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LIVROS

Feira do Livro de Frankfurt traz tendências editoriais e questões políticas

O evento, o mais importante do mundo para o mercado editorial, terá nomes como a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie

Publicado em 07/10/2018, às 08h39

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie / Divulgação
A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie
Divulgação
Diogo Guedes

Por diversos parâmetros, a Feira Internacional do Livro de Frankfurt pode ser considerada o maior e principal evento editorial do mundo. São mais de 7 mil editoras, representando 102 países do mundo, em uma feira onde são negociados os direitos de publicação da maioria dos livros estrangeiros que serão publicados ao longo do ano seguinte em um país como o Brasil. Com cinco dias de duração, a 70º edição do evento começa nesta terça, com uma palestra da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, do livro Sejamos Todos Feministas. Além disso, o país homenageado da edição é a Georgia.

A Feira de Frankfurt é mais conhecida por seu papel no mercado editorial – é onde são vendidos e adquiridos direito de publicação de livros. Não por acaso, o Nobel da Literatura costuma ser divulgado durante a realização do evento, o que não vai acontecer este ano, já que a premiação foi cancelada por conta de acusações de vazamento de informações e de assédio e violência sexual por conta do marido de uma das juradas da honraria.

País homenageado em 2013 – pouco depois dos protestos de junho –, o Brasil tem, ano a ano, mantido uma presença oficial na feira. A Câmara Brasileira do Livro (CBL), junto com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), vai levar 28 editoras daqui para o seu estande, que ocupa 176 metros quadrados. Além disso, três autores brasileiros fazem parte da programação oficial do evento: os cariocas Geovani Martins e João Paulo Cuenca e a paulista Bianca Santana. Neste ano, o Jornal do Commercio vai acompanhar o evento, a convite do Consulado Geral da Alemanha no Recife.

“A Feira do Livro de Frankfurt é a maior do mundo. Tudo o alguém precisa como editor está reunido lá. Podermos estar representados lá é uma grande vitória, mostrando o catálogo de pequenas e médias editoras. Não é uma feira para quem não tem um bom catálogo, porque é muito concorrida, muito profissional. Procuramos não só levar as editoras para lá, mas capacitar, mostrar como marcar e tocar as reuniões”, comenta Luís Antonio Torelli, presidente da CBL.

Para ele, o Brasil está bem representado também com os três autores, convidados pela feira. “Nós fazemos um bate-papo para apresentar as pessoas. Percebemos que a questão do empoderamento da mulher tem sido uma busca recente. O livro de Bianca Santana, Quando me Descobri Negra, é um destaque porque aborda também racismo e gênero”, conta Torelli. “A cada ano muda um pouco o que os editores e o público procuram. Frankfurt é um canal também para notar essas movimentações, ver a tendência do mercado editorial para o momento e para os próximos anos.”

No evento, editores brasileiros vão participar de conversas coletivas com agências literárias e editoras da América Latina e da China. “Sempre que conversamos com editores latinos, eles comentam como é surpreendente a pouca presença da literatura brasileira em outros países da região. Nos dois casos, a ideia é entender o motivo dessa distância e estabelecer laços. Com a China, por exemplo, eles gostam muito dos autores brasileiros que falam da religiosidade”, comenta Torelli.

Apesar do otimismo com a participação na feira, o momento do mercado editorial no Brasil não é fácil. A Livraria Cultura se prepara para encerrar as atividades da loja Fnac no Brasil e fechou lojas grandes, como a que ficava próxima ao Paço Alfândega, no Recife. “Estamos em uma crise monumental, provocada pelo cenário do país, mas também por lições de casa que deixamos de fazer ao longo do tempo. A Bienal de São Paulo teve recorde de público, ou seja, não é uma crise de falta de leitores: é uma crise nossa. Estamos perto de uma eleição majoritária, não sabemos as propostas do futuro governo. Tudo isso é difícil, mas não a ponto de desanimar: vamos estar lá, com um estande grande. Na questão de compra de direitos, acredito que vamos ter uma retração. Na venda de direitos para outros países, o número tem crescido ano a ano. Esperamos vender mais de U$S 600 mil para o mercado alemão e outros lugares”, conclui Torelli.



ESCRITORES

Quando me Descobri Negra traz a trajetória pessoal de Bianca de aproximação da sua própria negritude. Neste ano, o livro foi traduzido para o inglês e vai ser publicado na Nigéria. “Eu desejava que o livro chegasse às mãos das pessoas, especialmente as que tivessem pouca familiaridade com a leitura ou com a temática racial. Mas entre o desejo e o livro estar de fato acessível às pessoas há um caminho. E fico muito feliz por o livro chegar a lugares onde eu mesma não estive, nem estarei. Fico sempre emocionada com os depoimentos de leitoras e leitores”, comenta a autora. “A possibilidade de publicação na Nigéria foi um presente! Depois do Brasil publicar na África é melhor que qualquer sonho megalomaníaco que eu pudesse ter, ainda mais na Nigéria, de onde vem parte importante dos saberes negros que nos permitiram continuar vivas e vivos, apesar da política genocida do Estado.”

Bianca vai participar de uma mesa com outras escritoras da América Latina: Gabriela Cabezón (Argentina) e Mercedes Rosende (Uruguai). Para ela, se trata de um “diálogo muito menor do que eu gostaria”. “Fiquei muito animada com a possibilidade de estar mais conectada com a América Latina a partir deste encontro”, aponta.

No seu próximo livro, ela vai fazer uma biografia de Sueli Carneiro, filósofa e escritora negra. “Eu tenho feito entrevistas com Sueli, seus amigos e familiares. Só com Sueli são mais de 80 horas de conversa. Fora isso, há uma pesquisa documental nos arquivos dela, de Geledés e em acervos públicos. Tem sido um trabalho de fôlego, tanto de pesquisa quanto na escrita, extremamente prazeroso. Há informações desconhecidas sobre o movimento brasileiro que precisamos registrar e divulgar. É um trabalho de memória a serviço de quem luta por igualdade e justiça social no presente”, afirma.

Outro convidado, o escritor carioca Geovani Martins, publicou neste ano a sua celebrada estreia, o volume de contos O Sol na Cabeça. Nas narrativas, ele traz a vivência, a dicção e a geografia das periferias urbanas do Rio de Janeiro. Na Feira da Frankfurt, ele participa de uma conversa ao lado dos escritores Antonio Ortuño (México), Ariana Harwicz (Argentina) e Pilar Quintana (Colômbia) sobre a novíssima literatura produzida na América Latina.

O escritor João Paulo Cuenca retorna à feira depois de ter participado em 2013. Um dos temas das conversas que ele vai participar é literatura política. “O ambiente político brasileiro piorou bastante, de uma forma inimaginável. Se tivemos em 2013 que assistir a um intragável vice-presidente Michel Temer discursando na abertura da feira, cinco anos depois aquilo tudo parece fácil perto do pesadelo que virou o país - que corre perigo real de uma escalada fascista”, comenta o escritor de Descobri que Estava Morto.

O assunto de outra conversa é a língua portuguesa, escanteada no cenário internacional. “O português está na periferia do sistema literário internacional. Para viajar, um escritor em português precisa do trabalho apaixonado de tradutores e agentes ou de acordos entre editoras multinacionais, com fins de acerto corporativo, para ser traduzido. Como estou no primeiro grupo, tudo demora um pouco mais”, pondera. A sua próxima obra, ainda em processo de escrita, é sintetizada por ele assim: “Acho que estou escrevendo um livro sobre o apocalipse”. Para muitos, nada parece mais atual do que falar do fim de tudo.





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