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Frankfurt

Produção literária alemã recente é discutida na Feira do Livro de Frankfurt

O escritor e crítico alemão Thorsten Donges debate caminhos atuais da literatura no país, analisando política e resgate do passado

Publicado em 12/10/2018, às 11h55

Lutz Seiler é um dos nomes da literatura alemã discutido / Foto: Divulgação
Lutz Seiler é um dos nomes da literatura alemã discutido
Foto: Divulgação
Diogo Guedes

Tentar dar conta do que se passa na literatura de um país em determinado período é uma tarefa ingrata e, muitas vezes, cheia de lacunas, não importa o esforço. Ainda assim, sabendo disso, pode ser importante tentar observar tendências e recorrência na escrita de autores contemporâneos: é uma forma de refletir sobre semelhanças e particularidade da escrita.

Para o escritor e crítico alemão Thorsten Donges, um dos diretores do Colóquio Literário de Berlim e palestrantes da Feira do Livro de Frankfurt, é possível ter uma noção da produção de romances alemães recentes a partir de uma série de livros. Um dos dados que ele destaca é a tentativa de interpretar o passado – antigo, da Segunda Guerra, ou mais recente, antes da queda do Muro de Berlim.

"A Alemanha tem um estado construído a partir da fragilidade, e pessoas inseguras tendem a ser violentas. Isso se faz presente até hoje. Eu nunca pensei que falaria disso, mas ver um partido de extrema direita voltar a ter importância no país é doloroso", comenta, em relação à ascensão do partido AfD.

Uma das singularidades da literatura alemã é que ela, ao contrário da produção francesa, concentrada em Paris, nunca esteve completamente focada em uma só cidade. Berlim até teve seu auge literário nos anos 1920, mas a chegada do nazismo destruiu qualquer cenário cultural que havia lá.

"Em muitos casos, a literatura alemã é pensada não como uma escrita de um cenário específico, mas como a construção de um mundo interno – daí vem a tradição dos 'romances de formação'. Eles tentam também pensar o passado e buscar entender porque as coisas aconteceram'", explica Thorsten. É um mote recorrente de alguns livros: ver o passado como algo que não passou, que continua presente na atualidade. Não por acaso, a literatura latino-americana, incluindo a brasileira, tem dado boas amostras dessa revisitação crítica e íntima dos traumas coletivos, como as ditaduras.



RETORNO

Se, em alguns casos, a volta da literatura é a passado relativamente recentes, o escritor alemão Daniel Kehlmann retrocede ao século 14 no romance Tyll, que revisita uma narrativa medieval alemã sobre uma espécie de humorista que percorria cidades do que viria a ser a Alemanha fazendo pagadinhas (muitas vezes escatológicas). "Kehlmann mostra o personagem como alguém não apenas engraçado, mas também perverso. É um romance sobre a guerra, a amizade e o poder da arte – mesmo a do humor – diante de um mundo em destruição", aponta Thorsten.

Outra escritora, Anne Weber, mistura a história real do seu bisavô, que era amigo de Walter Benjamin, com a da posterior participação do seu avô no nazismo no livro Ahnen (Ancestrais, em tradução livre). Radicada em Paris – e responsável pela própria tradução de suas obras do francês para o alemão e vice-versa – ela traz a tragédia familiar junto a um humor autoirônico. "O livro tem o formato de um diário, e a própria Anne brinca que é o 'diário de uma viagem no tempo'", destaca Thorsten.

Um caso singular de "contemporâneo" é um romance escrito ainda durante o nazismo, mas só publicado agora em 2018 na Alemanha. Der Reisende, de Ulrich Alexander Boschwitz, mostra o personagem principal Otto no país em 1938. Seus amigos estão presos ou desaparecidos, e ele mesmo tenta ficar invisível, escapando de trem em trem e observando a indiferença e a rara compaixão de alguns. “É um romance duro, porque é possível sentir que estamos perto disso de novo. Por isso, é uma obra contemporânea, de alguma forma”, pondera o crítico.

Da parte mais recente da memória alemã vem o livro Kruso, de Lutz Seiler, que fala da ilha de Hiddensee, na Alemanha Oriental. O local, um conhecido balneário de férias, era famoso por ser próximo da costa da Suécia: era por ali que pessoas insatisfeitas com o regime soviético tentavam fugir do país, muitas vezes em vão. "O título é uma referência a Robinson Crusoé. É também o trabalho em prosa de um autor já consagrado na poesia”, ressalta Thorsten. Para ele, outros autores merecem destaque são Thomas Hettche, Ursula Krechel, Julia Schoch, Shida Bazyar, Senthuran Varatharajah, Robert Menasse, Jonas Luscher, Kristine Bilkau e Christian Kracht - todos eles mostram a diversidade e variedade da produção alemã dos últimos anos.

O repórter viajou a convite do Consulado Geral da Alemanha no Recife





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