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Entrevista
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"É a importância do Brasil poder rever sua história", diz Fabríco Boliveira sobre 'Simonal'

Em entrevista ao Jornal do Commercio, o ator que vive Simonal no cinema contou como foi o processo de encarnar o personagem e o racismo que cerca sua história

Publicado em 13/08/2019, às 13h26

Fabrício Boliveira vive Simonal na nova cinebiografia do cantor / Divulgação
Fabrício Boliveira vive Simonal na nova cinebiografia do cantor
Divulgação
João Rêgo

Interpretar um personagem como Simonal não é um trabalho fácil. Talento único na música, sua história é carregada de tensões que envolvem desde a ditadura militar ao racismo estrutural. Fabrício Boliveira aceitou e cumpriu a missão. Na nova cinebiografia de Simonal, em cartaz no Recife, o ator nos entrega uma dimensão intuitiva, atual e fiel ao cantor. Em entrevista ao Jornal do Commercio, Fabrício contou como foi o processo de encarnar Wilson, o racismo que cerca sua história e sobre seus projetos futuros.

Entrevista // Fabrício Boliveira

JORNAL DO COMMERCIO – De onde surgiu o interesse em interpretar Simonal?
FABRÍCIO BOLIVEIRA – Eu acho que o interesse surgiu quando eu conheci o Max (Max de Castro, filho do Simonal) enquantofazíamos o filme 400 Contra 1. Ele me contou a história da vida dele, a história do pai dele, e eu acho que ele despertou em mim um desejo dessa história voltar à tona. Da gente descobrir e poder compartilhar com as pessoas o que, de fato, aconteceu com a história desse grande artista, que foi apagado.

JC – Nesse sentido, qual a importância de revisitar a história de Simonal no Brasil de hoje?
FABRÍCIO – É a importância do Brasil poder rever sua história, coisas que aconteceram em 1960, 1970, como fake news, racismo e a própria ditadura, que estão em voga hoje, né? Que a gente possa discutir e olhar para essa história hoje, no presente, e consiga alçar novos voos a partir disso. Tenho falado bastante sobre uma Adinkra Africana, que se chama Sankofa. É a imagem de um pássaro olhando para trás, no presente, para poder alçar novos voos com mais conteúdo. Trazendo a sua ancestralidade, o tempo, a sua história. Acho que isso é uma oportunidade para o Brasil assistir Simonal e refletir sobre sua própria história.

JC – Uma história como a dele, com os contornos que teve, aconteceria novamente? Digo em sucesso, e nesse declínio que acompanha um certo racismo de pano de fundo em pré-julgamentos, fake news.
FABRÍCIO – Eu tive uma experiência em Nova York, no ano de 2015. Estava no Brooklyn com vários amigos negros, e as pessoas me diziam que eu tinha “swagger”. Fui perguntar para eles o que aquilo significava. “Swagger” é viver de um jeito próprio, ter carisma, ser uma pessoa bem resolvida com a autoestima, que se veste bem. Voltando para o Brasil, fui procurar a tradução sobre o termo. Aqui no Brasil, uma palavra que nos Estados Unidos tem aqueles significados que eu te contei, a tradução é “arrogante”. Então, “swagger” no Brasil quer dizer arrogante, então dá para a gente entender como é que o Brasil trata um negro, quando ele ascende socialmente, quando ele tem poder de escolha e autoafirmação.



JC – Eu queria saber como foi esse processo de encarnar o personagem, a ginga, a voz. Teve algo seu também na concepção, até  por entender e enxergar todo panorama de racismo que acompanha o Simonal naquela época?
FABRÍCIO – Super! A todo tempo. Eu tinha a preocupação dessa história ser atual também. Entender a história do Simonal nos anos 60 e 70, hoje, através de um olhar de uma artista negro. Tem várias interseções a nossa história, né? O que é um corpo negro nesse país? Então, muito da sensibilidade também é um cruzamento de histórias minhas e situações que eu sei que o Simonal também passou. Então fui muito dentro da história dele, da história do país, desse contexto da época. Investiguei junto com a família também para ter esse embasamento, para a partir daí fazer o cruzamento com as minhas histórias.

JC – No geral, queria saber quais suas inspirações no cinema quando você está na frente das câmeras, e qual diretor você gostaria de trabalhar, seja brasileiro ou não?
FABRÍCIO – Acho que não tem ninguém, uma pessoa de fato, que eu me inspire só para trabalhar. Em cada história eu vou compondo um pantheon de referências. De gente da vida que eu acho que se parece, de situações que eu já vi na vida, ou de acontecer com amigos. De histórias que eu já ouvi. Tem artistas brasileiros que eu adoro o trabalho, um deles é o Irandhir Santos, que é um ator que admiro muito. O Matheus Nachtergaele eu também gosto muito. Existem também cantores que eu adoro ver o trabalho deles, também como figuras públicas. Acho que peguei muitas referências de cantores que conheço da contemporaneidade, como o Baco Exu do Blues, Mariele Santiago, que é uma cantora de Salvador, Larissa Luz, Xênia. Tem muita gente contemporânea também que me estimulou muito nessa história de fazer um cantor. Eu estou muito a fim de trabalhar com os diretores do Cinema de Plástico, lá de Contagem – MG, o Gabito Martins, o André Novais.

JC – No lado pessoal, o que você vem consumindo cinematograficamente falando?
FABRÍCIO – Tenho visto os filmes do pessoal do Cinema de Plástico. Tive a sorte de fazer um filme com Eryk Rocha que é o meu mais novo lançamento de cinema, que no Brasil deve estrear ano que vem. E para esse ano tem um festival já, que ainda é surpresa e vocês vão ficar aí coladinhos para saber (risos).

JC – Após Simonal, quais serão seus próximos projetos?
FABRÍCIO – Próximos projetos temos o filme com Eryk Rocha que chama Breves Miragens, tem a próxima novela das nove, que eu faço uma participação superpequena junto com a Taís Araújo. Tem também uma peça que vai acontecer em São Paulo, uma Opereta que se chama Itamares.




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