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Cinebiografia

'Simonal' debate racismo velado no Brasil

Cinebiografia é dirigida por Leonardo Domingues e estrelada por Fabrício Boliveira e Isis Valverde

Publicado em 06/08/2019, às 13h13

Fabrício Boliveira vive Simonal nos cinemas / Divulgação
Fabrício Boliveira vive Simonal nos cinemas
Divulgação
João Rêgo

Cinebiografias de músicos nascem, a princípio, de impasses complexos. O primeiro talvez seja como conciliar duas linguagens paralelas, mas de diferentes execuções: a musical, fonte essencial para o entendimento do personagem principal, e a cinematográfica, que no final será sobreposta sobre a primeira.

Ao longo da história, para tal imbróglio, não faltaram resoluções. As variações, mais do que de objeto de estudo (o artista em questão), debruçaram-se sobre o fazer cinema – políticas de autor, meios de produção e distribuição. Houve aqueles que conceberam mais do que representações fiéis, encontraram o ponto íntimo em que o artista e sua obra (música, imagem pública e importância histórica) convergiram com o plano, a mise-en-scène, a montagem – em resumo, a síntese do cinema.

Os Straubs criaram, no seu rigor formal, talvez o maior exemplo disso: Crônica de Anna Magdalena Bach (1968), a simbiose máxima ente o som e a imagem, no seu sentido mais amplo possível. Por outro caminho, Gus Van Sant captou em Últimos Dias (2005), um lapso temporal, um momento, que se encarregasse de capturar o que foi, para além da música, Kurt Cobain – mesmo que em longos planos-sequências encenando suas últimas 24h de vida. Obras autorais onde, sobretudo, o trabalho do cineasta conflui com as particularidades da obra do artista explorado.

Certamente, os exemplos não se encerram nesses dois filmes citados. Afinal, as formas de se expressar cinematograficamente são diversas, mais ainda são as histórias de músicos e pessoas do meio. Longe desse arrojamento, e em estruturas mais clássicas, por exemplo, o diretor Leonardo Domingues nos entrega Simonal, filme que estreia no Recife nesta quinta-feira.

Não que isso pressuponha uma qualidade a produção; o interesse pelo longa, que como a tônica das recentes cinebiografias lançadas traz pouco de novo, está mais para o que consegue extrair da história do artista do que como obra cinematográfica. Um caminho até aceitável dentro das particularidades da figura que origina a produção e suas motivações.



Afinal, a história de Wilson Simonal de Castro não se resume a sua música – para o bem e para o mal. Artista negro que fez um sucesso numa época pouco propícia para o tamanho que teve, o cantor viu sua carreira declinar após o episódio no qual teve seu nome associado ao DOPS – onde no curso do processo redigiu um documento declarando-se delator. A despeito da sua poderosa voz e gingado, sua imagem pública ficou manchada no meio artístico, dando fim abruptamente ao seu sucesso.

APAGAMENTO RACISTA

Domingues vai no seio dessa situação. Anuncia logo no começo a tragédia que marcou a história de Simonal. Em cima do palco, Fabrício Boliveira, ator que encarna perfeitamente Wilson, é vaiado por um aglomerado de artistas presentes no espaço – na sua maioria brancos. Dado importante de se pontuar porque Simonal é, sobretudo, um acerto de contas com esse passado – tensionado por diversas questões que circunscrevem um apagamento racista do artista.

O filme questiona os conceitos de democracia racial, racismo institucional e no meio artístico, sem em nenhum momento tentar higienizar a figura de Simonal – conservando também sua qualidade artística (um plano-sequência no filme que capta a força de Wilson é primoroso). Em contrastes bem claros, personagens negros transitam no longa com toneladas nas costas, enquanto brancos desfilam com poucas preocupações, direcionando seus interesses livremente. É por esse caminho que Domingues encontra na história do artista, mais do que um conto de declínio, um poderoso, histórico e atual retrato das veias racistas no Brasil.

O problema é que esse arrojamento tem fim no argumento. Como peça cinematográfica, Simonal tem pouco a acrescentar; talvez tenha faltado mais dos dois primeiros exemplos citados: um autorismo de um diretor que se sobrepõe, ao mesmo tempo que capta o fenômeno que cinebiografa. Em outras palavras, menos um piloto automático ao estilo filmes como Cazuza - O Tempo Não Pára, Tim Maia, entre outros, e mais a inventividade de um Glauber Rocha quando filma o enterro do pintor Di Cavalcanti, em uma das obras mais marcantes do cinema brasileiro.




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