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CRIME DE ITAMBÉ

As marcas do sangue de Edvaldo

A morte do jovem atingido por tiro disparado pela polícia deixa rastros permanentes

Publicado em 12/04/2017, às 19h32

Maria Sebastiana da Silva, mãe de Edvaldo, não conseguiu ir ao enterro do filho / Bobby Fabisak/JC Imagem
Maria Sebastiana da Silva, mãe de Edvaldo, não conseguiu ir ao enterro do filho
Bobby Fabisak/JC Imagem
Adriana Victor

Edvaldo sangrou durante 25 dias. De 17 de março, quando foi atingido por bala disparada pela polícia militar, até os primeiros minutos da terça, 11 de abril, quando morreu. Velado e enterrado nesta quarta (12) em Itambé, as marcas do sangue de Edvaldo, que lavou as suas pernas desde o primeiro instante da agressão, ficarão nos olhos perdidos de dor de dona Maria Sebastiana: “Por que ele matou o meu filho? Por que?”, perguntava a mãe do jovem que completaria 22 anos em 24 de maio.

Ainda há marcas indeléveis da morte e do sangue de Edvaldo pelo Brasil acuado pela violência, por Pernambuco sitiado por roubos e assassinatos, por toda a cidade de Itambé, zona canavieira de Pernambuco, com seus pouco mais de 36 mil moradores.

Parte deles decidiu, em 17 de março de 2017, ir às ruas para dizer que ali não havia sossego. Era segurança o que buscavam e, por isso, um protesto. A polícia que deveria proteger, desafiou: “Quem vai levar o primeiro tiro? Esse vai levar o primeiro tiro?”, perguntou o policial (veja vídeo abaixo). A bala era de borracha; a bala matou.

As cenas que se seguem espantam e estarrecem, mesmo que assistidas repetidas vezes. Edvaldo é arrastado pelos policiais até a caçamba de uma camionete da corporação. Em nenhum momento tenta-se estancar o seu sangue que encharca as suas pernas. Jogado, puxado para que seu corpo possa caber na parte traseira do veículo, ninguém o ficaria ao seu lado até o hospital. Antes que o carro saia, um homem dá tapas em Edvaldo. A polícia assiste.



QUEIXA

Quatro dias depois do crime, a família denunciava: não tinha conseguido prestar queixa; a delegacia local se recusara a fazer o registro. A Secretaria de Defesa Social desmentia a informação e afirmava ter instaurado inquérito policial e procedimento administrativo para apurar o crime. Anunciava ainda ter afastado das ruas os dois oficiais e um soldado envolvidos no caso - todos da 3ª Companhia de Policiamento de Goiana, cidade vizinha a Itambé.

Edvaldo foi velado no Ginásio Esportivo de Itambé durante esta quarta-feira (12). Os moradores da cidade e a sua família querem que o Governo de Pernambuco responda pela morte do jovem. No final da tarde, um grande cortejo ocupou as ruas da cidade. Dona Maria Sebastiana, a mãe, não conseguiu acompanhar. Junto ao caixão de Edvaldo, a sua guitarra. Ele era chamado de Pretinho e adorava música.

Da carroceria onde sangrava em 17 de março, Edvaldo foi levado para o Hospital Municipal de Itambé e depois transferido para Hospital Miguel Arraes, em Paulista, no Grande Recife. O primeiro boletim médico, divulgado três dias depois, relatava: “deve ser submetido a um procedimento para retirada de compressas colocadas em cirurgia para estancar sangramentos". Os sangramentos de Edvaldo não estancarão tão cedo.


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