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Imagens revelam Machado de Assis para além do embranquecimento

Campanha e fotografias mostram como os traços negros do autor foram escondidos e apagados ao longo do tempo

Publicado em 19/05/2019, às 07h22

Imagem da campanha da Faculdade Zumbi dos Palmares e a fotografia feita pelos irmãos Bernardelli / Fotos: Reprodução
Imagem da campanha da Faculdade Zumbi dos Palmares e a fotografia feita pelos irmãos Bernardelli
Fotos: Reprodução
Diogo Guedes

atualizada às 11h de 21 de junho de 2019

No fim do mês de abril, a Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, divulgou uma campanha, Machado de Assis Real, com uma fotografia clássica do autor de Dom Casmurro. O retrato é o mesmo que aparece em orelhas de livro e no site da Academia Brasileira de Letras, ou seja, é aquele que condensa para a maioria a imagem pública do principal escritor brasileiro. A única diferença nessa nova versão da fotografia é que ela aparecia colorida, ressaltando Machado de Assis - neste 2019 em que se celebram os 180 anos de seu nascimento - como um autor de traços negros.

A imagem repercutiu bastante, colocando novamente em debate a existência de um processo de embranquecimento do escritor, questão que vem sendo levantada há décadas por pesquisadores da literatura e da história e militantes. Machado, filho de um homem negro e neto de um escravo, nunca ocultou sua origem mestiça. Com uma infância simples, trabalhou vendendo doces na rua, nunca pôde frequentar uma universidade e, ainda assim, se tornou inquestionavelmente o maior autor de sua geração e um dos imensos da língua portuguesa. Ainda assim, seu retrato mais popular e repetido passa a imagem de alguém com poucos traços negros, possivelmente resultado das tecnologias da época, que embranqueciam as peles do fotografados, e de retoques.

Aliás, a campanha da faculdade não é o único fato recente: uma foto, encontrada recentemente pelo pesquisador Felipe Rissat em um jornal argentino de 1908, parece ressaltar os traços negros de Machado. Outro retrato, feito pelos irmãos Bernardelli, mostra a pele enegrecida do autor.

Para o professor de Letras da UFMG, Eduardo de Assis Duarte, autor do livro (esgotado) Machado de Assis: Afro-Descendente, a confusão em torno de uma origem racial de Machado é fruto da deturpação da história. “Machado foi paulatinamente tendo a sua imagem clareada. Foi sendo embranquecido. E digo isso sem tirar nada da minha cabeça. O biógrafo Raimundo Magalhães diz que a foto dos irmãos Bernardelli é a única de Machado que não foi retocada”, conta. “E nós temos que respeitar a biografia de Machado. O pai dele era negro. O avô dele foi escravo.”

Assim, para ele, a campanha Machado de Assis Real é, antes de tudo, “extremamente válida enquanto provocação para o debate”. “O Brasil tem vergonha do seu passado. Tem vergonha de ter sido o último país do Ocidente a acabar com a escravidão”, opina.

A professora de História da Universidade de Brasília, Ana Flávia Magalhães Pinto, lembra que, quando Machado foi descrito como “mulato” por José Veríssimo após a sua morte, Joaquim Nabuco mandou uma carta para o amigo, questionando termo: “O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica”. A autora do livro Escritos de Liberdade: Literatos Negros, Racismo e Cidadania no Brasil explica: “Para Nabuco, Machado tinha o lugar de um branco, e ele atribuía a Machado essa mesma opinião que ele tinha. Machado, no entanto, nunca disse algo assim”.

Para ela, o que aconteceu com Machado é o mesmo que se passou com toda a experiência brasileira. “O Brasil sempre teve uma expressiva população de origem africana, mas queria fingir ser um país de origem europeia e branca. Foi nessa dinâmica que figuras foram simplesmente apagadas do nosso repertório de nomes”, contextualiza.

A criação de um Machado de Assis “mais branco” no imaginário nacional é para ela uma consequência dessas políticas da memória do Brasil sobre si mesmo. “Essas discussões sobre o achado de uma nova foto não mudam muita coisa para mim, porque eu nunca consegui ver Machado como um homem branco, e acho que nenhum de nós conseguiria sem essa política da memória que o embranqueceu. A estratégia de colorir as imagens ajuda a ver algo que já estava lá”, afirma.

Ana Flávia também ressalta que Machado, durante a sua vida, foi reconhecido como “um negro, um homem de cor, como se dizia na época”. E não só: “Foi constrangido em diferentes momentos por isso. Viveu o que hoje chamamos de discriminação racial”. Parte dessa mitologia de um Machado “branco” tinha origem no próprio jeito discreto do autor.

“Ele nunca foi alguém que falasse muito da experiência da discriminação. O tema aparece mais em cartas suas e de outras pessoas. Pela rede de amizade que ele tinha e pelos personagens que ele construiu nos seus romances e contos a gente tem uma noção de como ele não era indiferente à questão”, reitera a professora.

Eduardo reforça esse ponto: é injusto dizer que o próprio Machado foi “omisso” diante da questão da escravidão. No seu livro, com mais de 300 páginas que observam contos, crônicas e poemas do autor, o professor aponta que Machado sempre condenou o escravagismo. “Um poema dele foi panfletado nas ruas no dia da abolição”, destaca.



“Agora, ele nunca foi um militante no sentido de militante abolicionista de carteirinha que fazia discursos públicos, até porque ele era gago, epilético e tinha dificuldade de falar em público. Ele escrevia, e passou 50 anos escrevendo na imprensa”, comenta Eduardo. “Outro detalhe importantíssimo é revelado pelo biógrafo Raimundo Magalhães Júnior. Machado era sócio oculto do jornal Gazeta de Notícias, abertamente abolicionista”. A publicação trazia constantemente editoriais contra a escravidão – e Machado só era sócio oculto porque seu posto de funcionário público o impedia de apoiar o jornal publicamente.

Boa parte da mitologia que embranqueceu Machado ao longo de tempo, para Ana Flávia e Eduardo, vem dessa falsa ideia de um escritor omisso em relação à escravidão. Eduardo de Assis, por exemplo, ressalta que, apesar de ser alguém da classe média, o criador de Memórias Póstumas de Brás Cubas nunca foi dono de um escravo – uma forma comum de poupança na época – e sequer comprou uma casa para si. “A sua poupança estava no jornal, um jornal abolicionista que modernizou a imprensa brasileira e foi o primeiro a ser vendido nas ruas, e não só entregue para assinantes”, destaca.

A cobrança por um Machado que pleiteasse a identidade negra também é injusta, para ele. “As pessoas reclamam: ‘Ah, mas ele nunca bateu no peito e disse que era negro’. Machado também nunca bateu no peito e disse que era branco. No tempo dele, ser negro era um sinônimo de ser escravo. Se dizia ‘eu tenho um negro’, e todos entendiam que a pessoa era dona de um escravo”, pondera.

Para Ana Flávia, vale destacar que Machado nunca escondeu a sua origem negra ou tentou projetar apenas o vínculo familiar da sua mãe. “Ele foi alguém que produziu uma literatura que não pôde ser ignorada no seu tempo e no momento da sua morte, e também foi alguém que se articulou nos espaços de afirmação do cânone literário”, comenta.

A historiadora ainda recorda que era comum amigos e inimigos identificarem o Bruxo de Cosme Velho como mulato quando ele era vivo. “Um dos seus inimigos, o professor negro Hemetério dos Santos, dizia que o escritor politizava muito pouco a questão racial na sua obra. Machado era muito discreto em tudo na vida. Nunca foi uma figura como Luís Gama ou Lima Barreto – mas isso não é um sinônimo de alheamento em relação à escravidão. O alheamento aconteceu por conta dessas políticas da memória”, defende a professora.

Eduardo ainda recorda uma palestra que foi fazer. Na ocasião, foi questionado sobre o porquê de não existir um herói negro na obra de Machado, uma espécie de Zumbi dos Palmares. “Eu perguntei em reposta: ‘E quem é o herói branco na obra de Machado?’. Não existem heroísmo na obra dele. Machado é um cético em relação a todas instituições, cético em relação à República – ele achava que ela ia piorar a situação dos pobres, o que de fato aconteceu”, aponta. Para ele, é daí que vem o brilhantismo do autor, “o maior ficcionalista da língua portuguesa”: “Harold Bloom, um dos maiores nomes da crítica mundial, escreveu um livro chamado Gênio e lá está dito que Machado é o maior escritor negro da história da humanidade”.

APAGADOS

Tanto Eduardo como Ana Flávia também apontam casos parecidos com o de Machado. O professor da UFMG cita o poeta simbolista Cruz e Sousa, um autor negro que só é lembrado nas escolas pelos seus dois primeiros livros. “E deles surge o comentário malicioso de que Cruz e Sousa só falava de brancura, quando era o discurso simbolista que exigia a brancura, a névoa, o etéreo e o céu no mundo inteiro. Nos livros posteriores, Cruz e Sousa vai colocando os pingos nos ‘i’s. No texto O Emparedado você vê que é um poeta negro que está falando. Para a história oficial, no entanto, ele é só um ‘negro de alma branca’”, lamenta o pesquisador.

Ana Flávia recorda que existe um desenho de Luís Gama em que o abolicionista foi tão embranquecido que ele ficou parecido com Joaquim Nabuco. “Chiquinha Gonzaga também era apresentada como uma mulher branca. O caso de Mário de Andrade também é interessante. As pessoas se verem como brancas, se pretenderem brancas, é fruto dessa política da memória que queria um Brasil branco”, aponta.

Muito mais do que os embranquecidos, a história brasileira é repleta de homens e mulheres negros que foram esquecidos ou injustiçados. É o caso de José Ferreira de Menezes, como aponta a professora. “Ele produziu uma literatura fantástica e sobrenatural que discutia a pobreza e a escravidão, e foi fundador do primeiro jornal abolicionista, mas desapareceu dos compêndios literários depois. Ele e muitos outros caíram no esquecimento, e o que acontece com Machado é apenas uma das possibilidades desses processo de branqueamento da literatura e da história brasileira”, comenta.

Eduardo cita outros, como o pernambucano Solano Trindade, injustamente ausente dos programas de Letras das universidades nacionais. Ele ainda lembra a segregação sofrida por Lima Barreto e o caso de Maria Firmina do Reis, a primeira mulher negra a publicar um romance, Úrsula, e que ainda hoje tem sua imagem confundida na internet com a de uma gaúcha descendente de alemães, Maria Benedita Borman. “Também é pouco lembrado Francisco de Paulo Brito, o primeiro editor negro, que empregou Machado e era figura central no cenário literário da época”, finaliza.




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