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ARTE URBANA

Atacado em São Paulo, grafite é parte essencial do Recife e Olinda

Debate em torno do grafite foi reaceso depois que João Dória (PSDB) apagou arte urbana feita na capital paulista

Publicado em 29/01/2017, às 06h53

Grafites são parte da rotina de qualquer centro urbano / Guga Matos/JC Imagem
Grafites são parte da rotina de qualquer centro urbano
Guga Matos/JC Imagem
Diogo Guedes

Se alguém imagina, nos tempos atuais, um centro urbano sem grafites, pichações ou cartazes, é muito provável que termine com a imagem na cabeça de uma cidade abandonada – ou pior, uma nunca habitada, uma maquete sem vida. Não há como pensar uma metrópole hoje sem a intervenção humana, seja ela artística ou caótica. Na verdade, é algo que pode ser apontado como da própria natureza dos homens: é só olhar as pinturas rupestres e as marcas de mão em cavernas ou lembrar como a cidade de Pompeia, na Itália, era cheia de grafites.

O grafite – cada vez mais parte do cotidiano dos que circulam por uma cidade – surrealmente voltou a ser um tema de debate nos últimos dias, desde que o novo prefeito de São Paulo, o empresário João Dória (PSDB), decidiu, sem debate público prévio, apagar importantes murais da capital paulista na Av. 23 de Maio. É parte da retórica do político em defesa de uma “cidade limpa”, conceito já transformado por quem discorda dele em “cidade cinza”.

A medida – Dória já anunciou que pretende apagar outros painéis tradicionais, como os dos Arcos do Jânio – causou espanto e reações. Grafiteiros e pichadores começaram a deixar mensagens em muros da cidade para o prefeito. Além disso, a grande surpresa é que a atitude foi tomada em São Paulo, uma das cidade com arte urbana mais reconhecida no mundo.


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Para grafiteiros, artistas e curadores pernambucanos, a postura de João Dória é absurda. “É algo terrível, uma atitude até criminosa. Artistas vão ter suas obras apagadas sem nenhum motivo. Já recebi recados de amigos da Europa com o queixo caído com isso”, explica o artista e curador paraibano Raul Córdula, um dos principais entusiastas das artes urbanas de Pernambuco.

É a mesma opinião dos donos da Nuvem Produções, Cláudia Aires e Guga Marques, que costumam trabalhar com o grafite em várias iniciativas. “Em primeiro lugar, apagar murais à revelia dos artistas, com o discurso de que estavam pichados ou degradados, não faz muito sentido. Uma consulta para uma nova pintura ou mesmo uma restauração seria a medida correta a se fazer”, opinam. “A ação nos pareceu mais política do que propriamente estética.”

Os grafiteiros pernambucanos sobem o tom contra a iniciativa. O artista olindense Raoni Assis define a iniciativa como um “retrocesso absurdo”. “Essa coisa conservadora e com essa cara cinza se propaga e contamina. É uma praga”, defende. “O melhor caminho é sempre o do diálogo e da mediação. Uma expressão dessa dimensão não vai ser freada. Começamos nas cavernas da Dordonha e Chauvet, passamos pelas paredes da Pedra do Ingá, subimos ao teto do INSS pra dizer que o povo quer casa. Dos mais abonados ao mais anêmico. Não tem como calar e a gente não vai parar.” 

Para Jota Zer0ff, que nasceu em Carpina e se tornou um dos principais nomes da cena recifense, é difícil não se sentir até ofendido com a iniciativa. “O grafite de São Paulo é mais forte que a cor cinza”, ressalta.

O artista urbano Johny Cavalcanti, idealizador do festival internacional Recifusion, não entende como isso pode acontecer justamente na capital paulista: “São Paulo é a cidade do grafite”. “E aí vem um cara com essa proposta de apagar. Lá na frente, vão fazer um nova convocatória, gastar mais dinheiro. Mas o ideal era ter um diálogo maior com a cultura urbana, como teve o (Fernando) Haddad. Não existe isso de ‘combater’ o grafite: os artistas nunca vão aceitar, vão combater até a morte. Só gera mais conflito”, aponta.

NA CONTRAMÃO

Se São Paulo parece ter entrado numa guerra sem muita razão aparente além do populismo midiático, o cenário por aqui parece o oposto. Para a decoração do Carnaval, a Prefeitura do Recife escolheu apostar justamente na arte urbana, chamando o arquiteto e curador Carlos Augusto Lira para fazer a seleção. Nomes como Zer0ff, Galo de Souza, Bozó Bacamarte, Manoel Quitério, Karina Agra e o grupo Vacilante foram escolhidos para fazer grafites de cerca de 25 metros quadrados que vão ser digitalizados e impressos em tecidos.



“O que Dória fez é uma grande burrice, um tiro no pé”, explica o curador da iniciativa. Com sua proposta para o Carnaval, orçada em R$ 1,5 milhão, não só a decoração saiu pelo mesmo preço que anos anteriores como a cidade vai ficar com os painéis após a folia. “Existem grafiteiros que estão num patamar artístico imenso. É só ver Derlon, que não pôde participar da decoração porque já tinha compromissos”, destaca o arquiteto.

Para Cláudia e Guga, o grafite é parte uma integrante e uma realidade da maioria dos grandes centros urbanos do mundo e tanto a população como o poder público de Recife e Olinda são receptivos à arte urbana. “O poder público tem um papel importante no apoio à arte urbana. Sem ele, a divulgação desse tipo de arte seria bem mais complicada. É claro que o movimento em si não depende desse tipo de apoio para viver. O grafite é um modo de expressão livre (como o picho) e não deve se atrelar a nenhum tipo de governo ou coisa que o valha. Apoio é diferente de dependência”, defendem.

Decorar o Carnaval com grafiteiros, aponta Johny, é uma excelente ideia. “Sei que já estava planejada antes, mas a iniciativa funciona até como uma resposta a essa atitude de São Paulo. Colocar o grafite dentro do Carnaval vai passar ainda mais respeito para a arte”, afirma. No entanto, nem tudo são rosas. “Isso não é suficiente. Recife, ao longo do ano, não tem políticas públicas e não apoia as ações que acontecem todos os meses como os mutirões de grafite, que já existem há 15 anos”, critica Johny. Até por essa dificuldade, o Recifusion deste ano, marcado para março, não vai acontecer, já que o evento internacional não conseguiu nenhum apoio do Governo do Estado ou da Prefeitura.

Morador de Olinda, Raoni também não acha que, no cotidiano, o grafite seja tratado com o devido respeito. “Olinda tem alguns problemas com essa ideia de controle e autoritarismo. O grande condomínio histórico de Olinda. Essa vontade de privatizar até as ruas”, ressalta. Para Zer0ff, o contexto no Recife até melhorou um pouco nos últimos anos, mas ainda não é a ideal. “Digamos que ainda estamos nos educando sobre o grafite, tanto pessoas quanto instituições”, afirma. 

INSTITUCIONALIZAÇÃO

Atualmente, além de estar na decoração do Carnaval, na sede da Prefeitura do Recife e no entrada de Olinda, por exemplo, o grafite se faz presente em duas exposições em galerias do poder público: Galo de Souza ocupa a Janete Costa, no Parque Dona Lindu, e Manoel Quitério expõe na Torre Malakoff, numa mostra que se encerra hoje.

Essa relação crescente com poder público e galerias é um processo natural de qualquer manifestação artística, lembra Carlos Augusto. Para Córdula, o movimento não diminui a força do grafite. “A galeria não afeta ou modifica o grafite. Acredito que é o grafite que afeta e transforma as galerias de arte”, aponta.

Para Johny, essa relação mais aberta com o poder público é uma boa notícia, mas levanta questões. “Essa institucionalização pode ser uma faca de dois gumes. Às vezes, ela tira a essência do grafite. Alguém contrata você, mas quer dizer o que você vai fazer ou não o considera um artista como outros. Além disso, o grafite está se tornando mais elitista e até se embranquecendo. A tinta está cara, entre 15 e 30 reais a lata de spray, e é difícil para alguém da periferia comprar sempre”, aponta o criador da Recifusion.

Zer0ff discorda que galerias e instituições possam comportar o grafite. “Ele só nasce nas ruas”, vaticina. Raoni defende o mesmo: o grafite é sempre o que acontece no meio da cidade. “Fora disso, em outros contextos, é outra coisa. É muralismo, é arte, é o que quiser. Grafite é na parede e é na rua”, define. 




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