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Após 16 anos de hiato, João Câmara protagoniza mostra no Mepe

Com 33 pinturas e 10 litografias, a 'João Câmara:Trajetória e Obra de Um Artista Brasileiro' aporta no Museu do Estado de Pernambuco

Publicado em 18/07/2019, às 09h01

João Câmara volta a realizar mostra, contemplando obras dos anos 1990 até atualmente / Foto: Brenda Alcântara/JC Imagem
João Câmara volta a realizar mostra, contemplando obras dos anos 1990 até atualmente
Foto: Brenda Alcântara/JC Imagem
Flávia de Gusmão

"A melhor forma de entender a obra de um artista é conversando com ele (sobre ela) ou pendurando-a na sua parede", entrega João Câmara, paraibano radicado em Pernambuco desde os sete anos de idade, ícone no cenário brasileiro das artes plásticas, que inaugura sua primeira individual depois de um longo hiato, como é de costume, seu costume.

João Câmara – Trajetória e Obra de Um Artista Brasileiro, que recebe convidados para a vernissage hoje, às 19h30, no Museu do Estado de Pernambuco (Mepe), tem curadoria de Emanoel Araújo e dois desdobramentos. De julho a agosto, completando um mês, exibirá no Recife obras que compreendem um período que vai dos anos 1990 até os dias atuais – 33 pinturas e 10 litografias. Em setembro, no Museu Afro Brasil, em São Paulo, 27 trabalhos realizados entre 1966 e 1990 estarão em exibição.

A última vez que Câmara expôs individualmente no Recife foi em 2003, ao inaugurar, simultaneamente, a série Duas Cidades e a galeria anexa ao palacete do século 19, que se tornou sede própria do Mepe a partir de 1940. "Sou preguiçoso", confessa Câmara, mas, nem de longe refletindo sua realidade. Câmara pinta todos os dias. Sua reserva técnica é de tal monta que pôde contribuir folgadamente para estas duas exposições de fôlego.

"Para um artista, é quase um pesadelo interromper o fluxo criativo, é aí que entra o curador”, explica Emanoel Araújo, a quem coube o papel. Amigo de longas datas e profundo conhecedor da produção de Câmara, Araújo é o tipo de curador que tira das mãos do artista qualquer preocupação com tudo o que envolve uma operação como esta. “Desde o conceito da exposição, a seleção das obras, passando pela confecção do catálogo e a montagem propriamente dita, cuido de tudo pessoalmente”, garante.

Figurativo e narrativo, o conjunto da obra de Câmara permite leituras as mais variadas e nem sempre sintonizadas com a inspiração original do seu autor. É por isso, que, de cara, ele entrega o jogo, afirmando que há várias histórias dentro da história de suas pinturas: a que ele pretendeu contar, e a que será elaborada pelo espectador.

Câmara ilustra com um paralelo, narrando um caso engraçado envolvendo Cândido Portinari que, quando questionado por uma admiradora (e potencial compradora) se o garoto em sua pintura estava subindo ou descendo da árvore, ele, ligeiramente irritado, se absteve de responder, preferindo deixá-la com suas próprias conclusões.

TAMANHO GG

Câmara não abandona os tamanhos superdimensionados: “É mais difícil jogar na pequena área”, brinca, mas fala sério quando justifica sua necessidade de mais espaço para ampliar o discurso que suas telas suportam. Dois quadros corroboram sua fala e recepcionam o visitante no andar de baixo da galeria do Museu do Estado: O Abismo de Leni (2011) e Conspiração (2012).



No primeiro vemos, a imobilidade proposital de um corpo que flutua sobre o fundo azul de uma piscina, ou uma mergulhadora que se posiciona de ponta-cabeça. O título nos leva à história da fotógrafa e cineasta Leni Riefenstahl, condenada ao ostracismo por seus anos como simpatizante e atuante junto ao Partido Nazista. O Abismo de Leni nos lembra o poder, construtivo e destrutivo, de nossas escolhas, um momento de suspensão que só poderá ser avaliado depois de submetido ao filtro da história, proporcionado pelo passar fluido do tempo.

O segundo quadro revela um momento de tensão, como uma ação que não se completa. Se na amplitude da obra O Abismo de Leni a figura feminina queda solitária, mas imersa nos seus fantasmas e emoções, de tal forma que não parece sobrar espaço para outros personagens e eventos, em A Conspiração, Câmara emerge como gosta: numa superpopulação de protagonistas/coadjuvantes que dialogam com mobiliário e signos que muitas vezes passam despercebidos num primeiro olhar. A pintura à qual associamos mais comumente a João Câmara é esta: repleta de metáforas e figuras que parecem passar pelo canto do olho, mas com um significado potencial para o desdobramento do que ali está narrado.

DESDOBRAMENTO

Câmara diz que a crítica social já esteve mais presente em sua obra, no início. Hoje, ele acredita que quanto mais individual é o pensamento do artista mais ele contribui exteriorizando um sentimento que está invisível, mas repleto de reverberações para o exterior. Suas séries se tornaram menos continuadas e mais avulsas, encerrando-se em si mesmas, mas sempre narrativas.
O arsenal de inspiração de João Câmara é ilimitado e altamente subjetivo. Leitor voraz, ele recorre (muito) à literatura e também ao cinema. Tudo aquilo que o cerca, permeado pelos seus sentidos ou percepção, está fadado a se transformar na mensagem pictórica.

No andar superior, para onde se desdobra o restante da mostra, na saída do elevador, quem recepciona o visitante é a obra A Fronteira da Dalmácia, uma prova de que não existem fronteiras para o que vai mover o pincel de Câmara: “Depois de um lauto jantar, tive um sonho movido a indigestão e vi exatamente esta cena: um homem vestindo uma fantasia de dálmata sendo espancado na rua”, revela.

Humor, reflexão, camadas, histórias, referências. Este é o cardápio proposto por Câmara. E esta exposição é um banquete.

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l João Câmara – Trajetória e Obra de Um Artista Brasileiro, abertura hoje, às 19h30, no Museu do Estado de Pernambuco (Av. Rui Barbosa, 960, Graças




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