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Crítica: Nem os Beatles salvam 'Yesterday'

Dirigido pelo britânico Danny Boyle, 'Yesterday' traz um mundo sem Beatles, mas não dá conta de sua premissa

Publicado em 28/08/2019, às 09h07

'Yesterday' estreia nesta quinta-feira  / Foto: Universal/Divulgação
'Yesterday' estreia nesta quinta-feira
Foto: Universal/Divulgação
Rostand Tiago

O diretor britânico Danny Boyle estava vindo com uma boa safra de produções. Só nos últimos quatro anos, trouxe uma enérgica sequência para seu jovem clássico Trainspotting e dirigiu uma cinebiografia de estrutura instigante sobre Steve Jobs. Uma pena que sua filmografia desta década se encerre com um filme tão vazio quanto esse Yesterday, que estreia amanhã no circuito comercial. É intrigante como a produção envolve um excelente diretor, um bom elenco, uma premissa interessantíssima – os Beatles – mas ainda assim, acaba caindo em uma banalidade sem sabor na sua execução.

Escrito pelo veterano de comédias românticas Richard Curtis, o enredo gira em torno do jovem Jack Malick (Himesh Patel), que divide sua vida entre o sonho de uma carreira musical e a realidade do trabalho em um supermercado. Mesmo apoiado pela amiga/empresária Ellie (Lily James), o rapaz está prestes a abandonar a música após uma série de desilusões, até sofrer um acidente de trânsito durante um misterioso apagão global. Quando acorda, Malick descobre que está vivendo em uma realidade em que os Beatles e suas canções nunca existiram. Ele então decide tomar para si as composições dos garotos de Liverpool para traçar um novo rumo em sua carreira.

É a partir do momento em que essa curiosa trama é estabelecida que Yesterday começa a se perder. A maior problemática do filme é não querer lidar com as potencialidades desse cenário estabelecido. Ou pior, chega a tornar esse mundo sem Beatles em um ponto secundário, um pano de fundo e uma trilha sonora para um romance batido e bobo. Não que o texto precisasse se debruçar minuciosamente sobre cada consequência de uma circunstância em que o quarteto britânico não existisse, mas a execução se perde em lidar com profundidade ou originalidade em todos os seus rumos e acabamos em uma velha história de estrelato artístico versus verdadeiro amor.



É o que tem

Cabe a seus intérpretes se virarem com os personagens que lhes são dados. Himesh confere ao protagonista uma apatia que acaba caindo bem ao tom de seu personagem, empregando um convincente olhar confuso para toda aquela situação. Já Lily James não encontra muito o que fazer para além de apostar em uma doçura boba. O cantor Ed Sheeran, a quem a narrativa coloca como referência de composição na música pop, se sai bem em sua ponta como si mesmo. O maior desperdício nesse quesito é certamente a talentosa Kate McKinnon, emprestando sua energia maníaca a uma caricatura tão rasa de empresária gananciosa.

Na verdade, desperdícios resumem bem o projeto. A começar pela grande pulsão de dinamismo visual que Boyle carrega em sua filmografia, e que aqui se encontra reduzida e engessada, quando não cafona. O mais perto de despertar algo próximo de fascínio talvez esteja na revisita a espaços marcados pelas obras dos Beatles ou até mesmo alguns bons arranjos para a reinterpretação das canções, talvez até alguns insights sobre como a obra do quarteto seria vista caso feita nos moldes da indústria hoje. Pena que salteados entre diálogos fracos e um certo encontro pavoroso de raso.

A impressão final é de que Boyle escutou o argumento proposto para a produção e se empolgou demais sem ver como a narrativa seria estruturada, entrando de cabeça e, por algum motivo escuso, se recusando a pular do barco. Ou talvez até devendo um favor para alguém. Resta torcer para que a próxima década traga novos bons projetos para o realizador, distantes desse esquecível episódio que nem a força da maior banda da história da música conseguiu salvar.




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