Jornal do Commercio
entrevista

Marlos Nobre quer reestruturar a OSR pela base

Maestro recifense falou ao JC sobre seu novo desafio diante da direção artística e regência da Orquestra Sinfônica do Recife (OSR)

Publicado em 22/06/2013, às 06h01

Renato Contente

O maestro recifense Marlos Nobre, 74 anos, foi anunciado esta semana pela secretária de Cultura Leda Alves e pelo prefeito Geraldo Júlio para reger, em caráter temporário, a Orquestra Sinfônica do Recife (OSR). O músico entra em cena num momento delicado para a OSR, um mês depois de Osman Gioia, titular por 12 anos, ter deixado a direção artística e a regência por pressão dos músicos.

Pianista, compositor e regente respeitado em todo o mundo, Nobre prometeu trazer seu afinco e experiência para sanar problemas urgentes: a lista vai do plano de cargos e salários à aquisição de material de trabalho básico. “Se puder trazer mais dignidade e qualidade a esses músicos, terei minha missão cumprida”, anunciou, em entrevista concedida ao JC.

Confira abaixo, na íntegra, o que o maestro Marlos Nobre falou sobre seu novo desafio:

SITUAÇÃO

 Eu vim já consciente de que esse trabalho com a OSR é uma missão que pretendo levar muito a sério, por diversos motivos. É uma orquestra da minha infância e juventude, mas acredito que ela sempre teve uma vida muito tumultuada, em sua estrutura e organização.

Orquestras ligadas a fundações ou organizações sociais têm um modelo mais ágil de administração, e a OSR, historicamente, sempre pertenceu à Secretária de Cultura do Recife ou à Fundação de Cultura. Através dos tempos ela tem sofrido o impacto dessa situação sui generis. Ao mesmo tempo, ela tem benefícios com essa condição, como a garantia de permanência. Muitas orquestras foram extintas no mundo todo, como a Orquestra Sinfônica Nacional, da qual fui diretor entre 1972 e 1980.

Naturalmente, criou-se uma série de vícios na OSR que existem desde a época em que vim dirigi-la, no início nos anos 1980, quando ela era subordinada à Fundação Cultural. Na época fui até cogitado para assumir o cargo de regente principal. Isso se reflete, inevitavelmente, na qualidade do conjunto, com as queixas, por parte dos músicos, de baixos salários e más condições de trabalho. Hoje a situação está melhor, com a OSR residente do Teatro de Santa Isabel, local da parte administrativa e do arquivo do conjunto, ainda que haja muitas coisas para melhorar. Entre elas, as condições de preservação das partituras e registros daquele arquivo histórico, por exemplo.

Eu vim com um propósito muito claro para a secretária de cultura Leda Alves e o prefeito Geraldo Júlio. Não adiantaria de nada vir aqui e começar a ensaiar a orquestra. Quando você tem um organismo doente, você não continua com uma atividade. Você procura um médico e procurar sanar o problema com antibióticos. A OSR está doente. A doença significa uma série de fatores sérios que estou diagnosticando. Um deles é o plano de cargos e salários, o qual discutirei com a secretária de cultura e o prefeito. Os problemas estão cada vez mais claros para mim, e são de ordem administrativa, organizacional e artística.

NECESSIDADES
A OSR tem uma deficiência na formação das cordas. O naipe de madeiras, metais e percussão está muito bem nutrido para uma orquestra de cordas duas vezes maior do que está aí. As cordas são pouco numerosas, há atualmente a metade do que seria necessário. Aí vem uma série de problemas. Para a OSR soar de acordo com o equilíbrio de cordas, madeira e metais, ela necessita de uma contratação de novos músicos. Se não, ela soa um pouco como uma banda, pela potência dos metais. Nenhum maestro consegue equilibrar o som com uma defasagem de cordas como a que existe aqui.

Fazer concurso, no momento, é complicado, pela estrutura burocrática. Pelo diagnóstico, ao lado de Leda Alves e Geraldo Júlio, vou ver o que é possível no momento.

Há três planos: um emergencial, um a médio prazo e um outro a longo prazo. Como gestor, mais como regente ou titular, venho procurar qual é o remédio. Emergencia, internação e a saída do hospita. A OSR está realmente doente, os próprios músicos sentem isso. Continuar uma programação, e dar uma impressão falsa, isso eu não quero. Por exemplo, eu não quero enxertar músicos de fora para um concerto, porque depois eles vão embora. Para mim, seria uma atitude inescrupulosa, como uma orquestra fantasma. Na hora pode até soar bem, mas no dia seguinte volta à estaca zero.

O trabalho que temos que fazer no Recife, agora ou nunca, é de base. Precisamos sedimentar a OSR. Tenho vontade de trazer músicos jovens, de orquestras recifenses, como a do Coque e a do Conservatório Pernambucano de Música. É necessário fortalecer esses projetos locais, que estão indo bem. É uma possibilidade que estamos levando a sério. Primeiramente, poderá haver contratos por temporadas e, em seguida, a depender do comportamento dos músicos, um efetivo.

DISCIPLINA
Existe por aqui uma prática secular e doentia que é consequência da má situação da OSR. Como o salário não é satisfatório, e isto é compreensível, muitos músicos buscam trabalhos na Paraíba e no Rio Grande do Norte, desde a época em que eu era menino. Grandes músicos morreram em acidentes nesses trajetos. 15 músicos efetivos da OSR mantêm com essa dinâmica atualmente. Eu entendo as dificuldades de manter a família, por exemplo, com um salário que não o valoriza. É importante salientar que essa é uma das poucas profissões em que o instrumento de trabalho (e sua manutenção) é fornecido pelo trabalhador, e não pela empresa. E os valores são altíssimos. Vim ciente de tudo isso, como um pai que quer cuidar dos filhos.

A OSR pode ser um elemento vivo na cidade e buscar patrocinadores. As orquestras do Brasil têm temporadas especiais, patrocinadas por empresas. O orçamento de uma orquestra é básico, insuficiente.


REPERTÓRIO
Gosto de um repertório mais moderno, mas o público também precisa de algo mais tradicional, como as sinfonias de Beethoven e Tchaikovsky. Pouco a pouco, vamos trazer também música brasileira e latinoamericana. Não podemos ficar apenas no clássico, precisamos do moderno. Uma vez que a OSR adquirir força, poderemos promover séries (Recife, Capibaribe, Popular, por exemplo), com uma Orquestra Sinfônica do Recife Pops, como tem a Boston Pops. Aí poderiam entrar repertório de Tom Jobim, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Capiba, Chico Sciente. A OSR tem que se unir à criatividade dos compositores do Recife, onde há uma riqueza imensa.



Mas não adianta fazer isso com uma orquestra paralisada, com músicos que tenham compromissos em outros estados, ou que esteja com instrumentos desafados.

A ideia é fazer a reestruturação, montar a orquestra e trazer uma programação que desperte interesse do público. Quero trazer solistas, brasileiros como Nelson Freire e Arnaldo Cohen, e internacionais. Outra ideia é fazer séries, com vencedores de concursos, jovens e grandes talentos que precisam tocar. Quando a obra é bem tocada, o público começa a acreditar no trabalho e vê que é sério, mas quando é feito de maneira amadora e desleixada, o público sente e se afasta. Acho que tem que haver uma espécie de choque, e assim espero que aconteça na primeira apresentação com a nova formação. Dessa forma, o público vai voltar para vê-la uma segunda vez, e outra, e assim por diante.

Ainda não sei como será esse espetáculo. Como disse, da maneira como a orquestra está desequilibrada, é impossível fazer um concerto sinfônico desta forma. A orquestra está, vamos dizer assim, capenga. É preciso arrumar. Mas deve ser um concerto com amigos solistas convidados, com um repertório chamativo (com peças de Tchaikovsky, por exemplo). É preciso que o público sinta o prazer com coisas que ele gosta. A ideia é manter sempre uma peça-chamariz, mas com misturas que rompam o tradicionalismo. Para isso, a orquestra precisa ter qualidade. Para tocar Stranvisnky, por exemplo, é preciso estar equilibrado, se não será um desastre. Já vi várias orquestras fazerem isso com A sagração da primavera, e foi um desastre. Você não pode trazer uma 5ª de Thaicosvi por aqui ainda, por exemplo.

Nós temos grandes orquestras organizadas no Brasil. A Sinfonica de Sao Paulo e Minas Gerais. Elas saíram de organizações ligadas ao estado e passaram a ser organizações sociais. Isso implica numa mudança de mentalidade, com uma administração muito ágil - o que ocasiona na possibilidade de pagar melhor os músicos e administrar com menos entraves burocráticos.


CARREIRA
Eu fiz uma opção muito clara. Sou um músico, digamos assim, total - por reger e compor. Optei pela composição como atividade maior, porque sou fascinado pela criação. Quando se é regente, você está repetindo, você aprende a reger. Criar é diferente. Minha obra começou a ser feita no Recife e hoje eu tenho 250 peças. Como avisei a secretária de cultura Leda Alves, eu tenho encomendas de obras para os próximos anos. A primeira que terei que fazer será um concerto para violão, para Manuel Barrueco (influente violinista clássico cubano), além de um para viola (encomendado pela Orquestra Sinfônica de Chicago), violoncelo (Universidade do Texas) e clarinete (para uma universidade suecda Suíça). Se cada concerto leva cerca de oito meses para ser produzido, seriam necessários 32 meses. E ainda há palestras, entrevistas para estudantes que elaboram estudos sobre minha obra (aos quais sempre tento ser atencioso). Bachianas sala são paulo, dia 3 de julho. Além de minha família, com minha esposa e minha filha. Isso é que é bonito da vida. Tenho 74 anos e graças a Deus estou cheio de projetos.


DESAFIO
Trago a minha calma, minha sensatez, meu equilíbrio emocional, meu conhecimento, minha experiência e  minha vontade de mudar. Eu empresto isso, e por esse motivo aceitei o convite, com muita satisfação. Isso não é um ato excepcional meu. É algo que vem de dentro. Eu sou do Recife, fui criado ouvindo a OSR. Se eu posso trazer algo para a orquestra, é isso. Como eu disse aos músicos, e vou repetir em nossas futuras conversas, “tenham calma”. Eles ficam muito ansiosos em resolver a coisa de imediato. E eu entendo isso. Eu não vou mexer em nada, não vou mexer em ninguém. É preciso que eles entendam que eu vim aqui para que essa orquestra desabroche, e que com ela a parte cultural e os músicos do Recife sejam valorizados.

A OSR é a orquestra mais antiga em atividade no País, mas também é a mais desprestigiada. Eu tenho que falar isso porque é a grande realidade. Hoje existe um renascimento nas orquestras de Sergipe, Manaus e cidades do interior. A do Recife é muito mal vista no sentido profissional e artístico. Isso é, digamos assim, o que eu sempre sofri muito em ouvir, que ela é muito mal conceituada. Ora, ela tem um passado, uma história. Minha estadia aqui é provisória, para sanar isso. A ideia é trazer, depois desse processo, um músico jovem, dinâmico, talentoso e com vontade de mudar, para comandar a OSR.

Eu preciso fazer o trabalho de base antes. Se um regente jovem chegasse agora, ele seria engolido, porque não tem nome ou não é respeitado ainda. Um regente de fama, entretant, dificilmente aceitaria. Eu aceito porque sou do Recife, por minha relação afetiva. Vim por esse motivo. Sendo reconhecido e tendo, graças a Deus, minha obra valorizada, eu não preciso provar nada. Eu cheguei a um ponto onde eu posso trazer um pouco disso para o Recife e para a OSR, para que ela tenha visibilidade. Senti o fluido positivo que minha presença tem causado entre os músicos, e isso é muito bom.

Eu tinha medo que viesse alguém desconhecido, sem nenhuma ligação com a cidade, com a região. Nessas horas, há aproveitadores da situação. Eu sei o que fazer diante da situação atual, e vou colocar isso em prática com a compreensão dos músicos. Sou uma pessoa de diálogo constante.

Eu me manifestei sobre o problema da OSR na revista Continente. Depois tive um contato com Leda Alves e ela me perguntou se eu toparia fazer um plano de ação, um diagnóstico rápido. Quis ajudar, mas ainda não pensava em vir pra cá. Mas Leda Alves ficou muito entusiasmada e mostrou ao prefeito, que também demonstrou entusiasmo. Ela pediu para eu ficar um tempo aqui, onde amadureci as ideias e decidi aceitar o convite. O fato de eu ter respaldo político, com o governador Eduardo Campos e o prefeito Geraldo Júlio, também dá uma segurança à orquestra. É muito feliz para mim ter o reconhecimento da minha cidade, é o que sempre me comoveu. Naturalmente o trabalho é árduo, e devemos ter calma.

Visitei as instalações da OSR no Teatro de Santa Isabel e estão muito boas. O arquivo, entretanto, está lotado na cumeeira do teatro, depois de uma escada com 94 degraus. Por lá tem umidade, mofo, até morcegos. As partituras, guardadas em pacotes, já estão sendo digitalizando. Vamos trazer dos Estados Unidos CDs com os PDFs com a obra completa dos grandes compositores, mas eles não têm impressora ainda, por exemplo. São problemas pequenos, mas que precisamos resolver logo. O prefeito atual tem vontade, e isso é bom. Há uma burocraria natural, mas vamos lidar bem com ela.

A OST está sem tímpanos, parece, sempre tem que pedir ao Conservatório (Pernambucano de Música). Também não tem harpa, campanos, idiofones (instrumentos que produzem som por vibração), percussão. Em obras do século 20, esses instrumentos são essenciais.

Quero que os músicos e os pernambucanos sintam orgulho da OSR. É uma coisa de duas  vias. O músico tem que ser valorizado, não pode ficar de pires na mão, sem dignidade diante da sociedade. Isso é o que mais me preocupa. A música é uma mensagem espiritual num mundo conturbado, e esses músicos são transmissores disso. Se eu poder trazer mais dignidade a esses músicos e qualidade à OSR, terei minha missão cumprida.

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