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CINEMA

Nova versão de Dona Flor e Seus Dois Maridos encara onda de caretice

No novo filme, a personagem principal é interpretada pela atriz fluminense Juliana Paes

Publicado em 01/11/2017, às 06h36

Leandro Hassum, Juliana Paes e Marcelo Faria em Dona Flor e Seus Dois Maridos / Downtown Filmes/Divulgação
Leandro Hassum, Juliana Paes e Marcelo Faria em Dona Flor e Seus Dois Maridos
Downtown Filmes/Divulgação
Ernesto Barros

Em 1976, em plena Ditadura Militar, o cineasta carioca Bruno Barreto, então com 20 anos, fez um filme que, durante 35 anos, reinou absoluto como a maior bilheteria do cinema brasileiro: Dona Flor e Seus Dois Maridos, visto por 10,7 milhões de espectadores. Agora, 41 anos depois, uma nova versão do romance homônimo de Jorge Amado chega aos cinemas com alguma coisa em comum com a primeira, além dos seus personagens, mas que talvez possa atrapalhar o seu sucesso.

Com a crescente onda de conservadorismo que assola o País, similar ao obscurantismo do governo militar, poderá o filme cair nas graças do espectadores? Vamos saber disso a partir desta quinta-feira (2/11), quanto Dona Flor e Seus Dois Maridos, dirigido por Pedro Vasconcelos, começar a ser visto. O lançamento regional é uma estratégia da distribuidora Downtown, que acredita que o filme será melhor degustado pelos espectadores da região e lhe garantir, de saída, uma boa bilheteira.

O maior chamariz do novo longa-metragem continua sendo a intérprete da personagem principal, a recatada, bela e do lar Floripides, ou melhor, Flor, uma linda morena da cor pecado, que, além de todos os predicados naturais, conhece como ninguém os segredos da cozinha e da mesa. Entretanto, é na cama que Flor passa mais tempo ao ficar dividida entre demandas dos seus dois maridos: o circunspecto farmacêutico Teodoro (Leandro Hassum) e o fantasma de Vadinho (Marcelo Faria), o primeiro esposo, por quem era muito apaixonada.

Para tomar o lugar da paranaense Sonia Braga, que encarnou Dona Flor e Seus Dois Maridos no cinema, depois de conquistar o Brasil na telenovela Gabriela, da TV Globo, outra criação de Jorge Amado, a atriz escolhida para tal desafio foi a fluminense Juliana Paes. Ela fez o mesmo trajeto de Sonia com as duas inesquecíveis personagens, pois também interpretou Gabriela numa minissérie da Globo “Sou fã de Sonia Braga, muito antes de me entender como atriz. Ela sempre esteve presente nessa caixinha do que é feminino, sensual, brejeiro e brasileiro. Sonia sempre esteve no meu imaginário e ficou impressa em mim muito positivamente. Encarei isso com muita humildade e vejo como uma homenagem ao que eu via ela fazendo. Eu me sinto lisonjeada por isso”, afirmou a atriz, em entrevista na semana passada, quando esteve no Recife ao lado do ator Marcelo Faria, que também é produtor do filme, e do diretor Pedro Vasconcelos, que também comandou a novela recém-terminada A Força do Querer, em que Juliana Paes teve um dos seus maiores sucessos como Bibi, uma estudante de direito que se apaixona por um traficante.



“Eu vejo Flor como uma mulher que, num momento de muita angústia com o seu desejo, tem que atender uma demanda social: ela é uma mulher de família e tem que estar casada. Todas essas demandas acabam ceifando as liberdades individuais, principalmente para uma mulher naquela época. O filme é um grito de liberdade em várias questões, com a religião, por exemplo, ao ter o candomblé muito presente; e com a própria mulher, que pode ser dona de seu desejo e da sua libido. É muito triste você não dar vazão aos seus desejos. A gente ainda vive num sistema patriarcal e muito machista, em que tudo parece aberto, só que não é bem assim. É importante que a gente mostre o filme para as gerações que ainda não tiveram contato com essa obra”.

“Esse é filme importante para essa época, para rasgar essa onda conservadora que está acontecendo. Ele vem como um grito de liberdade e se prestando a ser uma verdadeira obra de Jorge Amado, porque os livros que ele escreveu durante sua vida romperam conceitos e quebraram tabus, mostrando personagens que fugiam aos rótulos que a sociedade impõe”, afirma Pedro, que começou como ator nas telenovelas da Globo e que também dirige peças e filmes. Antes de Dona Flor, ele já havia feito a comédia O Concurso, em 2013.

VERSÃO TEATRAL

Durante cinco anos, a peça Dona Flor e Seus Dois Maridos percorreu o País de Norte a Sul e de Leste a Oeste, com a atriz Carol Castro como a protagonista. “Percorremos o país inteiro e fomos para todas as capitais – como as distantes Rio Branco, no Acre, e Palmas, no Tocantins, além de quase todas as cidades do interior de estados como São Paulo e Paraná. Aqui no Recife, nós viemos três vezes”, relembra Marcelo Faria, que se espanta com as ações de censura que vêm acontecendo no Brasil. “Eu ficava nu em cena, ficava nu na platéia. E, ao contrário, ninguém vinha falar que eu estava nu, nunca teve um homem, com sua esposa ao seu lado, que tivesse levantado da cadeira e me xingado”, afirma.

Filho do ator Reginaldo Faria e sobrinho do diretor Roberto Farias, Marcelo fez muitas novelas e alguns filmes, a maioria como coadjuvante. Pela primeira vez ele faz um protagonista no cinema. “Não é uma estreia, claro, mas para mim é o papel mais importante. Minha família tem muitos diretores e agora só tem dois atores, eu e o meu pai, porque meu irmão Candé, também ator, agora tá dirigido novelas”, disse em tom de lamento.





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