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Urbanismo

Uma cidade chamada Ilha do Joaneiro

Às margens da Agamenon Magalhães, comunidade resiste, com orgulho, à expansão imobiliária

Publicado em 19/05/2012, às 21h25

Vista área da Ilha do Joaneiro / Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
Vista área da Ilha do Joaneiro
Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
Ciara Carvalho

Eles não aceitam mais ser chamados de favelados. Trocaram as palafitas do passado por casas de alvenaria, muitas delas com primeiro andar e equipadas com aparelhos eletrônicos de última geração. Fincada às margens da Avenida Agamenon Magalhães, o principal corredor viário do Recife, a Ilha de Joaneiro é vizinha de prédios luxuosos que, diga-se de passagem, chegaram depois da ocupação.

A localização é excelente. Oficialmente, as cerca de 4.500 casas da comunidade pertencem ao bairro de Campo Grande, na Zona Norte da capital, mas há quem confunda o endereço com o vizinho bairro do Torreão. Com escolas, posto de saúde e mais da metade das ruas calçadas, a comunidade cresceu. Brigou por investimentos sociais, respeito dos órgãos públicos, cidadania. E se orgulha disso.

Entre os moradores, a conversa é uma só. “Comparado ao que a gente era, podemos dizer que somos ricos hoje. Moramos perto de tudo e com mercadinho, padaria, escola, água na torneira. Tem casa boa lá fora que não tem o que a gente tem aqui”, comemora a manicure Severina Domingos de Paula, 42 anos.



Basta conhecer a história de luta da ilha para entender porque as palavras de Severina sintetizam o sentimento geral. Antiga área de mangue, que foi sendo aterrado com a ocupação, o local era cheio de palafitas e os moradores viviam dentro da lama. “A gente acordava com o pé na podridão, com cobra, rato, sangue-suga grudado na perna. Era favelado. Agora não é mais”, diz Sandra Maria Nogueira Sobral, 40, nascida na comunidade.

A história de superação e resistência da Ilha de Joaneiro se prepara para viver seu capítulo mais importante. Um marco para cada uma das dez mil pessoas que hoje moram na comunidade. Após anos de espera, os moradores estão na expectativa de receber o título de posse do imóvel. Não é a primeira vez que a promessa é feita. Por duas vezes, nos anos de 2000 e 2006, eles chegaram a ter os nomes cadastrados. O mesmo levantamento está sendo feito novamente pela Secretaria das Cidades, mas agora com a garantia de que até o fim deste ano cada morador será dono, de fato e de direito, de sua casa.

“Será um dia inesquecível quando tiver a escritura da minha casa na minha mão. Vou poder dizer e registrar em cartório que sou dona do meu teto”, comemora, por antecipação, a manicure Severina Domingos, lembrando os tempos de antigamente, quando sua casa nem porta tinha. “Entrava pela janela.”

Apesar dos avanços conquistados, a comunidade sofre hoje com a falta de saneamento básico, um problema que já deveria ter sido resolvido. Em 2009, a Ilha de Joaneiro foi beneficiada com obras de esgotamento sanitário em várias ruas. A questão é que menos de um ano após a conclusão das obras, segundo os moradores, os esgotos entupiram, as canaletas estouraram e hoje é possível ver crateras abertas em várias ruas. “Desde que foi implantado, nunca funcionou. A estação elevatória, construída perto da comunidade, era para puxar os dejetos dos esgotos das casas, mas isso não está acontecendo”, diz o presidente da Associação da Ilha do Joaneiro, Edvaldo Ferreira Monteiro.

Sem acreditar em melhoras, muitos moradores voltaram a jogar a sujeira nos canais. O que mais revolta a comunidade é a placa erguida em frente à estação elevatória propagando os milhões de reais investidos no projeto de saneamento na ilha e em outras três comunidades. “Olha os R$ 3 milhões investidos aqui”, diz o representante da associação ao mostrar uma canaleta aberta na Rua Lenira que, para evitar uma tragédia, foi fechada, de improviso, com paus de madeira e uma tampa de cimento, colocados pelos próprios moradores.

Leia mais na edição deste domingo do JC.

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