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Tecnologia 3D ajuda na reconstrução de crânios em hospital do Recife

Cirurgião plástico do HR reconstrói crânios de vítimas de trauma com apoio de software desenvolvido em Campinas (SP)

Publicado em 26/07/2015, às 10h15

Médico Pablo Maricevich buscou parceria em Campinas, aperfeiçoando a técnica de reconstrução usada no hospital / Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
Médico Pablo Maricevich buscou parceria em Campinas, aperfeiçoando a técnica de reconstrução usada no hospital
Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
Veronica Almeida
valmeida@jc.com.br

Aos 20 anos, o jovem Lucas Rafael da Silva, morador de Itapissuma, Grande Recife, tem a sensação de estar recomeçando a viver. Em 16 de março de 2013 seus planos de chegar à faculdade e se formar em pedagogia foram interrompidos. Quinze dias depois de obter a habilitação para guiar sua moto, sofreu um grave acidente, e, mesmo com capacete, teve traumatismo encefálico. Durante o tratamento, perdeu quase um quarto do crânio, motivo para se esconder do mundo. Mas graças à união, no SUS, da cirurgia plástica à tecnologia 3D, ficou livre da deformidade e está disposto a recuperar o que deixou para trás.

A parceria que acaba de devolver a Lucas a parte do crânio milimetricamente perfeita acontece entre o Hospital da Restauração, referência em trauma e neurocirurgia, no Recife, e o Centro de Informação Tecnológica Renato Archer, em Campinas (SP). O serviço estadual é um dos 130 hospitais do País a contar com o apoio do centro do Ministério da Ciência e Tecnologia. Há uma década e meia o CIT ajuda médicos a entender melhor o corpo do doente, tratar e curar seus males.



No HR, o cirurgião plástico que nunca brincou de escultor na infância, mas sempre admirou a arte e a tecnologia, sente-se realizado ao ver o sorriso de volta ao rosto antes sofrido das vítimas do trânsito. Juan Pablo Maricevich, 35, bisneto de um croata que mudou-se para o Paraguai fugindo da Primeira Guerra Mundial, dedica-se a mudar a história de quem sobrevive à batalha moderna. Foi ele quem buscou a parceria em Campinas, aperfeiçoando a técnica de reconstrução usada no hospital. É cirurgião geral, especializou-se em plástica e cirurgia crânio-maxilo-facial, com passagem pelos Institutos Ivo Pitanguy e Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro.

"Era um desafio encontrar o encaixe perfeito. Com a tecnologia 3D conseguimos moldar a prótese customizada, feita exclusivamente para cada paciente", explica. Em menos de um ano ele já operou 23 pessoas. Maricevich explica que o implante feito sob medida perfeita beneficia não só as vítimas de trauma, mas também quem se submeteu à remoção de tumores, sofreu acidente vascular cerebral (AVC) ou teve outras anomalias que causaram deformidades cranianas. Muitas vezes, mesmo não havendo fratura óssea, é necessário remover um pedaço do crânio quando há inchaço do cérebro.

"Inflamado, não tem para onde expandir. Por isso é necessário abrir o crânio." A parte removida pode ser guardada no abdome. Mas o osso vai sendo absorvido pelo organismo e, na hora de ser reposto, está em tamanho menor, gerando incompatibilidade. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o caminhoneiro de Bom Jardim (Agreste) Antônio Gonçalves, 54, outro a se beneficiar com a técnica que usa tecnologia 3D. Ele foi atropelado no ano passado e em fevereiro último recebeu a prótese. "Minha mãe, de 78 anos, diz que agora estou bonito", comenta.

Depois do protótipo do crânio, feito pela impressora 3D, em Campinas, uma forma também é gerada, para que o médico, durante a operação, molde, em dez minutos, o cimento cirúrgico, biocompatível com o organismo. O procedimento completo dura em média três horas e a peça é fixada com ajuda de ligas de titânio. "Nessa cirurgia reparadora, funcional, a estética é bônus e tem muita importância na saúde mental", observa Maricevich, lembrando o restauro da autoestima do paciente. A reconstrução craniana corrige a deformidade, ao mesmo tempo em que protege o cérebro de disfunções neurológicas e desconfortos causados pela ausência da camada óssea de cinco a sete milímetros.

O engenheiro elétrico Jorge Vicente Lopes da Silva, coordenador da Divisão de Tecnologias Tridimensionais do CTI Renato Archer, mestre em computação e doutor em engenharia química, informa que desde o ano 2000 pacientes têm se beneficiado com o software criado. No ano passado, 516 receberam tratamento apoiados pela tecnologia 3D. Além do Brasil, médicos de países vizinhos têm buscado a parceria. "Nosso objetivo é criar novos polos no País e desenvolver um modelo com menor custo. O que o SUS está proporcionando muitas vezes não é encontrado no setor privado do primeiro mundo", afirma. Segundo ele, 119 nações já utilizam o software do CTI Renato Archer. No Nordeste, um núcleo vem sendo formado na Universidade Estadual da Paraíba, em Campina Grande, para desenvolvimento de tecnologias voltadas à saúde, informa o pesquisador.





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