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VERSOS

Marco Polo Guimarães reúne sua poesia na coletânea 'Sax Áspero'

O poeta e cantor da Ave Sangria mostra uma poesia melodiosa e áspera no seu novo livro

Publicado em 14/03/2018, às 08h15

O escritor e cantor Marco Polo Guimarães / Ashlley Melo/JC Imagem
O escritor e cantor Marco Polo Guimarães
Ashlley Melo/JC Imagem
Diogo Guedes

Já pelo título, o livro Sax Áspero (Confraria do Vento), do poeta e cantor Marco Polo Guimarães, parece indicar um caminho nada óbvio. Promete melodia, sonoridade, mas também alerta sobre suas arestas, avisa sobre “a parte mais áspera da palavra”. São os poemas que o autor, vocalista da icônica Ave Sangria e um dos principais nomes da Geração 65, compôs ao longo de sua vida sobre o sexo, os amores, as cidades, outros poetas, a arte – trazem “um homem saturado de memória” e também “a elegância do monstro/ e o coração do anjo turvo”.

O volume será lançado quinta (15/3), às 19h, na loja Passa Disco, no Espinheiro, com um pocket show de Marco Polo com Geraldo Maia, que vai lançar também a nova edição do livro Breu. Para Sax Áspero, trouxe poemas de todos os seus livros, incluindo duas obras inéditas. Nessa organização, notou não só alguns temas recorrentes, mas também a tensão entre melodia e aspereza. “Toda arte é tensão. Entre a realidade e a fantasia, entre a beleza e a feiura, entre a paixão e a razão, entre o espírito e a matéria. Acredito tanto na melodia quanto na dissonância como meios de se chegar a um efeito forte que potencialize a expressividade do tema”, comenta.

Sax Áspero é repleto de imagens fortes. Polo fala de “o caroço de um fruta/ ainda verde ainda amarga ainda sede ainda ainda”, por exemplo. Escreve sobre a cidade, mas só depois de ultrapassar os “enfeites desnecessários”, os cenários e a maquiagem. “Acho que o poema é uma arma. E uma arma só se torna arma quando usada. O poeta a constrói e a entrega ao leitor. Mas é este quem tem que puxar o gatilho. Se a arma tem todo os requisitos para seu funcionamento (melodia ou aspereza), o tiro vai ecoar”, define.

A obra conta com uma apresentação do poeta Fabrício Carpinejar e um ensaio crítico do professor da UFPE Anco Márcio Tenório. Carpinejar, no seu texto, vê a poesia de Polo em um diálogo – nem sempre convergente – com a de João Cabral de Melo Neto: “Cabral excomunga o verso; Marco Polo abençoa”, diz o autor gaúcho.

Segundo Marco Polo, Cabral é um de suas referências, mas não a única – Manuel Bandeira, Drummond, Rimbaud, T. S. Eliot, Lorca e Camões completam seu cânone pessoal. “Cada um deles me chamou atenção para aspectos da poesia que eu ainda não percebera mas que reverberavam em mim. Mas no fim das contas acho que minha poesia não se parece com a de nenhum deles. Lutei para encontrar uma linguagem pessoal”, afirma.



TEMÁTICAS

Ao longo de sua extensão, o livro vai mostrando um ordenamento sutil de assuntos. “Descobri que tenho temas recorrentes ao organizar uma antologia: sexo (e amor), a cidade, a morte, a arte, as questões existenciais e as questões socais”, confessa Polo. Ao mesmo tempo, seu livro é composto de uma série de odes – muitas vezes, às avessas – a artistas e poetas. “As homenagens (ou anti-homenagem) são uma forma, digamos, mais figurativa de explorar a questão da arte. Acho particularmente exemplar o poema Pintores que explora, com uma certa ironia, a suposta antítese entre arte e vida, ou a questão para mim acadêmica (em outras palavras, não tem o menor interesse): o que é mais importante a vida ou a arte?”, pondera.

Se em um dos poemas ele fala do homem saturado de memória, “corpo devastado no silêncio”, sua poesia não se restringe a lembrar o passado: se derrama em delírios e observações. “Memória, experiência, observação e imaginação. Estas são as ferramentas essenciais de qualquer escritor que leve a sério seu trabalho. Um desses elementos pode se sobressair numa determinada obra, mas os outros sempre estão presentes”, defende.

No seu ensaio, Anco Márcio destaca que Sax Áspero mostra a voz de bardo de Marco Polo, ao contrário da sua obra da Ave Sangria: “voz que insurge única e solitária no meio de outras vozes; e insurge não para falar do lado melodioso da vida, mas, sim, do que é escabroso, duro, rude, acre, ácido, ríspido e ‘áspero’”. Para o autor, poeta e músico são artistas diferentes. “O poeta tem muito de metalinguagem e referências eruditas. Mas também faz referências à cultura de massa. O que leva a outra questão que acho bizantina: a suposta compartimentação entre alta cultura e baixa cultura”, explica. “Mas o letrista não tem as preocupações do poeta. Ele quer encaixar uma boa letra numa boa música, só, sem maiores preocupações.”

Atualmente, além de trabalhar no novo disco da Ave Sangria, Vendavais, Polo conta que tem escrito bastante prosa. Seu último livro, A Autópsia do Bípede (Confraria dos Ventos), trouxe contos. “Tenho pronto um romance fragmentário, Depois do Amor, e um volume de contos, Martelos, Alicates e Coisas Assim”, revela.


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