num piso de de assoalho de madeira que rangia a cada passo numa nítida preocupação que pudesse desabar. Havia um porão por baixo da sala grande que provavelmente era a senzala por contar com portões de ferro e argolas fixadas nas paredes. Senão me falha a memória a funcionária da SUSIPE dona Lourdes moradora do complexo que envolviam várias casas de funcionários entre o prédio da Penitenciária e o Posto 3 perto do Engenho São João (restaurado), existia também uma Padaria, algumas lojas de artesanato a marcenaria e um estábulo mais longe da Casa Grande. Tinham vários pavões que voavam para cima do telhado do casarão e faziam um barulho danado. Dona Lourdes fazia o almoço e servia-o, geralmente almoçávamos eu e o coronel Solano que depois do almoço dava um cochilo no único quarto perto da cozinha que podíamos entrar com segurança, enquanto isso eu ia até o Departamento de Produção ali perto chegando pela garagem/oficina com vários tratores quebrados com somente dois que ainda mantínhamos para a colheita de cocôs (um Valmet e um Ford) existia um caminhão chevrolet D 60 creme que fazia serviços e viagens programadas para o plantio da fazenda em Canhotinho PE, onde existe também uma Penitenciária Agrícola administrada na época pela SUSIPE onde plantávamos macaxeira e mandioca para casa de farinha. O Departamento de Produção tinha uma Parati branca que ficava direto com o agrônomo e uma Pampa verde 4x4 para serviços dentro da Ilha nos 1.473 hectares com pasto, coqueiros e uma parte de cana de açucar lá pela Jararaca perto já da Penitenciária Barreto Campelo, cheguei a vender para a Usina São José 714 toneladas de cana (cana fraca) e tudo que se produzia e se vendia na época entrava para o custeio da Penitenciária Agrícola de Itamaracá, voltando para Casa Grande a cocada feita por Dona Lourdes já estava pronta e era a hora do Coronel Solano se levantar do cochilo e com uma frase diária me dizia "Dr. Paulo, cuide bem da cadeia que eu vou pra Secretaria despachar com o Secretário" sempre de paletó escuro e gravata entrava na viatura um Gol branco e azul e partia, eu ali comia a cocada branquinha com um copo d'água gelado que Dona Lourdes fazia auxiliada por um preso que vivia por ali, a cozinha já toda arrumada fechavam a casa e eu ia então primeiro até estábulo e depois a pocilga onde chegamos a ter 13 porcas paridas com quase 100 porquinhos, no estábulo tinha 12 vacas lactentes, e ao passar pelo Engenho São João onde tudo era fechado embora restaurado mas sem uso só para visitações. Chegava já no final da tarde na sala do vice diretor onde eu ocupava na Penitenciária Agrícola de Itamaracá, sala grande com dois ambientes um biró grande de 7 gavetas com duas cadeiras na frente e a que eu sentava e uma pequena saleta com sofás de vime para uma visita mais formal, para as questões administrativas e disciplinares que envolvem uma Penitenciária, ficando no complexo até por volta das 21:30 hs quando se fazia a segunda e última contagem dos presos (totalidade), dali sai só já sabendo se houveram fugas e o que no amanhã poderia acontecer, embora eu sempre chegava no outro dia antes mesmo da retirada do leite, vivia ligado em tudo. A Casa Grande sempre foi uma preocupação constante e sempre desde aquele tempo no final dos anos 80 ouvia dizer que iriam reformar a casa que têm uma história rica que não pode se deixar de lado.

Por eu,05/05/2017

eu gostei

Por VHM,07/12/2015

Só para deixar claro! Pernambuco não é governado por Dilma e sim por Paulo Câmara. O casarão da reportagem pertence ao governo do Estado de Pernambuco. Portanto, a responsabilidade pela reforma e conservação deste monumento é do Estado. Vamos ser coerentes com verdade. Virou moda por a culpa em Dilma! Este casarão retrada o abandono que o Estado de Pernambuco vem passando durante os ultimos 9 anos no governo PSB.

Por Fernando,07/12/2015

Engraçado é que o Governo nunca tem dinheiro para coisas importante como: Educação, Saúde, Conservação do Patrimônio Histórico, Segurança e Saneamento Básico. Mas para Lava Jato, Mensalão, desvio de dinheiro Publico para todos os lado, então nisso tem dinheiro de sobra, o que a população tem que fazer esta esperta, e votar em politico menos corrupto, e cobrar desses politico, aquilo que eles devem fazer que é favorecer a nossa cidade, Estado e Nação, pq é através disso que o povo vai ver algo bom, não adianta votar errado, e não enxergar que o seu candidato esta acabando com tudo, como estamos vendo atualmente a Presidente Dilma e o PT acabando o que resta do Brasil, e um punhado de besta achando isso normal e defendendo esse Governo cheio de safadeza e corrupção pois a Petrobrás e as pedalada fiscais faz parte do Governo, e o que acontece de errado é por culpa de um Governo corrupto e negligente.

Por Paulo,07/12/2015

Nos aos de 1959 e 1960, fui frequentador da casa grande. Lá trabalhavam presos de bom comportamento que inclusive acompanhava a meninada nas cavalgadas. Via os presos trabalhando no engenho, que ficava logo abaixo da Casa Grande, outros plantando e cuidando dos animais. Bons tempos.



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