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'Eu, um Negro' toma as telas do Cinema da Fundação

Mostra dedicada ao cineasta Jean Rouch, no Cinema da Fundação, exibe neste domingo (08) uma das suas obras-primas

Publicado em 08/09/2019, às 14h50

Cena de Eu, Um Negro (1959), de Jean Rouch / Reprodução
Cena de Eu, Um Negro (1959), de Jean Rouch
Reprodução
João Rêgo

Retornando a Taiwan, uma garota se depara com uma movimentada avenida; confusa, tenta de várias formas atravessa-la sem sucesso. A Passarela se Foi (2002), adverte o título do curta do cineasta malaio Tsai Ming-Liang. Um ano antes, com mais facilidade, a personagem encontraria o lugar que procurava no longa Que Horas São Aí? (2001), do mesmo diretor. 

Será que a passarela se foi mesmo? Em pouco menos de meia hora do seu curta, Tsai levanta mais questionamentos do que nos entrega uma resposta. Até onde a ficção, como ação de apontar uma câmera para algo, é um registro documental da realidade?

De fato, a locação das duas obras são as mesmas, com uma pequena mas relevante diferença de temporalidade. De um ano para o outro, a cidade avançou, a passarela se foi, e a câmera do diretor, assim como sua personagem, não conseguiram encontrar a mesma gravação captada no passado.

Ciente ou não, Tsai flexiona até onde o sentido da imagem, a mise-en-scène e o texto fílmico, naturalmente, documentam o que lhes entornam (a cidade, o tempo e natureza). O malaio, contudo, não foi pioneiro nisso – de tão intrínseco à sétima arte, talvez sequer exista um ponto inicial para esses apontamentos. O que não impediu do cineasta francês Jean Rouch (1917 – 2004) levar essa discussão a níveis conceituais maiores.

Principal nome do que se convencionou chamar de cinéma vérité, o “cinema-direto”, sua filmografia circunda a etnologia, explorando as fronteiras entre o documental e o ficcional. Sua principal devoção cinematográfica foi trazer à tona histórias, costumes e culturas de povos africanos entre os anos 50, 60, 70 e 80. Seu trabalho influenciou diretamente cineastas da nouvelle vague francesa, dentre os principais deles, Jean Luc-Godard.



Para entendê-lo, à princípio, é preciso quebrar qualquer barreira que separe a ficção do documentário. Não de suas características próprias e bem delimitadas, mas do seu cerne mais básico: o aparelho cinematográfico. Rouch é sobretudo um arquiteto do corpo; do corpo em movimento e da imagem. Quando documenta costumes, ações e o cotidiano de povos africanos, estabelece uma distância bem calculada do que filma. Afinal, é francês, branco e inserido no período que trabalhava, caberia até o adjetivo de colonizador. Esse espaçamento é ocupado pela sua genialidade; o acaso, o improviso, a encenação e, certamente, a ficção. Daí a razão das fronteiras ficarem turvas. Rouch não apenas aponta e registra, ele também controla o que capta. Não de forma bruta, perfídia ou intervencionista, seu comando é exercido através do cinema; da câmera, da mise-en-scène e da cooperação. 

Em Makwayela (1977), por exemplo, Rouch filma trabalhadores moçambicanos realizando uma performance musical. Os cantos exaltam reivindicações, conquistas e gritos de caráter socialista e trabalhista; “Trabalhadores do mundo inteiro uni-vos”, “Abaixo o capitalismo”. No final, a genialidade em um simples movimento: a câmera de Rouch, e sua direção, capturam os seus personagens retornando para o fundo da fábrica em que trabalham. 

EU, UM NEGRO 

Makwayela só são 20 minutos de uma obra gigante. Em seus longas, o francês concebe dimensões ainda mais intuitivas e ricas do universo africano. Diante da baixa acessibilidade a eles, a curadoria do Cinema da Fundação fez um importante esforço para exibir três dos seus trabalhos. Duas obras raras como A Caça ao Leão Com Arco (1965) e Pouco a Pouco (1972), além de uma das suas mais célebres obras Eu, Um Negro (1959), exibida neste domingo (08) às 17h, na sala Derby.

Se um filme pudesse reunir o máximo de características da sua filmografia, Eu, Um Negro despontaria na frente de qualquer outro. A obra acompanha jovens nigerianos imigrantes na Costa do Marfim em busca de melhores condições de vida. Treichville é onde vivem. Os atores escolhidos são, ao mesmo tempo, si mesmo e seus personagens. Em off, narram as cenas que Rouch dispõe em tela; do cotidiano, hobby, práticas religiosas, e subjetividades. Seus nomes são engenhosamente trocados: se chamam Edward G. Robinson, Eddie Constantine e Tarzã; todos signos americanos dentro de uma juventude africana que sonha com o boxe, o western, enquanto luta para sobreviver.

Rouch tensiona linhas, documenta e ficcionaliza; perto e distante, como um autor e um projeto compartilhado. Nesse meio só há uma coisa que não responde a falsas dualidades: a imagem, e como dito antes, são poucos os que a esculpem como o diretor francês.




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