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Casa modernista é saqueada na Madalena

Projetada em 1969 pelos arquitetos Delfim Amorim e Heitor Maia Neto, a casa modernista fica na Zona Oeste do Recife e não é protegida por lei

Publicado em 10/09/2019, às 09h43

A casa foi revirada, teve portas e torneiras arrancadas e papéis espalhados pelo chão / Foto: Leo Motta/JC Imagem
A casa foi revirada, teve portas e torneiras arrancadas e papéis espalhados pelo chão
Foto: Leo Motta/JC Imagem
Cleide Alves
cleide@jc.com.br

Uma casa modernista projetada pelo arquiteto Delfim Amorim – o mesmo que desenhou edifícios icônicos como o Acaiaca à beira-mar de Boa Viagem e o Pirapama na Avenida Conde da Boa Vista – está sendo saqueada na Madalena, Zona Oeste do Recife. O imóvel teve portão, luminárias, torneiras e interruptores de luz arrancados, portas escancaradas, armários revirados, louça sanitária quebrada e papéis espalhados pelo chão dos cômodos.

Localizada no número 91 da Rua Comendador Bento Aguiar, a casa modernista é particular e, embora não seja protegida por lei, representa um período importante da arquitetura moderna na cidade.“É lamentável a casa ser destruída dessa maneira”, afirma Luiz Amorim, arquiteto, professor da Universidade Federal de Pernambuco e filho de Delfim Fernandes Amorim (1917-1972). Antes do saque, diz ele, o imóvel estava bem preservado e com pouquíssimas modificações internas.


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O projeto da residência foi desenvolvido em parceria com o arquiteto Heitor Maia Neto, falecido em 2014 aos 87 anos. Na década de 1950, Delfim Amorim (português naturalizado brasileiro) e Heitor Maia ficaram conhecidos por praticarem arquitetura moderna adaptada ao clima local. Um exemplo é o uso da telha canal sobre a laje de concreto armado. “É uma solução que garante um certo sombreamento e impede a entrada de água da chuva na parede caso apareça fissura na laje”, explica Luiz Amorim.

Inicialmente, a invenção era aplicada em laje plana. “Eles vão expandindo e avançando essa técnica e, em 1969, ao projetarem a casa da Madalena, lançam uma composição mais radical, em laje inclinada, com uma declividade grande, é uma reinven-ção da técnica criada na década de 1950”, avalia Luiz Amorim. “A moradia é relativamente simples, de classe média, com três quartos e soluções extremamente engenhosas”, destaca o arquiteto e urbanista da UFPE.



Como a fachada principal é poente e o terreno é pequeno, os arquitetos encontraram um novo arranjo para fazer o ar circular, deixando os ambientes internos mais frescos e ao mesmo tempo reservados na casa modernista da Madalena. “O problema foi resolvido com a inclinação grande da laje, isso força a saída do ar quente e traz mais frescor para todos os cômodos.” A casa é representativa e deveria ser preservada, defende Luiz Amorim, pesquisador da arquitetura moderna.

MANIFESTO

Para o presidente da seccional pernambucana do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-PE), Roberto Ghione, embora a casa modernista da Madalena não tenha amparo legal, ela é um patrimônio cultural da cidade. A entidade pretende publicar um manifesto com a intenção de alertar a sociedade para a perda da edificação. E vai acionar a Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural do Recife (DPPC) para saber da possibilidade de classificar a residência, hoje sem uso, como Imóvel Especial de Preservação (IEP), proteção que impede demolição e descaracterização.

“Seria um procedimento similar ao das casas modernistas da Avenida Rosa e Silva (moradias geminadas próximas ao cruzamento com a Rua Amélia no bairro das Graças), classificadas como IEP pelo município quando estavam ameaçadas”, comenta Roberto Ghione. De acordo com a DPPC, o pedido para inclusão de uma edificação na lista de IEPs pode ser feito pelo proprietário do bem ou pela prefeitura. Sobre a moradia da Rua Comendador Bento Aguiar, os proprietários nunca ingressaram com a solicitação, informa a DPPC.

Técnicos da DPPC iniciaram estudos para possível indicação e classificação da casa da Madalena como IEP, mas a pesquisa histórica e documental ainda é preliminar. A prefeitura acrescenta que não tem poder de polícia para intervir nos saques porque o imóvel é particular e sem proteção municipal. O JC não localizou o proprietário. Há 258 IEPs no Recife, dos quais 154 classificados no ano da criação da lei, em 1997. O último a receber o título foi o prédio do Jóquei Clube, no Prado, Zona Oeste, em julho de 2019.




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