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VERSOS

Wislawa Szymborska, Nobel da Literatura, é tema do Leia Mulheres

Desde a publicação dos seus poemas no Brasil, a escritora polonesa tem um grupo de leitores fiéis

Publicado em 20/07/2016, às 05h01

A literatura de Wislawa Szymborska é uma das grandes referências da poesia contemporânea / Reprodução
A literatura de Wislawa Szymborska é uma das grandes referências da poesia contemporânea
Reprodução
Diogo Guedes

Até 2011, a poesia de Wislawa Szymborska (1923-2012) era uma espécie de segredo comum de boa parte dos escritores contemporâneos brasileiros e leitores mais atentos. Não bastava já ter sido agraciada com o Nobel da Literatura em 1996, a autora polonesa só circulava aqui em traduções casuais, publicadas em revistas. Quando Poemas, volume traduzido por Regina Przybycien, finalmente saiu por aqui, parece ter criado uma espécie de confraria discreta, uma obsessão delicada pelos seus versos, que continua viva – e se fortalece – até agora.

Uma das reuniões, não mais tão secretas, acontece nesta quarta (20), na 11ª edição do Clube do Livro #Leia Mulheres, ação que tem gerado debates e movimentado leitores no Recife, coordenada por Carol Almeida, Priscilla Campos e Maria Carolina Morais. No encontro, que é aberto e começa às 19h30, no Edifício Texas (Rua Rosário da Boa Vista, 163, Boa Vista), a conversa será sobre o volume Poemas, editado pela Companhia das Letras.

Wislawa era quase uma desconhecida fora da Polônia quando venceu o Nobel da Literatura e foi chamada pela Academia Sueca de “a Mozart da poesia”. Talvez tenha sido um dos casos em que a honraria cumpriu melhor a sua função – levou luz a uma autora que merecia mais conhecimento e que, desde então, só cresceu no respaldo crítico e na influência. O mais irônico é que, apesar disso, o Nobel provocou nela um certo bloqueio criativo – a tradutora Clare Cavanagh diz que o círculo de amigos da poeta apelidou o prêmio de “tragédia Nobel”.

No discurso na Suécia, Wislawa comentou o apreço por uma frase curta: “Não sei”. “Poetas, se autênticos, também devem repetir ‘não sei’. Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas ‘obras’”, afirmou então.



A poeta tinha o mesmo jeito, fascinado e comedido, para falar da morte, da criança que quer descobrir o mundo com as mãos, da literatura. Parece ter na sua poesia o mesmo gesto de quando foi resenhista, e escrevia sobre ficção e poemas, mas também sobre obras de jardinagem, autoajuda e decoração. Em Autotomia, poema traduzido na revista Inimigo Rumor, ela fala em “Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida./ Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou”.

Além do #LeiaMulheres de Recife, Wislawa deve continuar colecionando leitores por aqui. Em agosto, a Companhia das Letras lança Um Amor Feliz, novamente com tradução de Regina Przybycien. Sim, a poesia dela continuará sendo a tábua de salvação – um poema salva o minuto, como diz a portuguesa Matilde Campilho – de mais pessoas.

Leia dois poemas de Wislawa Szymborska:

Alguns Gostam de Poesia
(tradução de Regina Przybycien)


Alguns –
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam –
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade,
gosta-se de afagar um cão.

De poesia –
mas o que é isto, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

 

Autotomia
(tradução coletiva da Inimigo Rumor)

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.




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