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Entrevista
Bacurau

Diretores de 'Bacurau' falam sobre cinema de gênero e influências

Obra de dois cinéfilos apaixonados, o filme reflete a experiência fílmica de uma geração de realizadores

Publicado em 27/08/2019, às 18h27

Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles no set de 'Bacurau' / Divulgação
Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles no set de 'Bacurau'
Divulgação
João Rêgo

Quem já teve a oportunidade de assistir a Bacurau certamente encontrou dificuldades em resumir sua experiência com o filme. Discutir seus subtextos políticos vem sendo o caminho mais percorrido. Com um tempo de maturação, talvez essas lembranças se direcionem para um impacto mais sensorial; alguma cena específica, uma sensação durante a projeção, o medo, um susto, a raiva.

As duas reações não são antônimas. Pelo contrário, o trabalho dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles sempre buscou o ponto íntimo entre elas. Obras dos realizadores como Enjaulado (1997), Vinil Verde (2004), O Som ao Redor (2012), Mens Sana In Corpore Sano (2011) e Recife Frio (2009), em maior ou menor grau, encontraram na frontalidade do cinema de gênero um entendimento crítico da realidade que os cerca. Bacurau, até agora, é o ápice desse processo.

“Essa ideia do cinema de gênero reflete o desejo e a formação que minha geração teve. Ela não é a mesma do Cacá Diegues, do Glauber Rocha, do Nelson Pereira dos Santos, que vem de uma formação ligada a nouvelle vague francesa e o neorrealismo italiano. O próprio momento da Guerra Fria também trouxe isso do cinema americano ser visto como uma coisa imperialista. Mas eu cresci nos anos 70. Lembro de quando era criança, ir para o Cinema São Luiz assistir grandes filmes americanos. E por sorte foi uma grande década do cinema comercial de lá. Eu fui adolescente nos anos 80, e continuei com isso, me expondo ainda mais a esse tipo de cinema. Então é muito natural que você repita o que lhe formou” explica, KMF.

Obra de dois cinéfilos apaixonados, Bacurau não é apenas uma carta de devoção aos seus ícones. Decompõe o Western de grandes cineastas dos anos 40, como John Ford, Howard Hawks e Raoul Walsh, e reinventa no Sertão a efervescência oitentista de John Carpenter, David Cronenberg e Paul Verhoeven.

“O filme tem muito do faroeste italiano de um Sergio Leone, por exemplo, que também foi uma grande inspiração para o John Carpenter. Muito também do Sam Peckinpah, cineasta norte americano que repensou a forma de filmar o Western, rompendo essa coisa de olhar para os índios como invasores. Tem John Ford, com o Sangue de Heróis, que a gente, inclusive, reviu enquanto estava escrevendo o roteiro. A cena do espelho em que Pacote faz o sinal para o Lunga foi uma referência direta ao filme” conta Juliano.

O Assalto à 13ºDP, do John Carpenter, está muito presente ali. O Robocop também. Muito de como o Verhoeven mostra a violência extrema de uma forma muito despojada, o impacto que a violência causa no corpo de uma pessoa, e como a câmera vai mostrar aquilo” completa Kleber.

Outro dos grande êxito de Bacurau reside na sua capacidade de integrar brasilidades a composições do gênero. São os sintetizadores de Night de John Carpenter que se tornam trilha para a capoeira, a onipresença de Lia de Itamaracá como personagem dentro do filme e fora dele, a iconografia de um Sertão diferente do costumeiramente exposto e, principalmente, a concepção dos seus personagens; Lunga, Pacote, Udo Kier, e cada corpos estrangeiro. A trama segue e se desenvolve sobre tudo isso, conservando uma universalidade nos seus subtextos mais críticos, e reinventando seus motores do gênero em iconografias ricas do Brasil.

Bacurau parece um ET, mas continua sendo um filme da gente. Eu sempre quis fazer filmes de gêneros, mas que fossem brasileiros. E Bacurau é um filme clássico de invasão, de western, de suspense, muito brasileiro. Essa relação da comunidade com o bordel, a comida, as moscas, as roupas chinesas copiando modelos da Adidas, os pequenos usos de tecnologia” conta Kleber, que costuma tensionar essas característica em várias obras da sua filmografia. “Em O Som ao Redor, por exemplo, tem uma cena de suspense. Uma criança sonhando que a casa está sendo invadida. Isso é universal, é o medo de invasão. O americano, dinamarquês ou francês entende o que é isso. Mas aqui no Brasil isso vai encontrar um tom próprio”.



Na historiografia do cinema brasileiro foram poucos os filmes que percorreram esse território. Talvez em um recorte histórico mais localizado, O Amuleto de Ogum (1974), de Nelson Pereira dos Santos, represente o encontro máximo entre o gênero cinematográfico e uma representação brasileira. Se o Cinema Novo já investigava uma misè-en-scene casada com uma estética propriamente nacional, mesmo que por vias experimentais (Sem Essa, Aranha, de Rogério Sganzerla, como o grande exemplo), Nelson Pereira transfigurou estruturas clássicas de composições norte-americanas em candomblé, Jards Macalé e malandragem. Bacurau reinaugura essa tradição, e não parece estar sozinho.

“Eu acho que o Brasil não tem uma tradição tão forte de cinema de gênero, apesar de a gente ter o nome mais forte no Hemisfério Sul, o José Mojica Marins. Entramos num período muito longo sem produção de filmes de gênero no país. O público brasileiro ainda não está habituado a isso, e criou uma certa ideia que os filmes feitos aqui são mal feitos, e os estrangeiros são bacanas. Essa distância vem diminuindo hoje em dia. Agora, por exemplo, a gente tem filmes como As Boas Maneiras, da Juliana Rojas e o Marco Dutra, nomes também como Dennison Ramalho, Rodrigo Aragão” ressalta Juliano.

Apesar de em signos mais próximos refletir o Brasil atual, Bacurau, no seu cerne, carrega uma das características mais marcantes do cinema de gênero: a universalidade dos seus arquétipos. É um filme que se inicia e encerra na sessão; nas sensações que emana, na potência da imagem que exibe, no funcionalismo dos seus personagens e, principalmente, da fuga de explicações em subtextos e nuances escondidas. Não que o seu campo de significações se feche – até por suas características únicas, as discussões ganham um caráter plural e com um raio enorme de interpretações.

"Bacurau sempre foi um filme sobre o Brasil e essa visão que as pessoas têm de comunidades e populações que vivem em locais mais afastados. É o caipira, o matuto, pessoas simples que de simples não têm nada. E se você esmiuçar isso, pode expandir pelo Brasil inteiro. Por exemplo, a gente filmou em Barra que se sente diminuído pelo seu centro, que é Parelhas. Desdobrando, no Rio Grande do Norte, um estado nordestino, o pessoal de Natal já tem um olhar diferente para o povo de lá, que é o mesmo olhar de São Paulo para o Nordeste. E isso não é só aqui. Passamos os filmes por vários países, e isso é evidente. Quando a gente exibiu na Austrália, por exemplo, isso dialogou muito com a história dos Aborígenes" comenta Juliano.

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PERNAMBUCO CONTAGEM

Apesar de não fixar-se em um núcleo de protagonismo, Bárbara Colen é figura marcante em Bacurau. Algumas semanas atrás em exibição no Recife, sua personagem também cativava no longa No Coração do Mundo, dos mineiros Gabriel e Maurílio Martins. Apesar das propostas diferentes, conta a atriz, é possível traçar paralelos entre as duas obras. “Tanto em Bacurau quanto No Coração do Mundo você tem uma coisa que para mim é muito determinante na escolha dos trabalhos que é essa de pegar alguns “Brasis” muito invisíveis e colocá-los em evidência na tela”.

Filmes bem localizados onde existem – seja Pernambuco, Sertão do Seridó ou Contagem, ambos carregam uma grande força de representatividade para esses locais. “O sotaque de Contagem e do Sertão, trazem essa noção de identidade reforçada, de se ver na tela”, pontua a atriz.

De semelhança mais direta, tanto Bacurau quanto No Coração do Mundo possuem uma paixão pela ficção. "São histórias muito interessantes que possuem uma ação muito precisa, mas ao mesmo tempo com respeito pelas subjetividades dos seus personagens".

"Eu acho que isso também encontra um paralelo na maneira de se fazer filmes. Tanto na Filmes de Plástico como na CinemasCope, há um jeito muito afetivo de produzir. Você trabalha com pessoas que são companheiras de longas datas; é uma equipe que está a muito tempo vivendo aquilo fora e dentro do meio profissional", completa.




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