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Pernambuco: terceiro em morte de jovens no País, alerta Unicef

Desde 2012, o número de adolescentes mortos ultrapassa o da população em geral, no País. Se ele for negro, o risco de morte é três vezes maior. O Unicef desafia os candidatos a reduzirem a violência entre crianças e adolescentes, em campanha abordada em série do JC

Publicado em 18/09/2018, às 08h31

Joelma vai ficar frente a frente com o PM que matou seu filho pela primeira vez / Filipe Jordão/JC Imagem
Joelma vai ficar frente a frente com o PM que matou seu filho pela primeira vez
Filipe Jordão/JC Imagem
Margarette Andrea

Se alguém lhe dissesse que cinco boings 737 estão programados para cair em Pernambuco, cada um com 156 crianças e jovens de 10 a 19 anos a bordo, mas que você poderia salvar boa parte dessas vidas, o quanto isso seria sua prioridade? Documento lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), entregue aos candidatos, registra que essa tragédia vem se repetindo há anos, sem a devida atenção, pois, em vez do escândalo que aeronaves explodindo provocariam, a catástrofe ocorre de forma silenciosa, despedaçando, sobretudo, famílias pobres da periferia. Em 2016, conforme a entidade, o Estado foi o terceiro do Brasil, em números absolutos, com mais homicídios nessa faixa etária, baseado em dados do Datasus. Foram 780 assassinatos (uma média de dois por dia), atrás apenas de Minas Gerais (826) e Bahia (1.491).

Se para os futuros governantes o desafio é mudar essa realidade, para as mães das comunidades mais pobres a batalha diária é para manter os filhos vivos, longe das facilidades que a droga oferece e da revolta muitas vezes provocada pelo racismo, discriminação, falta de oportunidades e desigualdades sociais. Por isso a diarista Joelma Andrade de Lima, 36 anos, sempre teve orgulho do filho, Mário Andrade de Lima, que chegou ao primeiro ano do ensino médio aos 14 anos, conseguiu uma vaga de jovem aprendiz e fazia planos de montar seu próprio negócio. Na próxima segunda-feira (24), ele iria comemorar 17 anos de vida, mas em vez disso a família acompanhará o julgamento do homem que roubou seu futuro e o colocou nas estatísticas, em 25 de julho de 2016.

Segundo testemunhas, Mário foi executado na Avenida Dois Rios, no bairro do Ibura, Zona Sul do Recife, com três tiros pelo sargento reformado da Polícia Militar Luiz Fernandes Borges, então com 50 anos, depois da bicicleta em que estava com um amigo de 13 anos colidir com a moto do PM e ferir o pé dele. O mais novo fugiu e levou três tiros, mas sobreviveu. “Com certeza, se fosse um garoto de classe alta isso não teria acontecido”, desabafa Joelma, para quem o filho chegou a escrever uma música, chamando-a de guerreira, por ter criado sozinha ele e as duas irmãs (hoje com 7 e 6 anos). “Aquele homem acabou com a minha vida. Perdi o emprego, minha filha mais velha vive pedindo para morrer, deprimida, teve até duas paradas cardíacas. Toda hora desenha ela, o irmão e Deus. Preciso esconder minha dor para elas não caírem. Não sei se um dia volto a sorrir.”

MAIS VULNERÁVEIS

O chefe da plataforma do Semiárido do Unicef no Brasil e do escritório do Recife, Robert Gass, ressalta a vulnerabilidade dos jovens carentes. “Em geral, as maiores vítimas são crianças com pouco acesso aos serviços públicos ou com serviços (como a escola) de baixa qualidade, cujas mães engravidaram adolescentes, solteiras, sem condições para criar um filho. A droga também é um grande problema e muitas vezes surge como única oportunidade de se ganhar muito dinheiro”, diz. “Em 2016, 85% dos mortos eram negros; 95%, do sexo masculino; 94% tinham entre 15 e 19 anos e 76,6% menos de sete anos de escolaridade.”



O Unicef acredita que o principal é focar na prevenção, em escolas integrais, melhorias na infraestrutura das comunidades e no combate à impunidade. “Também é preciso dar atenção ao sistema socioeducativo, pois ele pode mudar o projeto de vida dos jovens infratores, fazer eles verem outras possibilidades”, diz o gestor. Ele cita como iniciativas positivas os dois Compaz criados pelo Recife e as escolas em tempo integral, do Estado. “Mas ainda não temos nada que faça uma diferença significativa”, defende.
Fernanda Alves, 25 anos, jovem multiplicadora do Grupo Comunidade Assumindo Suas Crianças, de Peixinhos, Olinda, reforça: “Essa violência é resultado de abandono, de falta de políticas públicas e de estrutura familiar. De jovens não terem perspectivas. Escola só não basta, é mesmice”.

PREVENÇÃO

O secretário de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude (SDSCJ), Cloves Benevides, afirma que além das boas colocações do Estado nas avaliações nacionais de ensino, programas de prevenção são reforçados. “Este ano, o Juventude Presente abriu 15 mil vagas em cursos profissionalizantes, para moradores (preferencialmente de 15 a 29 anos) de 50 comunidades atendidas pelo programa Governo Presente, no Recife, Jaboatão, Cabo, Paulista, Caruaru e Petrolina. Fizemos rodas de diálogos com os jovens, que nos trouxeram como principal necessidade a de trabalhar”, destaca, citando ainda o Casa das Juventudes, o Pernambuco no Batente e o Atitude.

Sobre o sistema socioeducativo, hoje com 1.390 jovens (87% negros e pardos), o secretário reconhece a necessidade de melhorias, como a de separá-los por perfil. “Vamos começar a fazer isso com a inauguração de três unidades”, diz. Hoje, 45% estão apreendidos por roubo e a reincidência é de 47%. O secretário de Defesa Social, Antônio de Pádua, afirma que a pasta tem investido em programas de prevenção e em melhorias operacionais e estruturais que reduzem a impunidade. “Só em 2017, prendemos 2,5 mil homicidas, que respondiam, em grande parte, pelo assassinato de jovens.”





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