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ROMANCE

Maria Valéria Rezende aborda o sertão a partir da memória

Em Outros Cantos, a autora, vencedora do Prêmio Jabuti, faz uma história sobre uma militante na época da ditadura

Publicado em 21/02/2016, às 05h11

A escritora santista radicada na Paraíba Maria Valéria Rezende / Silvia Costanti/Divulgação
A escritora santista radicada na Paraíba Maria Valéria Rezende
Silvia Costanti/Divulgação
Diogo Guedes

Um Sertão, qualquer Sertão. Se existe um espaço mitificado no imaginário literário brasileiro, ele é o interior árido, espécie de tema inesgotável da nossa escrita. Muitas vezes, serve como pretexto para sociologismos, recriações da linguagem recheadas de clichês, falsos mergulhos na vida de pessoas simples – simplificadas pelo olhar mesquinho do autor, na verdade – que ali vivem.

Se Graciliano Ramos falou do Sertão que nega a possibilidade de subjetividade aos homens e se João Guimarães Rosa retratou a partir dele o amor, o mundo, a filosofia pura que habita a mente de qualquer um, em seu romance Outros Cantos (Alfaguara), a escritora santista radicada na Paraíba Maria Valéria Rezende transforma a caatinga em um espaço da memória.

Não é a primeira narrativa que relembra o Sertão, claro, mas a autora – vencedora no ano passado do Prêmio Jabuti pelo livro Quarenta Dias – faz das lembranças o roteiro de uma viagem. Em Passageiro do Fim do Dia, excelente livro de Rubens Figueiredo, o cenário urbano é a paisagem do pensamento de um jovem que faz um longo trajeto para retornar do trabalho. Aqui, num relato de força semelhante, a narradora Maria está, a caminho de uma palestra, viajando pelo Sertão à noite e recordando o período em que viveu na cidade de Olho d’Água, encarregada, em plena ditadura, da educação de jovens e adultos.

Enquanto seu trabalho não começa – é preciso chegar o material e as ordens de um tal “vereador” – a personagem penetra na realidade singular (e tão comum, ao mesmo tempo, como quase qualquer Sertão) do município. “Lá não se costumava chegar, de lá só se ia embora”, relembra. Acolhida por Fátima, uma das poucas mulheres que realizavam trabalho braçal na cidade, Maria vai acostumando-se àquela vida, de uma simplicidade quase agressiva.



Os seus olhos percebem o Sertão de hoje, com cisternas e, quem sabe, um povo mais livre, com alguma dignidade. Ao mesmo tempo, sua mente recorda quando a região. Olho d’Água era mais abandonada pelo poder público, mas era possível encontrar, nesse cotidiano árduo, de trabalho até para conseguir água, também a beleza de pessoas que extraíam algo de um “lugar fora de lugar”, em que quase nada é possível. A memória de Maria vai sendo conduzida pela armadilha da saudade das festas religiosas, pelo apreço às narrativas orais e pela admiração ao esforço e solidariedade.

Mais do que uma visão idealizada, há uma espécie de acerto de contas consigo mesma nesse exercício, um expurgo da beleza e da angústia daquele período de vida. Além disso, na epígrafe de uma das partes do romance, Maria Valéria Rezende cita Elvira Vigna: “Nem sempre foi assim difícil. Tínhamos uns absolutos à disposição”.

Maria, a narradora, está em Olho d’Água com um intuito secreto: além despertar alguma consciência crítica pela educação, a partir do método de Paulo Freire, ela aguarda alguma sinalização dos companheiros de luta política, que podem se esconder e se organizar por lá. O livro, assim, é também uma reavaliação das certezas políticas, reafirmadas e transformadas pela vivência. Em mais um forte romance, com uma linguagem que evita atalhos e a crueza do vocabulário, Maria Valéria Rezende mostra que o Sertão é algo físico, que se pode atravessar, mas também é um cenário poético que se entranha na mente e memória para nunca mais sair.




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