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Árabe

'Primavera em Casablanca' mostra uma sociedade em ebulição

Filme do franco-marroquinho Nabil Ayouch é um dos destaques do Varilux

Publicado em 13/06/2018, às 14h40

A atriz e roteirista Maryam Touzani / Divulgação
A atriz e roteirista Maryam Touzani
Divulgação
Márcio Bastos

Um provérbio berbere – língua falada em algumas regiões do norte da África, principalmente na Argélia e no Marrocos – diz que “feliz é aquele que pode agir conforme seus desejos”. O ditado abre o filme Primavera em Casablanca, do diretor franco-marroquino Nabil Ayouch, que é exibido dentro da programação do Festival Varilux de Cinema Francês.

O filme é ambientado em dois tempos – em 1982 e em 2015 – e acompanha personagens que, em maior ou menor escala, têm suas trajetórias entrelaçadas. Além de lançar um olhar para os dramas de cada um desses indivíduos, Ayouch costura a obra com pinceladas políticas que expõem as contradições de um país na encruzilhada entre o conservadorismo e a modernidade.

A obra tem início na Cordilheira do Atlas, nos anos 1980, e mostra Abdalla (Amine Ennaji), um professor idealista que consegue, com estratégias educativas criativas, estimular o aprendizado de seus alunos de um isolado povoado. Ele mantém um relacionamento com Yto (Nezha Tebbaï), viúva mãe de um de seus alunos. Eles sabem que sua paixão não é bem vista pela comunidade, mas ela, altiva, afirma que prefere morrer a se submeter ao julgamento dos outros.

Abdalla deixa o povoado quando é proibido de ensinar aos seus alunos conteúdos que contrastem com os preceitos da reforma educacional influenciada pela religião islâmica. Uma das exigências do novo currículo é que as matérias sejam ensinadas apenas em árabe, língua quase desconhecida pelos alunos dele, que falam berbere. A desilusão com o governo e o sistema educacional fazem com que ele parta, ainda que Yto afirme que é preciso lutar e resistir pelo que se acredita.



AINDA SOMOS OS MESMOS

A viúva, um dos personagens secundários mais intrigantes, volta a aparecer nos anos 2010, já idosa e interpretada por Saâdia Ladib, aconselhando Salima (Maryam Touzani, que também assina o roteiro do filme). Mulher de espírito livre, ela se vê repreendida pela sociedade em que vive – e também por seu companheiro, que “não gosta”, por exemplo, que ela fume ou dance de forma “extravagante”. Ela, no entanto, não se curva. Em uma cena, quando é recriminada na rua por conta do tamanho do seu vestido, sobe a peça de roupa ainda mais, deixando suas pernas à mostra. “É uma rebelião”, pergunta seu namorado. “Não, é uma revolução”, rebate.

Os outros núcleos incluem ainda Joe (Arieh Worhalter), judeu francófono que comanda um restaurante em Casablanca e cuida de seu pai doente; Abdelilah Rachid, um jovem músico fã de Freddy Mercury, que mora no subúrbio da cidade e não tem o apoio de seu pai no sonho de ser um astro do rock; e Inès (Dounia Binebine), adolescente de classe média alta que enfrenta uma depressão e isolamento.

As histórias são examinadas com cuidado por Ayouch, ainda que algumas recebam mais tempo de tela. Elas são afetadas direta ou indiretamente por cenas ou notícias de protestos, seja a favor de reformas ou pró-manutenção de tradições que oprimem as mulheres, por exemplo.
O longa faz constantes referências à Casablanca, filme que imortalizou a cidade como cenário romântico. Primavera..., no entanto, se apresenta como a antítese do clássico hollywoodiano: é a cidade pelos olhos de quem nela vive e por ela é afetado.





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