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Saúde

Fernando Figueira e a ideia de transformar agentes de saúde em parceiros das famílias mais pobres

Iniciativa do professor de criar um programa de agentes comunitários equivale aos primeiros passos para implantação do Programa Saúde da Família

Publicado em 05/02/2019, às 10h28

Fernando Figueira teve um papel essencial para criação dos primeiros passos do programa de agentes comunitários de saúde  / Foto: Imip/Divulgação
Fernando Figueira teve um papel essencial para criação dos primeiros passos do programa de agentes comunitários de saúde
Foto: Imip/Divulgação
Cinthya Leite

No terceiro e último dia da série, conheça a ideia do professor Fernando Figueira de transformar agentes de saúde em parceiros das famílias mais pobres. 

No bairro de Campina do Barreto, na Zona Norte do Recife, a Unidade de Saúde da Família Chão de Estrelas, requalificada há pouco mais de um ano, representa um dos serviços que remetem ao programa de agentes comunitários de saúde – uma das muitas crias do professor Fernando Figueira por qual ele era apaixonado. “Ele teve um papel essencial nessa iniciativa, que deu os primeiros passos no Imip (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira). Nas favelas dos Coelhos (área central do Recife), o professor identificava líderes comunitários e treinava com um sistema de retaguarda formado por médicos”, relata o pediatra João Guilherme Alves, 64 anos, diretor de Ensino da instituição e um dos discípulos do professor. O depoimento do médico faz alusão aos primeiros passos do Programa Saúde da Família (PSF), implantado no Brasil pelo Ministério da Saúde, em 1994, e conhecido atualmente como Estratégia de Saúde da Família.

“A unidade de Chão de Estrelas é muito antiga; é do tempo das primeiras experiências do Imip com agentes comunitários e com a atenção primária à saúde. O serviço funciona antes da instalação do PSF, e o Imip ainda dá suporte técnico a essas unidades, com a oferta de treinamento e capacitação das equipes”, conta o secretário de Saúde do Recife, Jailson Correia, 47 anos, um representante das mais caçulas gerações que acompanharam o professor na casa dos 70 anos de idade, enquanto ele ainda estava na ativa no Imip. Pediatra, sanitarista, professor e pesquisador, Jailson Correia certifica que os passos profissionais que tem dado é, “em grande parte, por causa dele (de Figueira)”.

Representante das mais novas gerações que seguem preceitos de Figueira, secretário Jailson Correia ressalta importância dos agentes comunitários de saúde (Foto: Filipe Jordão/JC Imagem)

Saudoso, ele recorda do dia em que o mestre o chamou na sala da presidência do Imip. Ficou apreensivo. Era o ano de 1995, quando estava na residência. “Ele teceu comentários críticos e elogiosos a um relatório que escrevi sobre o rodízio na comunidade de Santa Terezinha. Depois continuamos a conversa sobre o programa de agentes comunitários de saúde”, lembra Jailson Correia, em visita, na última semana, à unidade de Chão de Estrelas, que – assim como tantas outras – reproduz preceitos de Figueira. De tão próximos da população, os agentes atuam na prevenção, visitam residências, mapeiam problemas e possibilitam o acesso dos moradores aos serviços de saúde.

Foi justamente esse modelo, iniciado no Imip, que se perpetua. Em 1983, o instituto criou o Projeto de Ações Básicas de Saúde para a População de Baixa Renda, com ações concentradas na vacinação, incentivo à amamentação, pré-natal, controle de infecções, desenvolvimento infantil e prevenção de problemas como o câncer de colo do útero. Médicos, dentistas, assistentes sociais, psicólogos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e agentes comunitários de saúde (202 profissionais ao todo) foram treinados pelo Imip para atuar nas comunidades. A importância do trabalho foi corroborada em 1999, quando o instituto foi escolhido pelo Ministério da Saúde para elaborar o material usado pelos agentes comunitários do País.

Atual secretário de Saúde de Pernambuco, o médico André Longo reforça a imagem do Imip como marca da medicina e acrescenta que o exemplo de Figueira deve se manter vivo. “Falar do professor é fazer alusão ao compromisso com a saúde pública. O olhar que ele tinha para a infância foi marcante. Ele dizia que, enquanto tivesse uma criança sofrendo, ele se sentia torturado”, frisa André Longo, cuja declaração traz à memória um dos pensamentos célebres de Figueira: “Uma criança doente é um desafio. Para devolver-lhe a saúde, é preciso saber utilizar a ciência pelos caminhos mais lúcidos que só o amor pode inspirar”. Assim, neste centenário, brota o desejo de que, na luta contra as desigualdades sociais, a medicina diariamente se inspire (também) nos ensinamentos holísticos do mestre.



Lições do mestre perpetuadas por quase mil ex-residentes

O ensino médico do Imip colocou Pernambuco, desde meados da década de 1960, entre os melhores Estados nas áreas de assistência e educação em saúde infantil. Criado em 1966, o programa de residência em pediatria contabiliza quase mil ex-residentes espalhados pelo Brasil. “Vários saíram do Imip e fundaram novos programas. Evidentemente que hoje os tempos são outros, mas o cerne da residência, com o respeito pela criança, permanece com a cara do professor”, disse o pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima, 54 anos, presente à missa em memória de Fernando Figueira, celebrada ontem pelo bispo auxiliar da arquidiocese de Olinda e Recife, dom Limacêdo Antonio da Silva.

"O cerne da residência em pediatria, com o respeito pela criança, permanece atualmente com a cara do professor", diz o pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima (Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem)

Coordenador-geral das residências da instituição e presidente da Sociedade de Pediatria de Pernambuco, Eduardo Jorge destacou também que o programa continua com os alicerces fundamentais do mestre e se mantém como referência nacional no ensino.

Também presente à celebração, o médico infectologista Luís Cláudio Arraes de Alencar (conhecido como Lula Arraes), 60 anos, lembrou com saudades o professor que o acolheu no início do governo militar, em 1964. Lula é filho do governador de Pernambuco naquela época, Miguel Arraes (1916-2005), deposto pelo Exército brasileiro.

“Fui paciente, assim como meus irmãos, do pediatra. Recebemos a visita dele quando todos evitavam a nossa família, inclusive os amigos. Além disso, fui aluno do professor. Ele sempre estava à disposição”, contou Lula Arraes, que recordou momentos em que teve chance de conversar com Figueira. “Sempre recebia grandes lições.” Em 1978, durante curso preparatório para o vestibular, Lula se tornou amigo do também médico Antonio Carlos Figueira, filho do professor.

Ex-paciente, o infectologista Lula Arraes lembra lições de Figueira (Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem)

A missa de ontem ainda foi marcada por uma corrente do bem. O Voluntariado do Imip, criado pelo fundador da instituição, conferiu as homenagens alusivas ao centenário. A voluntária Marta Ferreira, 69 anos, carinhosamente conhecida como Mamusca, tem quase duas décadas de trabalho dedicado à instituição e só guarda boas lembranças de Figueira. “Ele era uma pessoa muito boa, pensava nos mais humildes e só queria ajudar o próximo. Para ele, todos eram iguais.” Ela ajuda a cuidar das crianças e das gestantes. “Tenho amor pelo que faço. É um trabalho que me faz tão bem que parece que ganho rios de dinheiro”, acrescenta Mamusca, que enche o coração de alegria por multiplicar uma das marcas do professor: a solidariedade.




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