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Nobel de Literatura: Peter Handke, o polêmico explorador da linguagem

O escritor austríaco foi escolhido pela Academia Sueca como vencedor do Nobel de Literatura em 2019

Publicado em 10/10/2019, às 10h38

O escritor austríaco Peter Handke, Nobel da Literatura em 2019 / Foto: APA/AFP/Georg Hochmuth
O escritor austríaco Peter Handke, Nobel da Literatura em 2019
Foto: APA/AFP/Georg Hochmuth
Philippe Schwab e Bénédicte Rey, da AFP

Um incansável caminhante em busca da linguagem, o austríaco Peter Handke, coroado Prêmio Nobel de Literatura nesta quinta-feira (10), é um escritor prolífico lutando contra as convenções, ao preço de grandes polêmicas, principalmente em razão de suas posições pró-sérvias.

O Nobel de Literatura? "Deve ser excluído. É uma falsa canonização" que "não traz nada ao leitor", disse uma vez o escritor de 76 anos, silhueta elegante, cabelos grisalhos jogados para trás e olhos penetrantes por trás de óculos finos.

No mundo editorial, muitos foram os que pensaram que o prêmio lhe escaparia para sempre, apesar de um trabalho de renome mundial, devido ao seu engajamento durante a guerra na ex-Iugoslávia.

De origem eslovena por parte materna, o escritor nascido em 6 de dezembro de 1942 em Caríntia (sul da Áustria), aparece como um dos poucos intelectuais ocidentais pró-sérvios.

No outono de 1995, alguns meses após o massacre de Srebrenica, viajou para a Sérvia e relatou suas impressões em um livro polêmico, "Eine winterliche Reise zu den Flüssen Donau, Save, Morawa und Drina oder Gerechtigkeit für Serbien" ("Uma viagem de inverno aos rios Danúbio, Save, Morava e Drina", em tradução livre).

Em 1999, recebeu um importante prêmio literário alemão, o Büchner, e deixou a Igreja Católica para protestar contra os ataques da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Belgrado, evocando um "novo Auschwitz".

Sete anos depois, causou alvoroço ao participar do funeral do ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, acusado de crimes contra a Humanidade e genocídio.

Ele é forçado a desistir de um prêmio que lhe seria concedido pela cidade de Düsseldorf, e a Comédie-Française cancela uma de suas peças.

Intelectuais, incluindo sua compatriota Elfriede Jelinek, Nobel da Literatura em 2004, saíram em sua defesa. Por um tempo, contudo, a polêmica oculta o trabalho de Peter Handke.

"A força de ser universal"

O autor austríaco, que assinou mais de 80 obras, é, no entanto, um dos autores de língua alemã mais lidos e interpretados do mundo.

"Eu tenho o sonho e a força para ser universal", resumiu Handke durante a recepção na Alemanha de um prêmio de Literatura europeia, dizendo ao júri: "Não tenham medo de mim!".



Ele também foi recompensado no Festival de Cinema de Veneza no mesmo ano, onde seu amigo Wim Wenders apresentou "Os belos dias de Aranjuez", de um de seus roteiros. "Sem ele, eu poderia ter-me tornado um pintor", disse então o cineasta alemão.

Feito cidadão honorário da cidade de Belgrado, em fevereiro de 2015, Peter Handke nunca renegou seu compromisso pró-sérvio.

Premiado com o prêmio Ibsen de teatro em 2014, dedicou parte do dinheiro à construção de uma piscina pública em um enclave sérvio do Kosovo.

"Pai, perdoai-os jamais", disse ele no ano passado, durante uma visita a Belgrado, parafraseando a Bíblia para criticar os líderes ocidentais dos anos 1990. Ele os aponta como responsáveis pela guerra.

Profundamente marcado aos 15 anos pela leitura de "Sob o Sol de Satã", de Georges Bernanos, ele publicou seu primeiro romance, "Die Hornissen", em 1966.

Ex-estudante de Direito, foi influenciado pelos franceses Claude Simon e Alain Robbe-Grillet.

"Sempre corri o risco de cair na autoanálise. O 'Nouveau roman' me ajudou a exteriorizar, a olhar", explicou, referindo-se ao movimento literário francês dos anos 1950.

No mesmo ano, fez sucesso com sua primeira peça, "Der Jasager und der Neinsager", onde confronta insultos ao público, mensagens de desordem e críticas radicais à literatura engajada.

O autor, então com 24 anos, ataca os princípios estéticos do "Grupo 47", que domina as letras alemãs do período Pós-Guerra, opondo-se com uma rejeição radical ao uso pré-estabelecido da língua. O tema estará no centro de sua obra.

Mestre da prosa, desenvolve um estilo nítido e intenso, dizendo "não buscar o pensamento, mas a sensação".

"Die Angst des Tormanns beim Elfmeter" ("A ansiedade do goleiro na hora do pênalti", em tradução livre) em 1970, depois "Wunschloses Unglück" ("O infortúnio indiferente", em tradução livre) em 1972, réquiem dedicado à mãe, trazem-lhe notoriedade.

A migração e a solidão pontuam um trabalho abundante: 40 romances, ensaios e coletâneas, 15 peças de teatro, além de roteiros.

Desde 1991, Peter Handke vive em Chaville, um subúrbio de Paris, em uma casa abrigada por cedros à margem de uma floresta, onde se inspira.




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