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CRÍTICA

O sal da terra revela olhar de Sebastião Salgado

Documentário premiado em Cannes estreia nesta quinta-feira (26/03)

Publicado em 25/03/2015, às 06h00

Wim Wenders e Sebastião Salgado / Donata Wenders/Divulgação
Wim Wenders e Sebastião Salgado
Donata Wenders/Divulgação
Ernesto Barros

Cineasta de proa do Novo Cinema Alemão, nos anos 1970, dono de uma carreira cinematográfica internacional e fotógrafo, Wim Wenders nunca se furtou em reverenciar os artistas que tocaram seus olhos e seu coração – como os diretores Yasujiro Ozu e Nicholas Ray e a coreógrafa Pina Bausch, que viraram temas de seus filmes. O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado é o mais novo herói a entrar no sagrado panteão artístico de Wenders.

Seu novo documentário, o longa-metragem O sal da terra, que estreia nesta quinta-feira (26/03) em circuito nacional – no Recife, no Cinema da Fundação e no Moviemax Rosa e Silva –, é uma brilhante e emocionante reconstituição da jornada profissional de Salgado e da humanidade de seu olhar sobre populações marginalizadas dos quatro cantos do mundo. Codirigido pelo franco-brasileiro Juliano Ribeiro Salgado, filho do fotógrafo, o filme ganhou o Prêmio Especial da Mostra Un Certain, em Cannes, no ano passado, e foi indicado na categoria de Melhor Documentário do Oscar 2015.

Primeiro admirador e depois amigo de Salgado, Wenders conta que ficou profundamente tocado com uma fotografia em preto e branco do garimpo de Serra Pelada. A imagem, que tem um garimpeiro encostado num toco de árvore, enquanto outros movimentam-se num verdadeiro formigueiro humano, foi imediatamente comprada pelo cineasta. Depois, ele ficou ainda mais sensibilizado pela beleza dura de outra fotografia que ele também adquiriu: uma beduína, cujos olhos cegos se destacam das sombras.

No começo de O sal da terra, Wim Wenders questiona o porquê de fazer um filme sobre um fotógrafo. Ele busca a etimologia da palavra fotografia: o fotógrafo é alguém que escreve e reescreve o mundo com luz e sombras. É envolto em sombras, diante de seus instantâneos, ora verticais, ora horizontais, que Sebastião Salgado surge e se desvanece na tela, recordando a história de suas fotografias como se voltasse no tempo e convidasse o espectador para essa viagem.

Refletido pelas próprias fotografias, como se estivesse diante de um espelho, Salgado desfia cronologicamente os grandes projetos aos quais se dedicou em seus mais de 40 anos de labor. Da decisão de abandonar o emprego de economista na Europa, para onde fora morar devido ao recrudescimento do Regime Militar no Brasil, até a volta à fazenda, em Minas Gerais, onde viveu com os pais e as irmãs. De terra devastada, a Fundação Terra é hoje um paraíso terrestre depois de um programa de reflorestamento.



Entre suas inúmeras qualidades, O sal da terra se destaca pela narrativa polifônica. Trata-se, verdadeiramente, de um filme coletivo. Embora Sebastião Salgado seja o centro de tudo, Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado entrecuzam impressões pessoais e histórias sobre o fotógrafo.

Se não fosse um verdadeiro conhecedor da obra de Salgado, o cineasta alemão teria pouco a dizer. E Juliano, para além da carga genética, acompanhou o pai em várias de suas andanças, principalmente nos dois últimos projetos, como o que resultou na exposição e livro Gênesis, em que Salgado muda o registro sociológico-antropológico e fotografa lugares intocados da natureza, bem perto do estilo National Geographic.

Quase como rondó, O sal da terra entrelaça essas três vozes. Entre várias histórias, Juliano conta como acompanhou o pai em Papua, na Indonésia, e na Antártida. Wenders, por seu lado, se imbui de reflexões filosóficas. E Salgado, além de relembrar fatos e pessoas, também pensa no futuro. Durante a narrativa, praticamente todas as imagens que fizeram sua fama deslizam pela tela: das exposições Trabalhadores, Terra, Serra Pelada, Outras Américas, Êxodo, África e Gênesis, de onde tirou a foto de uma iguana, em que vê semelhanças entre os braços armados de cavaleiros medievais e a pata do animal.

Dono de um estilo reflexivo e zen, Wenders faz com que O sal da terra ultrapasse o que poderia resultar num making of sobre os trabalhos de Sebastião Salgado ao revelar que o segredo dele é um só: se preocupar com o outro, com pessoas que sabem que olhos não se compram, se conquistam.





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