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'Indianara', a luta de uma ativista transexual brasileira em Cannes

O filme acompanha a trajetória da carismática ativista carioca, em suas ações militantes e também em sua vida pessoal

Publicado em 21/05/2019, às 11h33

Imagem do filme Indianara / Divulgação
Imagem do filme Indianara
Divulgação
Esther Sanchez, da AFP

Seios expostos, bandeira LGBT em uma das mãos e um megafone na outra, a ativista transexual Indianara protagoniza em Cannes um documentário sobre sua luta pela causa no Brasil.

Apresentado na seção de cinema independente ACID, "Indianara" acompanha a trajetória da carismática ativista carioca, em suas ações militantes e também em sua vida pessoal, ao lado do marido. 

Os diretores do filme, a francesa Aude Chevalier-Beaumel e o brasileiro Marcelo Barbosa, a descobriram em uma manifestação, quando ela citou os quase 200 transexuais mortos em um ano. Aquela imagem os impactou.

Os cineastas admitem que no início, Indianara, de 48 anos, não estava convencida de querer participar do projeto, mas eles o viam como uma "emergência". 

"Ela estava cansada, fisicamente, mentalmente. Ela já não se via na luta por muito mais tempo", diz Barbosa, em entrevista à AFP.

A perseverança dos cineastas finalmente fez a ativista aceitar, especialmente porque ela sabia que sua vida poderia se tornar um "exemplo para as próximas gerações".

As filmagens foram feitas ao longo de dois anos, entre as manifestações contra o ex-presidente Michel Temer em 2016 e as eleições presidenciais de 2018 que levaram Jair Bolsonaro ao poder.

Durante este período, filmaram os violentos protestos contra Temer, reuniões de militantes e, sobretudo, a Casa Nem, uma residência ocupada no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, que acolhia principalmente membros LGTB em situação de vulnerabilidade, e da qual Indianara foi uma das criadoras.

Um "corpo-museu" 

A luta de Indianara para defender as minorias é refletida em seu corpo. Um "museu-corpo", diz Chevalier-Beaumel. 

"Um corpo que carrega todas as lutas, que carrega também sofrimento, cicatrizes...", acrescenta a diretora.

"Tem muito essa consciência do registro de sua luta e quer deixar coisas para outras gerações", explica. Por isso, finalmente concordou em ser gravada.



Em 14 de março de 2018, tudo mudou. A vereadora negra Marielle Franco, que lutava pelos direitos dos negros, das mulheres e da comunidade LGBT, foi morta a tiros no centro do Rio de Janeiro.

Foi um duro golpe para o país, e também para Indianara. "Ela também se sentiu ameaçada, pensando que seria a próxima", confessa Chevalier-Beaumel.

Com ajuda financeira, instalou em sua casa um sistema de câmeras de segurança. "Mais ela não deixa de andar na rua, não deixa de ir às manifestações, não deixa de sair à noite", esclarece a diretora. "Não quer que isso mude sua rotina".

O documentário também mostra o cotidiano da militante transexual com seu parceiro, Maurício, um ex-militar conservador e muito católico. Apesar das diferenças abismais que os separam, eles se amam, insistem os cineastas.

Esta relação particular pode representar uma "mensagem de esperança", de que existe um "diálogo possível" em uma sociedade totalmente dividida após o triunfo de Bolsonaro. 

O filme concorre à Queer Palm, que premia o melhor filme com tema LGBT. 

Indianara planejava estar em Cannes para a apresentação do filme, mas uma condenação pela justiça francesa em 2008 a impediu de viajar para La Croisette. Na França, ela foi condenada por proxenetismo e passou vários anos na prisão.

Para os diretores, a ativista virou a página desses fatos, que segundo eles também aconteceram numa tentativa de proteger pessoas com problemas.




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