Jornal do Commercio
ENTREVISTA

A literatura exilada de Bolaño

Eduardo Sterzi comenta a relação da obra do chileno com a história da América Latina

Publicado em 15/07/2013, às 06h00

Diogo Guedes

O escritor e professor de Teoria Literária da Unicamp Eduardo Sterzi fala sobre Roberto Bolaño por ocasião dos dez anos da sua morte, destacando a ligação da sua obra com os crimes e também a construção da figura do escritor como um exilado. Sterzi é autor, entre outros, do livro de poemas Aleijão.

JORNAL DO COMMERCIO - Fui ler uma matéria sobre a morte de Bolaño, em 2003, em jornais brasileiros e não tinham mais do que umas quatro frases frias. Como seria o tom dessa notícia se Bolaño tivesse morrido hoje, quando o mundo literário, incluindo o brasileiro, reconhece o valor da sua obra?
EDUARDO STERZI -
Provavelmente teríamos obituários mais enfáticos. Mas provavelmente, também, ainda mais equivocados, porque, agora que Bolaño é bem mais conhecido, também são mais conhecidas as falsidades e imprecisões que se colaram à sua figura: o suposto vício em heroína, o relevo indevido aos Estados Unidos como suposta instância fundamental para sua consagração literária, a incompreensão do caráter intrinsecamente inconcluso (infinito) de sua obra.

JC - Bolaño é hoje uma sombra literária tão grande quanto o realismo fantástico foi durante o século 20? Isso seria uma contradição, já que se tratava de um autor também do parricídio?
STERZI -
Lidar com a história da literatura é lidar o tempo todo com sombras. Aby Warburg dizia que a história da arte conta histórias de fantasmas para adultos. A história da literatura não faz diferente. Os autores, com o passar dos anos, se tornam tão fantasmáticos – isto é, tão presentes e tão ausentes, a um só tempo – quanto seus personagens. Quanto maior a obra, maior o fantasma: mais ele nos assombra, mais se manifesta em obras alheias, mais é incorporado aqui e ali por autores que supõem estar falando apenas por si mesmos. Não vejo isso como um problema. É como a literatura funciona desde antes de Homero – isto é, desde antes da literatura.

JC - A imagem e a vida de Bolaño se tornaram elementos tão marcantes de sua obra, numa medida parecida com a de seus livros. Seu sucesso se deve também por uma mítica do homem? A vida, as entrevistas e a figura de Bolaño são parte da sua obra?
STERZI -
Sim, a vida é parte de sua obra, porque a obra é parte de sua vida. Bolaño confunde deliberadamente, desde o início, vida e arte, num movimento constante que faz dele o último dos românticos, ou o último dos modernos. E note-se que não se trata de qualquer vida, mas de uma vida exemplar do destino político mas também poético de nossos tempos (uma coisa não se separa da outra), uma vida de exilado, isto é, uma vida de quem foi radicalmente escritor. Afinal, disse o próprio Bolaño: “Toda literatura leva em si o exílio, tanto faz que o escritor tenha tido de sair de casa aos vinte anos ou que nunca tenha se movido de casa”.

JC - É possível conceber a literatura de Bolaño sem o contexto dos crimes de estado das ditaduras latino-americanas? Era por isso que, antes de chileno, ele se dizia parte do continente?
STERZI -
Não é possível. A meu ver, o tema principal, ainda que muitas vezes tema de fundo, nem sempre explícito, da obra de Bolaño são os crimes das ditaduras latino-americanas, mais imediatamente, e os crimes todos da colonização da América, embora projetados, sobretudo em 2666 (sua obra maior não somente nas dimensões físicas), num plano planetário. Diz ele, em algum lugar, que “o crime parece ser o símbolo do século XX”, e esta intuição parece ter guiado sua escrita. Bolaño põe em ação um método quase paranoico, mas ao mesmo tempo extremamente realista, pelo qual, aos seus olhos e aos olhos dos seus leitores, todos os crimes do mundo parecem ter seu centro secreto nos horrores do passado e do presente da América Latina. Nisto, mesmo sem querer, Bolaño deixa a nu o triste insulamento em que vive grande parte dos brasileiros, não só os escritores, ensimesmados em suas obsessões nacionais ou falsamente cosmopolitas (isto é, eurocêntricas), ignorantes do destino histórico comum do continente.





JC - Qual a melhor metáfora para descrever Bolaño, a do detetive, tão recorrente, a do guerreiro, a do nômade ou sonâmbulo, a do cavaleiro rural belga ou alguma outra que ele mesmo não cunhou?
STERZI -
A metáfora do detetive é magistral. Na sua última entrevista, concedida à jornalista Mónica Maristain, da Playboy mexicana, Bolaño declara que teria gostado de ser “detetive de homicídios, muito mais que ser escritor”: “Um policial de homicídios, alguém que pode voltar sozinho, de noite, à cena do crime, e não se assustar com os fantasmas”. A literatura é, para Bolaño, exatamente um modo de voltar à cena do crime – de todos os crimes que se confundem com a história mesma da América Latina, que, por sua vez, é apenas um capítulo da história mundial do sofrimento e da esperança – e deixar-se atravessar pelos fantasmas. Só o escritor e o leitor podem aspirar ao posto do que o próprio Bolaño chamou, no título de um livro póstumo, de “verdadeiro policial”.




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