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A ILUMIARA

Ariano Suassuna: 90 anos são celebrados com reedição da obra completa

Relançamento de A Ilumiara – Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta vai marcar o início da republicação da obra do escritor

Publicado em 13/06/2017, às 08h07

O romance inédito de Ariano Suassuna vai ser lançado em outubro / Rodrigo Lobo/JC Imagem
O romance inédito de Ariano Suassuna vai ser lançado em outubro
Rodrigo Lobo/JC Imagem
Diogo Guedes

Ariano Suassuna passou as últimas décadas de vida, em paralelo às suas aulas-espetáculo, escrevendo e reescrevendo com cuidado a sua obra final. Mais do que um mero novo romance, A Ilumiara – Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores foi adquirindo outras facetas: a de Ilumiara, palavra que sintetizava a totalidade da criação do autor. Não é por acaso que a trama de Dom Pantero é perpassada pelos livros anteriores de Ariano, pelo teatro, pela prosa, pelo desenho, pelas aulas-espetáculos e, além disso, pela própria vida do autor.

Os 90 anos de Ariano, que são celebrados nesta sexta, marcam o início do processo longo de apresentação dessa Ilumiara. Desde o começo da semana, uma das obra-primas do escritor que nasceu na Paraíba e viveu boa parte de sua vida em Pernambuco chegou às livraria em nova versão: A Ilumiara – Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. É o início da republicação da obra completa de Ariano, agora toda em uma só editora, a Nova Fronteira, com um projeto gráfico único e tratamento cuidadoso. Além disso, é a preparação – o romance ganhou com o tempo o subtítulo Introdução ao Romance de Dom Pantero – para o lançamento da narrativa inédita, marcada para o dia 9 de outubro, data em que seu pai, João Suassuna, foi assassinado no Rio de Janeiro.

Quando Ariano ainda estava vivo, o projeto da família era reunir a obra – antes dividida entre a José Olympio e a Nova Fronteira – em uma só casa editorial. Além disso, a negociação quis garantir que pessoas que conhecem a fundo a obra do escritor e que conviveram com ele pudessem ajudar a conceber o projeto. Assim, Carlos Newton Junior, pesquisador e amigo de Ariano, ficou com a coordenação editorial; Manuel Dantas Suassuna, filho, comanda a direção de arte; e Ricardo Gouveia de Melo fez o design das novas edições dos livros de Ariano.

“Tudo isso tinha sido conversado com a gente antes do meu pai ir embora. Não só na questão da literatura, mas na questão física. Essa casa é a Ilumiara Coroada. Tem a Ilumiara Zumbi, a Ilumiara Pedra do Reino, a Ilumiara Acauã e Ilumiara Jaúna, lugares que ele consagrou na literatura”, comenta Dantas. Assim, para os livros não poderia ser diferente: como destaca Ricardo, era preciso dar a eles uma unidade, com um tratamento gráfico que evitasse clichês e adentrasse de fato o universo de Ariano.

O LIVRO

A família de Ariano Suassuna tentou começar, pouco depois da sua morte, em 23 de julho de 2014, a continuar o trabalho do escritor com a sua obra. Não foi fácil. “Não foi e ainda não é”, comenta Manuel Dantas Suassuna, o filho. Logo após a morte do pai, passou meses sem conseguir se debruçar sobre o romance e continuar o trabalho de cuidar, junto com a família, da Ilumiara do patriarca. É um ofício recheado de comoção também para quem o conheceu, como o designer Ricardo Gouveia de Melo. “Não é um trabalho normal, tem muita emoção no meio. Às vezes, tanto faz eu estar rindo ou chorando”, confessa.

Dantas passou a se dedicar quase exclusivamente à obra de Ariano. “Papai foi quem me bancou a vida toda, e isso foi muito importante, porque eu pude fazer coisas sem me preocupar com o mercado. É uma forma de retribuir o que ele me deu”, revela.

O Romance d’A Pedra do Reino ganha, de certa forma, sua edição definitiva agora. Desde o lançamento do volume, em 1971, Ariano foi alterando a obra e acrescentando subtítulos. Na nova versão, as ilustrações do autor ganharam mais destaque nas páginas. Como se trata de um relançamento, não vai haver um evento oficial, mas amanhã, às 18h30, os 90 anos de Ariano e a republicação da obra ganham celebração simbólica no Arquivo Público de Pernambuco. A ocasião também celebra os 25 da cavalgada à Pedra do Reino e terá uma exposição de documentos, bacamarteiros e cavaleiros.

DOM PANTERO

Antes de partir, Ariano pediu para que Dantas e Carlos Newton continuassem a obra inédita se ele não a tivesse terminado. Afinal, ao longo de mais de 30 anos de escrita, o autor foi fazendo a trama incorporar as peças que criou e personagens. “Ele ia trazer todas as peças que fez para dentro do Dom Pantero, mas só conseguiu fazer isso com algumas”, conta o seu filho.



Para alterar a narrativa, Ariano ia usando páginas digitadas. Assim, resgatar onde se encaixa cada ilustração foi uma espécie de quebra-cabeça. Com o tempo, diz Dantas, ele foi fazendo do livro uma espécie de diário, que transbordava em sua vida e era alimentado dela – não por acaso existem vários personagens em homenagem a seus amigos.

Dividido em dois volumes, O Jumento Sedutor e O Palhaço Tetrafônico, de mais de 400 páginas cada, o livro vai ser lançado em uma caixa. Em média, são mais de duas ilustrações por páginas, muitas delas baseadas nas pinturas rupestres. “Acho que é o livro em que as ilustrações dele vão ser mais valorizadas”, comenta Ricardo. Dantas ressalta que, como foram feitos em um longo período de tempo, os desenhos mostram a mudança no trçao de Ariano, que foi se tornando mais maduro.

OUTROS PROJETOS

Se A Ilumiara – Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores será a obra mais visual de Ariano, o seu lançamento, em 9 de outubro, vai contemplar isso. A ideia é fazer uma exposição que englobe toda o trabalho gráfico do escritor. “É um projeto de Dantas, que teria um catálogo, ficaria dois meses em cartaz e terminaria com o lançamento do livro Ariano Artista Plástico, escrito por Carlos Newton, que já vem pesquisando isso há muito tempo” , comenta Ricardo.

A mostra contemplaria todas as criações do autor, desde a pintura e desenho até a tapeçaria e a cerâmica, entre muitos outros. Até os desenhos originais de Romance d’A Pedra do Reino, que estavam nas mãos do galerista Carlos Ranulpho, foram readiquiros pela família e vão estar na exposição.

Além disso, o público vai poder ver o caminho do traço de Ariano até os desenhos de Dom Pantero. “Muito do desenho de Ariano vem do desenho rupestre. Esse novo livro é como se fosse feito na pedra. E Dantas está fazendo esse desenho na própria pedra. E está um negócio lindo, essa tradução artística que Dantas está fazendo dos trabalhos do pai”, conta Ricardo.

OUTROS LIVROS

O acordo com a Nova Fronteira inclui a republicação de todos os livros de Ariano, mas também vai trazer títulos inéditos. Segundo Dantas, uma das propostas é criar coletâneas de crônicas ou ensaios do autor, por exemplo. Além disso, um desejo é publicar o volume Nova Heráldica Sertaneja – Livro dos Ferros do Cariri, que seria uma continuação, comandada por Carlos Newton, da obra de Ariano que circulou com uma tiragem de apenas 500 exemplares, todos assinados pelo autor.

PEÇA

Nesta semana, na quinta, véspera dos 90 anos de Ariano, outro projeto tem sua estreia, o espetáculo Suassuna, o Auto do Reino do Sol, do grupo Barca dos Corações Partidos. O texto da montagem é de Bráulio Tavares, a direção é de Luiz Carlos Vasconcelos e a música foi composta por Chico César, Beto Lemos e Alfredo del Penho. A peça vai ficar em cartaz no Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro, até 25 de junho.


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