Jornal do Commercio
ENTREVISTA

Escritor Almeida Faria fala sobre o sebastianismo

Convidado de Fliporto deste ano, o autor português fala sobre a esperança messiânica do povo português, tema de sua conversa com Ariano Suassuna no evento

Publicado em 14/11/2012, às 06h32

Almeida Faria se baseou no mito de Dom Sebastião para compor seu principal romance / Divulgação
Almeida Faria se baseou no mito de Dom Sebastião para compor seu principal romance
Divulgação
Diogo Guedes

A esperança pode dizer muito sobre uma nação. O sebastianismo – crença de que o Rei Dom Sebastião vai voltar um dia para salvar Portugal – de certa forma se faz presente em tempos de crise como o atual. No seu mais famoso livro, O conquistador (Rocco), o escritor português Almeida Faria brinca com a tradição da lenda, criando Sebastião pobre e mulherengo, o oposto do nobre lendário. Na entrevista abaixo, ele fala sobre o tema e comenta o encontro com Ariano Suassuna na Fliporto, na sexta (16/11), em mesa às 18h30.

JC – Por que o sebastianismo é um tema interessante ainda hoje? É uma história que ainda diz sobre a cultura portuguesa contemporânea?
ALMEIDA FARIA –
O sebastianismo é uma forma de messianismo, um mito salvífico que manifesta e mobiliza desejos coletivos, sonhos, utopias. Na formulação de um filósofo alemão do século passado, os messianismos respondem àquilo a que ele chama “princípio esperança”. Sonhar, em tempos de miséria, futuros menos péssimos, serve de analgésico e tem sido fácil terapia quando Portugal se encontra, como agora, em graves apuros.
O mito sebastiânico está tão presente no nosso imaginário popular e literário, que frequentemente volta à tona sob novos nomes e metamorfoses. Mito e literatura sempre foram, aliás, inseparáveis aliados. Em grego antigo, mythos significava enredo, história narrada ou teatralmente encenada. Para Aristóteles, o mito era a “alma da tragédia”, o elemento essencial de qualquer narração ou representação teatral, cômica ou trágica. Os verdadeiros mitos não morrem, reaparecem em roupagens modernas, em fantasias e linguagens atuais.
E o sebastianismo, enquanto maior mito cultural lusitano, tem sido revisitado ora a sério ora de forma cáustica ou sarcástica. Há poucos anos, um “pensador” português tornou-se muito conhecido ao proferir na televisão, solenemente, com ar profético, frases deste gênero: “Portugal não precisa da Europa, a Europa é que precisa de Portugal. Os pobres povos do norte da Europa, coitados, só sabem trabalhar. Têm de aprender com Portugal a nobre arte do ócio”.
Vasco Pulido Valente, o melhor comentador político português, terminava há dias no jornal Público o seu artigo de opinião com estas irônicas palavras: “Se alguém encontrar D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, por favor escreva para este jornal”.

JC – Você conhece a obra de Ariano Suassuna? Se sim, como pensa que ela se relaciona com seus trabalhos?
ALMEIDA FARIA –
Conheço algumas peças de Suassuna, embora só tenha visto uma, o Auto da Compadecida, por uma dessas boas surpresas que, por vezes, o Google nos dá. E li mais quatro: Uma mulher vestida de sol, sua primeira edição, da Universidade do Recife, de capa amarela e um sol vermelho torrado sobre fundo acastanhado; O santo e a porca, que me divertiu também por o santo em questão ser Santo Antônio de Lisboa, que em Portugal ajuda a encontrar coisas perdidas e a encontrar com quem casar, para quem esteja interessado nisso; O casamento suspeitoso; e, enfim, A pena e a lei.
São porém os seus romances que se relacionam com O conquistador. Têm em comum comigo o interesse pelo sebastianismo. Conservo a primeira edição de O romance d’A PEDRA DO REINO e o Príncipe do sangue do vai-e-volta (as maiúsculas são da edição original) e reparo de novo que a primeira epígrafe é uma frase atribuída a Dom Sebastião, “Rei de Portugal, do Brasil e do Sertão”. Reabrindo-a, fui surpreendido pelas muitas anotações que fiz ao lê-la.

Leia mais no Jornal do Commercio desta quarta (14/11).




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