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SEMINAL

Morre Daminhão Experiença, ícone cult e "maldito" da música brasileira

Aos 81 anos, cultuado músico vivia vagando pelas ruas de Ipanema

Publicado em 13/12/2016, às 10h27

Daminhão Experiença gravou entre 28 e 36 álbuns de forma completamente independente / Foto: Reprodução/ Internet
Daminhão Experiença gravou entre 28 e 36 álbuns de forma completamente independente
Foto: Reprodução/ Internet
GGabriel Albuquerque

Morreu no último sábado, supostamente aos 81 anos (sua biografia e discografia ainda são cheias de enigmas), o cantor e compositor Daminhão Experiença. Ele foi sepultado nessa segunda-feira, no Cemitério São João Batista. Consta que acompanhado só por uma vizinha e um único fã. 

Figura arredia que sempre evitou os holofotes, Daminhão vivia como uma espécie de artista-mendigo vagando pelas ruas de Ipanema, onde morava em um apartamento atolado de tralha acumulada. Uma espécie de Arthur Bispo do Rosário da música brasileira. Contudo, Daminhão ostentava uma discografia que pode estar entre 28 e 36 álbuns, todos vendidos por ele mesmo, na rua, pois nunca assinou contrato com gravadora. Os LPs se tornaram raridades e atualmente só são encontradas em sebos por, no mínimo, R$ 200.

CONTRACULTURA

Ao longo da "carreira", teve diversas fases. Da sonoridade acústica, com violão e gaita e cantos numa língua inventada de álbuns como Planeta Lamma (1974) até o blues rock psicodélico e funkeado de meados dos anos 1980, presente em faixas como Eu Gosto da Ditadura e Eu Nasci Pra Ser Sustentado Por Mulher Bonita (do álbum Cemitério Nazista II), O Mar (de Cemitério Nazismo) e Eu Gosto de Apanhar de Mulher (Guerrilheiro do Planeta Lamma, 1992)

A poética delirante de Daminhão abraçava de tudo no contexto da contracultura pós-hippie, proto-punk. Declarava-se nazista e judeu. Numa rara entrevista, ao jornal O Globo no ano passado, ele afirmava: "Eu gosto de tudo no mundo, do bom e do ruim. Adolf Hitler, Getúlio [Vargas], Bocage, temos que respeitar todos eles porque fizeram parte da História. Eu gosto de ir para onde o destino me leva". 


Ainda que obscuro, Daminhão, assim como Tantão (vocalista da banda Black Future) foi influência seminal do cenário underground, particularmente no Rio de Janeiro.

Num artigo de 2010, o músico Rogério Skylab traça uma análise comparativa do conceito de mangue de Daminhão e de Chico Science. Ele escreve: “O mundo de Damião é tão subjetivo, que está longe de qualquer inserção ao mundo moderno. Em seu livro, que se repete em suas músicas, suas afirmações contra o aborto e contra a nova igreja (teologia da libertação) estão na contramão da história. Poderia-se mesmo, diante desse anacronismo, construir-se um mundo reacionário, anti-moderno, não fosse a sua linguagem de bas-fond, cheia de palavrões e sexo. Impossível um discurso lógico em sua fala, ao contrário do Mangue Beat. É aí que talvez pudéssemos aproximá-lo a Bispo do Rosário com sua técnica de assemblage e seu amor à taxonomia”.


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