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Geraldo Maia lança nova edição do poema confessional 'Breu'

Na obra, o autor e músico relata as experiências dolorosas por que passou na sua vida

Publicado em 14/03/2018, às 08h30

O autor e músico Geraldo Maia / Divulgação
O autor e músico Geraldo Maia
Divulgação
JC Online

Breu, define o músico e escritor Geraldo Maia, não é feito só da matéria do texto: é composto pela sua própria vida. Antes lançado em 2014, o volume com um poema longo ganhou uma nova versão, revisada e bilíngue, pela Confraria dos Ventos. O autor apurou, cortou alguns trechos, acrescentou reflexões, mas o cerne da obra continua o mesmo: a sinceridade, como um soco, de contar a própria trajetória sem enfeites ou temores.

“Eu achei que a primeira edição ficou muito limitada, circunscrita à cidade, e mesmo aqui não teve a repercussão que eu almejava. Fiquei namorando por um tempo dom a Confraria. Ao mesmo tempo, queris reformular o livro, reescrever um pouco, mudar o tom. Eu sou o narrador e personagem da obra. Ela não tem ficção nela, é a minha luta acirrada contra tudo, mas eu queria torná-la mais reflexiva e um pouco menos sexual”, comenta o músico.

Além disso, o livro contra com a tradução para o inglês do poema, feita pelo companheiro de Geraldo, John Holtappel, que está junto com ele há 26 anos. “Eu queria essa edição bilíngue porque penso em trabalhar a obra um pouco lá fora. John é inglês, fez a tradução, e ainda tem alguns contatos que podem ajudar a circular o livro fora daqui”, comenta o autor.

CONFISSÃO

Os versos de Breu são uma confissão reflexiva, um realismo poético, sem espaço para ficção. Geraldo narra ali o impacto de ver a mãe morta na infância, sem entender porque ela se mexia, o bullying no colégio, rejeitado pelos colegas, a iniciação sexual precoce, a homossexualidade e o desejo atacados pela culpa cristã que vinha da Igreja Católica. “O texto é minha vida. É um relato e autorretrato muito doloroso. Eu tive a dificuldade para compor o livro, mas nunca tive dúvidas que precisava escrevê-lo. Era uma catarse, e precisava ser feita da forma que fiz”, aponta o poeta.



Duas obras confessionais foram referências para ele, De Profundis, de Oscar Wilde, e Carta ao Pai, de Franz Kafka. Ao mesmo tempo, Geraldo teve o cuidado de não colocar nada de ficção na obra. “Eu não transformei minha dor em uma dor ficcional: ela está lá como foi. O que tentei foi não fazer um texto tomado pela autopiedade, pela autocomiseração. Podia ter caído nisso, mesmo que sem querer, porque fui muito machucado, especialmente pelo cristianismo”, conta. As experiências de Geraldo, entra a dor e desejo, são mostradas em sua complexidade. “Eu queria sair mais forte do que entrei nessa narrativa”, revela.

Na orelha da obra, a escritora Adriana Falcão chama o texto de Geraldo de um “grito”. O autor conta que fez terapia por muitos anos, “mas o foi o livro que resolveu melhor, finalizou melhor essas questões que eu tinha”. “Mesmo na música, a minha busca foi pelo caminho da estética, da arte e da expressão como uma forma de me libertar e de pacificar os meus demônios, o que há de bom e ruim em mim”, explica, citando uma frase de Nietzsche, “munido de uma tocha cuja luz não treme”.

Desde a publicação da primeira versão de Breu, Geraldo já havia anunciado a intenção de continuar o livro, falando agora de sua adolescência. “A minha juventude foi muito doida também, eu acho que dá livro também. Eu não comecei a escrever propriamente, tenho coisas esboçadas. Quero fazer algo nesse âmbito confessional de Breu, mas só vou saber como será quando for escrever mesmo”, comenta o escritor.


Serviços

Lançamento de Sax Áspero, de Marco Polo Guimarães, e Breu, de Geraldo Maia – quinta (15), às 19h, na Passa Disco (Rua da Hora, 345, Espinheiro).

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