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síndrome congênita

Estudo cruzará dados de IDH, saneamento e desnutrição em casos de microcefalia

A mesma pesquisa indicou que uma bactéria pode ter agravado surto de microcefalia no País

Publicado em 04/09/2019, às 08h54

A pesquisa vai cruzar dados de saneamento básico, IDH, desnutrição, casos de rubéola e sífilis (que também provocam microcefalia) / Foto: Divulgação/TV Brasil
A pesquisa vai cruzar dados de saneamento básico, IDH, desnutrição, casos de rubéola e sífilis (que também provocam microcefalia)
Foto: Divulgação/TV Brasil
da editoria de Cidades

O estudo que indica que o vírus da zika pode não ter sido o único causador dos severos casos de microcefalia no País, mas que as más-formações congênitas, observadas sobretudo no Nordeste, podem ter sido agravadas também pela saxitoxina, toxina liberada por bactéria encontrada em reservatórios de água, vai cruzar dados de saneamento básico, IDH, desnutrição, casos de rubéola e sífilis (que também provocam microcefalia) e outros indicadores naqueles municípios que tiveram mais casos da síndrome congênita.

Outra ação será a coleta de amostras de água nas cidades com baixa e alta incidência de microcefalia para identificar o nível de saxitoxina em reservatórios de água (até três microgramas por litro é considerado seguro). “Uma das possibilidades, num futuro próximo, é o Ministério da Saúde redefinir esses níveis”, afirma o pesquisador Flávio Lara, da Fiocruz, e coordenador do estudo.

A pesquisa, encomendada pelo Ministério da Saúde, começou no final de 2017. Além da Fiocruz, participam cientistas das Universidades Federais do Rio de Janeiro (UFRJ) e Rural de Pernambuco (UFRPE) e do Instituto D’Or (IDOR).

“Vamos tentar mapear quais são os fatores que geraram a prevalência alta de microcefalia para que quando o vírus voltar, já que eles funcionam em ciclos, esse quadro não seja tão severo”, diz Flávio. De Pernambuco, a pesquisa tem a participação do professor Renato Molica, do câmpus da UFRPE de Garanhuns, no Agreste.

 

Flávio ressalta que as agências de água no Brasil, a exemplo da Compesa, fazem um controle sério dos níveis de saxitoxina. “Ao longo da nossa pesquisa, por exemplo, a Compesa nunca relatou níveis nem próximos do limite, sempre foram bem abaixo do considerado seguro”, atesta. O problema pode estar, diz, nas cidades onde a população não tem acesso à água tratada.

Segundo o pesquisador, a bactéria que produz a saxitoxina é comum, no mundo, em moluscos como ostras e mexilhões. “É uma bactéria presente no mar. Somente no Brasil e na Austrália ocorre também em água potável. Enquanto no restante do mundo a contaminação é um problema agudo, no Brasil é um problema crônico”, observa Flávio.

“Revolta saber que a água pode ter agravado os casos de microcefalia. A epidemia aconteceu há quatro anos e pouco se fez para evitar novos casos”, lamenta a presidente da União das Mães de Anjos (UMA), Germana Soares. Ela reclama também que só soube da pesquisa por meio da imprensa. “Aproveitam material nosso como sangue, urina, saliva, para pesquisas. Mas não há a devolutiva dos resultados.”



INVESTIGAÇÃO

Pernambuco confirmou, em 2015, 355 casos da síndrome congênita. A primeira constatação da pesquisa foi que a saxitoxina é capaz de acelerar a morte de células neuronais também expostas à infecção pelo zika. O fenômeno foi observado em experimentos realizados em fêmeas de camundongo grávidas e em minicérebros humanos (organismos criados em laboratórios com células humanas modificadas geneticamente). Nos dois casos, a presença da toxina associada ao zika acelerou em mais de duas vezes a destruição de células do cérebro.

Outra constatação foi de que nas cobaias afetadas pelo zika vírus e submetidas a uma dieta com restrição proteica, a microcefalia aparece mais severa. “Aumentamos açúcar e gordura e diminuímos a proteína. Observamos que essas fêmeas de camundongo tiveram uma exacerbação do quadro de microcefalia”, explica Flávio Lara.

Ele lembra que o auge da epidemia, em 2015, coincidiu com um período de longa estiagem no Semiárido brasileiro, o que pode ter contribuído para que os filhos das mulheres grávidas com restrição alimentar dessa região e afetadas pelo zika apresentassem casos mais severos de microcefalia.

MINISTÉRIO

Em nota, o Ministério da Saúde esclarece que "o estudo da Fiocruz analisou a ocorrência de microcefalia em fetos de camundongas prenhes que relaciona o vírus Zika à exposição a compostos citotóxicos, como cianobactérias, em doses extremamente altas. Desta forma, não se pode correlaciona-la a efeitos em humanos. Os achados científicos são importantes para a próxima fase do estudo que irá avaliar essa correlação com a água realmente consumida pela população do Nordeste brasileiro, o que não foi feito nesta primeira etapa".

O órgão diz ainda que "continuará investindo em pesquisas para identificar e descrever essa nova doença na população brasileira".

A Compesa esclarece que "desde a obrigatoriedade do monitoramento para saxitoxinas, que se deu a partir da Portaria 2.914 em 2011, já foram realizadas pela Compesa mais de 8.000 análises, e até o momento não foi identificado nenhum resultado acima do valor máximo estabelecido". 




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