Jornal do Commercio
Entrevista
CINEMA

"O céu é o limite", diz Silvia Cruz, distribuidora de Bacurau

Fundadora da Vitrine Filmes conta como foi a estratégia de lançamento do filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Publicado em 04/09/2019, às 17h17

Silvia Cruz, da Vitrine Filmes / Divulgação
Silvia Cruz, da Vitrine Filmes
Divulgação
Ernesto Barros

A paulistana Sílvia Cruz, sócia-fundadora da Vitrine Filmes, que desde 2010 acompanha a trajetória de uma nova geração de cineastas brasileiros, comemora a excelente bilheteria de Bacurau, dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Até terça-feira (3/9), a produção franco-brasileira, premiada em Cannes, contabilizava 130 mil ingressos vendidos em pré-estreias e no seu primeiro fim de semana de exibição. Na próxima quinta-feira (5/9), Bacurau entra em mais 20 cidades do País. A carreira internacional continua este mês no Festival de Toronto (Canadá), no New York Film Festival (EUA) e no MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Horror de Lisboa (Portugal). Neste entrevista, Silvia Cruz fala sobre a estratégia de lançamento do filme, a ligação com o cinema pernambucano, os novos desafios da distribuição cinematográfica e o receio das ingerências do presidente Jair Bolsonaro no audiovisual.

JORNAL DO COMMERCIO – Qual a avaliação que você faz do primeiro fim de semana da bilheteria de Bacurau?
SILVIA CRUZ – Os números foram muito bons, melhores em algumas salas que em outras, mas no geral foram resultados extremamente bons. Relatos de salas lotadas, de pessoas saindo das sessões tentando ver o filme, indo pela segunda e terceira vezes. Foi um acontecimento, a bilheteria respondeu e acho que vai haver até um crescimento no boca a boca. Tem sido realmente muito bom e já passou de 100 mil espectadores nesse primeiro final de semana. O céu é o limite e que venham os próximos dias e semanas.

JC – Qual foi a estratégia de lançamento de Bacurau, que contou com várias sessões especiais pelo Brasil até a estreia oficial, na última quinta-feira?
SILVIA – Foi uma estratégia pensada ao longo dos meses desde a exibição em Cannes, entendendo o filme e os exibidores – as principais redes, talvez as salas mais populares –, e tendo a certeza de que Bacurau era um filme que precisa ser assistido. A estratégia com várias sessões antes da estreia foi exatamente para as pessoas começarem a falar do filme, que é, digamos, novo, totalmente inovador. Fizemos sessões abertas para o público e sessões com debates. Essas sessões foram muito bem-sucedidas. A gente conseguiu fazer mais de quinze sessões-debate com a equipe, elenco e diretores, e mais de 100 sem debates.

JC – Já no Festival de Cannes, quando Bacurau ganhou o Prêmio do Júri, deu para sentir que o filme mantinha uma forte ligação com o público?
SILVIA – Sim. Mas, como sempre, nos festivais fica aquela dúvida, se é com o público que os frequenta, mais cinéfilo, ou se ultrapassa essa bolha. Antes de Gramado, a gente fez sessões para exibidores e para algumas pessoas. Na nossa opinião, o filme ultrapassava esses públicos, mas depois a gente teve certeza de que ele tinha uma ligação muito forte com o público, no sentido de fazer o público torcer, chorar, num resposta emocional mesmo. As pessoas saem muito impactadas, elas não conseguem esquecer e não param de falar depois.


JC – Você acompanha a carreira de vários cineastas desde os seus primeiros longas, entre eles Kleber Mendonça Filho, talvez o diretor com mais filmes distribuídos pela Vitrine. Como surgiu essa parceria?
SILVIA – Na verdade, Kleber está empatado com Gabriel Mascaro, que a gente já lançou Um Lugar ao Sol, Avenida Brasília Formosa, Ventos de Agosto e, agora, Divino Amor. Tanto Kleber quanto Mascaro, por acaso dois cineastas pernambucanos, são os recordistas de títulos lançados pela Vitrine. Antes de abrir a distribuidora eu já gostava dos curtas de Kleber. Quando criei a Sessão Vitrine, fui atrás dele para lançar o documentário Crítico. Nessa época ele estava finalizando e procurando distribuidor para O Som ao Redor. Foi um encontro de cinefilia, digamos assim, e também empresarial, pois eu estava em busca de filmes e ele de distribuidora. Desde o primeiro lançamento até hoje tem sido um encontro muito frutífero. Foi muito bacana fazer esse caminho todo e chegar até aqui com Bacurau.

JC – Este ano a distribuidora perdeu o patrocínio da Petrobrás na Sessão Vitrine. Para viabilizar a sessão, você iniciou um modelo com a disponibilização dos filmes pela internet. Quais as impressões dessa estratégia e qual a importância desse modelo para a Vitrine Filmes?
SILVIA – Apesar de Bacurau e de outros filmes, financeiramente e culturalmente tem sido um ano muito difícil para o país e para a Vitrine. A perda do patrocínio da Petrobrás foi um baque enorme e a gente teve que repensar o modelo de distribuição dos filmes da Sessão Vitrine. A impressão até agora é que gente conseguiu inovar, ou pensar em como seguir em frente, disponibilizando-os num modelo transacional, em que você pode comprar o ingresso para vê-los no cinema ou em sua casa, sem ser com uma assinatura. Foi uma estratégia extremamente acertada, no sentido de disponibilizar o filme para mais pessoas, democratizar o acesso à cultura. A nossa média de público, entre oito e 10 mil pessoas, continuou com os primeiros dois títulos, que foram Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, de Marcelo Gomes, e Vermelho Sol, de Benjamin Naishtat. Estou me Guardando… já passou de 10 mil espectadores nas salas, o que é um número muito bom para um documentário. Nossa impressão é que as pessoas continuam indo ao cinema, mas quando você disponibiliza para assistir em casa, mais pessoas o assistem.



JC – Como você analisa as recentes declarações do presidente Jair Bolsonaro, que pode mexer em mecanismos como a Ancine e o Fundo Setorial do Audiovisual?
SILVIA – Eu analiso as declarações do atual presidente como muito preocupantes para o cinema brasileiro. Eu vislumbro que, caso realmente se mexa nos mecanismos e exista algum tipo de filtro ou censura, isso vai ser tenebroso para um cinema que só vinha crescendo e demonstrando a sua força, seu poder, um cinema extremamente rico para o Brasil.

BALANÇO DA VITRINE


JC – No próximo ano, a Vitrine Filmes completa 10 anos de atividades. Como você avalia a trajetória da distribuidora?
SILVIA – Eu sempre digo que foi uma trajetória que acompanhou, naquela época, em 2010, o novo cinema brasileiro. Uma nova geração, um novo cinema, uma nova geração de políticas públicas, com o surgimento da Ancine. Eu acho que foi uma trajetória, pelo menos até aqui – infelizmente não sabemos o que vai acontecer –, uma trajetória extremamente rica e frutífera, um momento onde o país teve políticas de descentralização, onde o cinema brasileiro conquistou e reconquistou o seu público.

JC – Neste momento você está morando na Espanha. É uma mudança de domicílio mesmo ou é apenas uma estadia temporária?
SÍLVIA – Estou morando na Espanha para fazer um mestrado que dura um ano e três meses, é uma mudança temporária para fazer um mestrado em curadoria e programação. Surgiu essa oportunidade e acho que é um momento bom também de ver as coisas de fora e pensar e repensar o cinema, a distribuição, a programação e diversas coisas.




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