Jornal do Commercio
RESENHA

Fernando Monteiro faz poemas narrativos em seu novo Mattinata

Lançado por meio de parceria entre duas editoras, livro contempla o mundo a partir do olhar do luto e da indignação

Publicado em 20/05/2012, às 06h03

Diogo Guedes

“A manhã não espera por nada, / nem traz coisa alguma para ninguém”. É dessa manhã fria, desse nascimento de um “dia ateu” que o escritor e cineasta Fernando Monteiro começa falando em Mattinata (92 páginas, R$ 25), seu mais novo livro de versos, lançado na última quinta (17/5), em Natal. Parceria entre duas editoras – a catarinense Nephelibata e a potiguar Sol Negro –, a obra tem capa com uma ilustração de Francisco Brennand na capa e é composta por três poemas, em maioria narrativos, numa espécie de continuação do projeto poético do autor de dedicar-se a uma poesia “em movimento”, também presente na sua última publicação, Vi uma foto de Anna Akhmátova (2009).

Monteiro é uma figura de veia artística múltipla, já se dedicou a romances, peças e filmes. Não é de se estranhar, então, que a sua capacidade de construir imagens enquanto narra se faça presente já no início da obra, que traz uma delicada inversão do senso comum: o “personagem” do poema é um homem que, na noite anterior, brigou com sua companheira e agora, observando o amanhecer, contempla os últimos minutos antes da iminente despedida. Assim, se a noite é quando o conflito acontece, ela não é o pior momento. O que se teme é o adeus, que se materializa lentamente na manhã de uma “mesma natureza indiferente” e de uma cidade parcialmente estranha ao poeta.



O segundo poema, Escritos no túmulo é mais curto e todo apresentado em caixa alta e itálico, como se numa referência visual às lápides de cemitérios. Aqui, o progresso é visto em suas contradições: que mundo é este de hoje que, coberto de pornografias, proíbe um quadro que representa dois amantes homossexuais? O clássico, o arcaico, o morto podem ser mais relevantes como exemplo do que um mundo defeituoso. A antiga visão de que a história é cíclica ganha aqui uma roupagem poética e mais complexa, em que o passado não necessariamente espelha o futuro, mas mostra as idiossincrasias do presente.

Ainda que sejam de dois belos poemas tristes, é último momento da obra o mais carregado de um pesar indignado, que não se usa do luto apenas para o lamento. Para Monteiro, uma pergunta – E para que ser poeta em tempos de penúria?, tirada de um verso do paulistano Roberto Piva, morto em 2010 –, é como “um dedo que nos acusa, trêmulo”. Por que um autor como Piva recebe tão pouco nossa atenção? Por que entendemos que a penúria de que ele falava era sobre si mesmo, e não sobre a situação desse mundo falido? Por que só lembramos do poeta quando ele dá o primeiro passo rumo ao quase esquecimento?

Leia a matéria completa no Jornal do Commercio de domingo (20/5)




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