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CRÍTICA

Em 'Ascensão e queda', Wander Shirukaya faz narrativa veloz e virtuosa

Principal vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura, o romance aborda o universo musical

Publicado em 08/02/2015, às 05h39

 / Diogo Guedes

Os formatos mais clássicos das bandas de rock incluem três ou quatro integrantes. Para contar a sua história com o universo da música pop de um grupo iniciante, o escritor paulista radicado em Pernambuco Wander Shirukaya criou quatro vozes principais. Cada uma delas incorpora um instrumento, uma visão musical, uma personalidade, um conflito interior – esse é o o mundo polifônico que o leitor acompanha no romance Ascensão e queda (Cepe Editora), grande vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura de 2014.

Wander tem o grande mérito de criar uma narrativa envolvente, acessível, criativa em um universo pouco explorado na ficção brasileira: os bastidores do rock e do pop. O livro é atrativo porque oferece quatro visões a partir do suicídio inesperado de Johnny, vocalista do grupo Doce Anfitrite. A luta por um espaço no cenário musical, as brigas de egos e o luto são trabalhados principalmente a partir das vozes de Lune, baixista, namorada de Johnny e com uma postura radical de independência, Adrian, guitarrista que ama a música e tenta ver como a banda pode ascender, e Walter, baterista mais velho, uma espécie de voz da ponderação que tenta equilibrar esses opostos.

A formação da banda, os fracassos, a inesperada repercussão, tudo isso é abordado através de quatro pontos de vista – Johnny reaparece para falar do passado, vez ou outro. A trama parece uma catarse desses personagens, cada um finalmente conseguindo dar sua visão individual da história, que tem um encerramento forte, como se guardasse o seu maior hit para a última canção do bis. São relatos sempre pessoais e sempre coloquiais, em que as referências musicas de cada um aparecem e os conflitos vão se desenvolvendo.



Com essa estrutura desenvolta, Ascensão e queda é um romance sobre a impossibilidade de se seguir em frente mesmo quando a vida dá um empurrão. Como toda grande banda de rock, a Doce Anfitrite precisa equilibrar o respeito a sua autenticidade com a voracidade da atenção externa, que é o maior sonho de todo músico e também o maior problema deles. Wander, como músico, soube transpor para o papel com habilidade essas inquietações.

Apesar das vozes bem desenvolvidas, a estrutura – com três ou quatro relatos de cada acontecimento – se torna repetitiva ao longo do romance, mesmo que o ponto de vista de cada um dos personagens sempre acrescente algo. Outro porém é a falta de contexto: o grupo e seus personagens habitam uma geografia indefinida, uma idealização do mundo do pop que poderia ser enriquecida com o cenário brasileiro ou de outro canto. Existem alguns clichês também, mas eles são parte dos próprios personagens: rebeldes, arrogantes e sensíveis, como vários de nós. Wander foi capaz de criar uma narrativa que tem seus riffs simples e velozes e seus solos virtuosos: envolvente, como as música de que gostamos.




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