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Filme

Submarino Amarelo há 50 anos em mares psicodélicos

Os quatro Beatles inicialmente renegaram o filme

Publicado em 17/10/2018, às 11h20

Submarino Amarelo, cinquentenário / Foto: divulgação
Submarino Amarelo, cinquentenário
Foto: divulgação
JOSÉ TELES

Em 1967, os Beatles deviam o último dos três filmes de um contrato feito com a United Artist. O empresário Brian Epstein discutia pormenores com o escritor e roteirista Joe Orton, sobre um texto intitulado Up Against It, que fecharia o acerto. John Lennon e Paul MCcartney admiravam o trabalho de Orton, e não se incomodavam se o roteiro tinha temática gay, ou com o fato de, em algumas cenas, vestirem roupa femininas. Up Against It, no entanto, não foi filmado pelos Beatles (nem por mais ninguém), devido a uma tragédia.

Joe Orton estava perto de concluir o roteiro quando, em 9 de agosto de 1967, foi assassinado pelo seu companheiro, Kenneth Halliwell que se suicidou logo em seguida. Brian Epstein tinha um problema em mãos. Rapidamente resolvido. O filme que os Beatles entregariam à United Artist seria de animação, projeto do produtor húngaro de TV Al Brodax, responsável pelo desenho animado The Beatles, criado para a rede ABC. Brodax tocou Yellow Submarine com o o canadense George Dunning e o tcheco Heinz Edelmann. O roteiro foi escrito pelo escritor e professor de Harvard Erich Segal e o poeta de Liverpool Roger McGough (que integrou o grupo The Scaffold, de Mike McGear, irmão de McCartney).

Submarino Amarelo ganhou uma reedição comemorativa de 50 anos, que será exibida, pela primeira vez na América Latina, hoje, às 21h, na programação do festival Animage, no Cine São Luis, com entrada franca. Restaurado a mão, desenho a desenho, o som remasterizado, Submarino Amarelo é um dos filmes de animação mais influentes na história do gênero. Os desenhos criativos e originais e a avalanche de cores foram copiados em diversas animações, em estamparias de tecido, na publicidade. No entanto, quando se definiu que Yellow Submarine seria o filme dos Beatles, John, George, Paul e Ringo não sentiram o menor interesse em participar. Desde Revolver (1966), o quarteto afastara-se da imagem pop juvenil. Foi exatamente uma faixa desse disco a canção que inspirou o filme. De qualquer forma, seria um produto ao qual estariam inevitavelmente ligados. Assim, passaram a oferecer eventuais sugestões ao diretor.

A maioria das tiradas engraçadas, os trocadilhos, no entanto, não veio de Lennon, mas do conterrâneo Roger McCough (Liverpool era notória pelos bons humoristas). Já em relação à trilha sonora, o quarteto não fez o menor esforço para torná-la comercialmente interessante. Pelo contrato com o produtor do filme, no mínimo, havia a obrigatoriedade de três canções inéditas. As demais seriam pinçadas do catálogo do quarteto, mais temas incidentais de George Martin. Na época, os Beatles estavam gravando o Álbum Branco. Sempre que trabalhavam alguma canção que não lhes agradava, um deles comentava: “Esta serve para Yellow Submarine, vamos entregar pro caras”. George Harrison teceu uma crítica mordaz sobre o desenho: “A coisa que mais gosto no filme é a gente não ter nada a ver com ele”.



Apesar da má vontade inicial dos Beatles em relação a Yellow Submarine, na première do filme, John Paul, George e Ringo (com exceção de Paul, todos com suas respectivas mulheres) compareceram. Foi uma das mais badaladas noites da swinging London, com grande parte da realeza pop na plateia, The Rolling Stones e The Who, por exemplo. O filme dividiu a crítica. Ora aclamado como um clássico instantâneo, ora como um produto muito aquém do conjunto da obra dos Beatles: “O pop tornou-se um estilo. Yellow Submarine usa herói pop e pop art deliberadamente e com sofisticação. O pessoal que faz animação não pode mais continuar pilhando a arte do século 20. Depois de Yellow Submarine isto se esgotou”, aprovava Pauline Kael, uma das mais severas críticas de cinema da época.

DISCO

Mais severo, John Lennon não escondeu ter achado as orquestrações da música incidental, de George Martin, uma “merda”, certamente ressabiado pelo que aconteceu com a trilha de Help, com o lado B do LP totalmente instrumental, que nem agradou aos Beatles nem aos fãs. A princípio seria lançado um EP, com quatro músicas, três inéditas: All Together Now, Only a Northern Song, It’s All Too Much e Yellow Submarine. O projeto foi adiado para não atrapalhar o Álbum Branco, que estava sendo finalizado. Em suas duas canções, George Harrison demonstra sua insatisfação. Na primeira, It’s Too Much, em ser um beatle de segunda classe. Na segunda, Only a Northern Song, insinua que está sendo ludibriado pela Northern Songs, do produtor Dick James, John Lennon e Paul McCartney. George e Ringo tinham contrato com a editora apenas como compositores.

Estas quatro canções estão entre as mais desleixadas lançadas oficialmente pelo Beatles. Em Northern Song, George estava apático e Paul McCartney faz mudanças erradas de acordes. John Lennon nem se preocupou em ir ao estúdio para gravar a base. Hey Bulldog foi construída de fragmentos de uma das muitas canções que escreveram na Índia. É a melhor das quatro, segundo Geoff Emmerick, que a produziu. Ele elogia também All Together Now, uma canção infantil, mais ou menos na linha de Yellow Submarine, feita na Índia. O grupo estava bem relaxado, ainda segundo Emmerick, porque George Martin não estava no estúdio. O “Duke of Edimburgh”, como eles tratavam o sempre elegante Martin, influía muito nas gravações, arranjos, numa época em que os Beatles já se consideravam bastante experientes como músicos e produtores.

Da música incidental, que ocupa o segundo lado do LP, apenas Pepperland teve vida própria fora do filme, embora não seja o tipo de sonoridade que se esperava então encontrar num disco dos Beatles. No Brasil, a música foi bastante executada na versão de Robertinho do Recife, incluída na trilha da novela Pantanal, da TV Manchete. Para não atrapalhar a divulgação do Álbum Branco. O LP da trilha de Submarino Amarelo só foi lançado no início de 1969. Ao contrário do filme, nunca esteve entre os preferidos dos fãs. As canções inéditas são as menos conhecidas da banda





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