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HISTÓRIA

Clássico sobre o cangaço, livro de Frederico Pernambucano de Mello completa 30 anos

O volume 'Guerreiros dos Sol' vai ser tema de homenagem e debate na Academia Pernambucana de Letras em novembro

Publicado em 20/10/2015, às 05h50

Lampião e Maria Bonita na ribeira do Capiá, em Alagoas, no ano de 1936 / Benjamin Abrahão
Lampião e Maria Bonita na ribeira do Capiá, em Alagoas, no ano de 1936
Benjamin Abrahão
Diogo Guedes

Que Lampião foi derrotado e morto pelas forças policiais em julho de 1938 não há dúvidas. A sua derrota, no entanto, não foi completa, como afirma o historiador Frederico Pernambucano de Mello: se perdeu militarmente, o Rei do Cangaço foi vitorioso esteticamente. Ainda hoje o seu chapéu e seu uniforme cheio de ouro e detalhes bordados talvez seja o principal símbolo do Nordeste brasileiro; e, não por acaso, seja em uma visão romantizada ou através do repúdio, ele continua sendo alvo de fascínio.

Apontado por nomes como Gilberto Freyre, Ariano Suassuna e Evaldo Cabral de Mello como um dos livros fundamentais para se entender a existência do cangaço, o volume Guerreiros do Sol – Violência e Banditismo no Nordeste Pernambucano (Girafa) já pode ser considerado um clássico dentre os estudos históricos sobre a região e o fenômeno dos bandos violentos. Em sua 5ª edição revista e ampliada, a obra completa 30 anos de criação neste ano – para celebrar a data, a Academia Pernambucana de Letras organiza, no dia 9 de novembro, uma homenagem ao livro, com uma palestra da escritora Anna Maria César.

“Quando o livro foi feito, em 1985, o cangaço era usado muitas vezes como pretexto pelo marxismo para falar que havia ali uma luta de classe contra o poder dos coronéis. A universidade era tomada por essa interpretação. Como dizia Gilberto Freyre, o problema era o ‘suficientismo’ dos marxistas – e que existe em qualquer ‘ismo’ – que permitia que a doutrina atropelasse os fatos. Para mim, se a doutrina atropela o fato, é melhor ficar com o fato”, comenta Frederico.

A percepção veio de um encontro com o cangaceiro Medalha que, quando Frederico ainda era um estudante, revelou que cangaceiros quase nunca eram perseguidos por coronéis – seus adversários eram a polícia. “Lampião mesmo se considerava um coronel sem terras. O poder dele não era o poder da terra, era o das armas”, conta o autor. Uma das grandes contribuições do volume foi justamente a de mostrar, com inúmeros exemplos, que os cangaceiros eram parceiros dos coronéis.



Além disso, Frederico aponta na obra que também é preciso ver o cangaço como parte da resistência de um interior dominado pelo arcaísmo e pelos poderes não oficiais, como os coronéis, ante a pretensão de domínio e ordem dos governos litorâneos. “Na obra, eu começo apresentando o palco, o Sertão, depois falo dos protagonistas, os vários guerreiros, e finalmente chego no ator principal, os cangaceiros”, explica o autor. A obra ainda demonstra que os cangaceiros gostavam de falar que entraram no banditismo para vingar questões de honra, mas muitos deles, como Lampião, nunca se dedicaram a praticar a desforra – tratava-se de um pretexto, um “escudo ético”, na expressão de Frederico.

Guerreiros do Sol, claro, também se dedica ao Rei do Cangaço, símbolo máximo do banditismo no interior do Nordeste. “Lampião era um imenso marqueteiro de si mesmo”, define o pesquisador. “Ele era um homem de negócios muito inteligente, muito sagaz. As noções de negócios ele pegou com Delmiro Gouveia, terminando por criar o que chamo de ‘Cangaço S/A’: ele chegava a franquear as ações dele em vários bandos, ainda que mantivesse um grupo de confiança e valentia ao redor de si.”

Não por acaso, a morte de Lampião e a derrocada do cangaço merecem atenção especial na obra – e ainda hoje são temas que interessam a Frederico. “Há ocasos que são esplendorosos”, afirma. A criação das roupas belas e detalhadas para o bando – o próprio Rei do Cangaço costumava costurar seus trajes e pode ser considerado uma espécie de estilista do fenômeno – já inspirou o autor a escrever Estrelas de Couro: a Estética do Cangaço.

O material de colecionador que possui, inclusive, já o inspirou a tentar criar um Museu do Cangaço em Pernambuco – algumas negociações já foram feitas, mas Frederico ainda procura parceiros. Além disso, ele prepara atualmente duas obras. A primeira, Guerra em Guararapes e Outros Estudos, reúne um longo estudo sobre o conflito pernambucano, com especial atenção a aspectos da história militar, previsto para 2016. A segunda é sobre o cangaço, focado especialmente no episódio da morte da Lampião. Em pesquisas recentes, já descobriu novos fatos: um documento que mostra que Lampião pretendia ir para Minas Gerais a convite da família Maciel, para participar do conflito contra os Borges; e uma análise – feita por ninguém menos que o historiador e especialista em táticas militares Peter Burke – sobre como o território da Grota do Angico foi prejudicial para o combate que o vitimou.




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