Jornal do Commercio
NOBEL

Filósofo brasileiro diz que Nobel a Bob Dylan é um alerta à mesmice

"Esse ano ficará marcado como o ano em que a literatura ficou sem um prêmio Nobel", afirmou Frederico Rochaferreira

Publicado em 24/10/2016, às 10h02

Para Rochaferreira, qualidade literária passa a ser mera formalidade ante a tendência do mercado / Reprodução
Para Rochaferreira, qualidade literária passa a ser mera formalidade ante a tendência do mercado
Reprodução
Da Estadão Conteúdo

O Nobel de literatura entregue a Bob Dylan pela Academia Sueca pegou o mundo de surpresa, principalmente o mundo literário, que procura entender o que aconteceu; que motivos levaram; o seleto Comitê do Nobel, a premiar um cantor /compositor com a mais alta horaria literária, preterindo um escritor. 

É verdade que Dylan tem lá seus livros, porém, são obras que se resumem a biografias, coletâneas de poesias, entrevistas e crônicas musicais, histórias acumuladas ao longo da carreira, comum a milhares de artistas, tanto que não foi o conjunto da obra literária que motivou a Academia a lhe conceder o Prêmio, foi o conjunto da obra musical.

Em comunicado à imprensa, a Academia disse que o cantor americano foi escolhido, "por ter criado novas expressões poéticas dentro da tradição musical americana", mas para o filósofo Frederico Rochaferreira, essa explicação não convence:

"__Ora, para obras musicais existem premiações específicas como o Grammy ou o Oscar, prêmios inclusive, que o cantor já possui em seu acervo, portanto, a explicação dada por Sara Danius, é frágil em seus argumentos e não convence"

De fato, a escolha foi tão insólita que a própria secretária permanente da Academia, se justificou dizendo que poderia aquela premiação parecer pouco convencional, mas que também, as obras de Homero e Safo foram escritas para serem cantadas, raciocínio que na visão do autor de A Razão Filosófica, soa vazio. Frederico entende que letras de músicas, regra geral, estão amalgamadas ao ritmo e não sobrevivem sem ele, salvo algumas poucas exceções.

"__É sabido que as letras musicais raramente têm vida própria, sem a música. No caso do cantor e compositor americano, algumas de suas letras sobrevivem sem a musicalidade, todavia, comparar essas letras sobreviventes a Homero e Safo e dedicar-lhe um Nobel de Literatura com esse argumento, não me parece uma justificativa inteligente."

A visão crítica do filósofo parece encontrar eco no próprio comportamento do cantor. Horas depois de ser anunciado como ganhador do Nobel de Literatura, Dylan fez uma apresentação em Las Vegas e nada mencionou sobre o prêmio que acabara de receber e vem, nesses primeiros dias, procurando manter um nada discreto distanciamento com a com a Academia Sueca, que só consegue falar com seus assessores.

MERCADO LITERÁRIO

Frederico Rochaferreira lembra que por traz dessa premiação fora do contexto, o objetivo pode não ter sido o talento do cantor e compositor, mas, acima de tudo, um alerta à progressiva mediocridade da literatura.

"__Não é improvável que essa premiação traga consigo um recado velado, um alerta à mesmice que ronda a literatura mundial. Enxurradas de romances novelescos e contos fantasiosos de duvidosa qualidade saem todos os anos de moinhos editoriais, dirigidos a um público cada vez menos intelectualizado, onde as editoras via imprensa, transformam escritores e obras obscuras, em Best Sellers do dia para a noite, inundando o mercado literário de nulidades "

Segundo Frederico Rochaferreira, a literatura é um grande negócio e o objetivo, é atingir sempre o grande público, portanto, qualidade literária passa a ser mera formalidade ante a tendência do mercado.

"__Recentemente escrevi que a literatura brasileira não promove o desenvolvimento cultural do nosso povo, pelo contrário, o inibi, na medida em que é uma literatura de contos da carochinha, de assimilação de ideias e esse pensamento, guardada as devidas proporções, pode ser estendido a outras sociedades. Se por aqui a literatura vazia que temos se deve principalmente à precariedade intelectual, nas sociedades desenvolvidas, esse é um negócio proposital, visando grandes lucros."

"__Agora, por mais fragilizada que a literatura possa estar em termos globais, certamente há incontáveis talentos dispersos pelos cinco continentes e a Academia Sueca não poderia nem deveria ignorá-los. Ao escolher um cantor popular e não um escritor para receber o maior prêmio literário, independente do objetivo que se pretendeu, o Comitê do Nobel fez uma escolha irresponsável e esse ano de 2016, ficará marcado como o ano em que a literatura ficou sem um prêmio Nobel."

Recomendados para você




Comentar


Nome E-mail
Comentário
digite o código
Desejo ser notificado de comentários de outros internautas sobre este tópico.

OFERTAS

Especiais JC

JC 100 anos JC 100 anos
Para marcar os 100 anos de fundação, o JC publica este especial com um panorama do que se passou neste período em que o jornal retratou o mundo, com projeções de especialistas sobre o que vem por aí e com os bastidores da Redação do Jornal do Commercio
Sozinha nasce uma mãe Sozinha nasce uma mãe
Uma palavra se repete na vida dela: sozinha. Porque estava sozinha na gravidez. Sozinha na hora do parto. Sozinha nas primeiras noites de choro. Sozinha nos primeiros passos. Sozinha no registro civil. O JC conta histórias de luta das mães sozinhas
Segunda chance - Caminhos para ressocializar Segunda chance - Caminhos para ressocializar
Eles saem das prisões, mas as prisões não saem deles. Perseguem-nos até o final de suas vidas. Como uma condenação perpétua. Pena. Eles lamentam. Mas precisam seguir. E neste difícil caminho da ressocialização, o trabalho é uma espécie de absolvição.

    SIGA-NOS

    LICENCIAMENTO

  • Para solicitação de licenciamento, contactar editores@ne10.com.br

Jornal do Commercio 2019 © Todos os direitos reservados

EXPEDIENTE |

PRIVACIDADE

Sistema Jornal do Commercio Grupo JCPM