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DISCO

O legado vanguardista de Gilberto Mendes no CD 'Festival Música Nova'

Criado em 1962 para trazer novas ideias musicais, o Festival Música Nova tem antologia lançada pelo Selo Sesc

Publicado em 11/03/2017, às 12h30

Gilberto Mendes trouxe influências da música e poesia concreta e do serialismo ao repertório brasileiro / Foto: Divulgação
Gilberto Mendes trouxe influências da música e poesia concreta e do serialismo ao repertório brasileiro
Foto: Divulgação
JC Online

ilberto Mendes (1922 – 2016) deixou um grande legado para a música de concerto do Brasil. Nascido em Santos, São Paulo, o compositor e maestro foi um dos principais nomes da renovação musical do país nos anos 1960. Ao lado dos futuros arranajadores tropicalistas Damiano Cozzela, Rogério Duprat e Júlio Medaglia, entre outros, ele foi um dos responsáveis pelo Manifesto Música Nova (1963), que anunciava “compromisso total com o mundo contemporâneo”. Rompendo com o conceito nacionalista/antropofágico do modernismo de Villa-Lobos, o grupo trazia as influências das vanguardas europeias, como a música e poesia concreta e o serialismo na composição.

Em 1962, Gilberto criou o Festival Música Nova, que tornouse o mais longevo evento de música experimental da América (este ano vai para a 51ª edição). No início de 2015, o compositor propôs o Sesc o lançamento de um disco sobre o festival. Gilberto não teve tempo de ver o resultado, mas certamente estaria gratificado com o CD duplo que sai agora pelo Selo Sesc.

O material é formado por 13 peças de 12 compositores diferentes e de diferentes épocas, sendo gravadas ao vivo em 2014 com regência do maestro norteamericano Jack Fortner. As faixas dão uma visão panorâmica da linha estética defendida pelos compositores do Ensemble Música Nova ou outros músicos vinculados ao festival, mas revelando também a sua diversidade.



REPERTÓRIO

Uma destaque é a peça de câmara Prenascença (1978), do paulista Gil Nuno Vaz, que é inspirada no conceito de paralaxe, ou seja, o deslocamento aparente de um objeto quando se muda o ponto de observação. Vaz transpõe essa ideia do campo visual ao campo sonoro, rastreando um objeto sonoro (dois violinos) a partir da “observação” da viola e violoncelo. Em primeiro plano, a soprano Caroline de Comi vocaliza um poema concreto feito pelo compositor que brinca com as palavras “colombo”, “ovo” e “vôo”. O cearense Liduino Pitombeira é brilhantemente representado por Arlequim Solar (2010), uma obra livremente inspirada no poema O Arlequim, de Cecília Meireles, em contraposição ao Pierrot Lunaire, de Arnold Schoenberg.

Mas a cereja do bolo é mesmo Gilberto Mendes, que aparece em dose dupla com Longhorn Trio (1983) e Ulisses em Copacabana, surfando com James Joyce e Dorothy Lamour (1988). Nesta última, ele investiga os desdobramentos da cultura grega na música ocidental, formando um painel que vai de James Joyce a Lamour passando por Copacabana. Por isso combina o som das big bands do jazz com ritmos e harmonias da bossa nova e modulações impressionista e neoclássicas – uma viagem através do tempo e espaço.

O disco pode soar cansativo pela falta de um fio narrativo, mas, como observa Gil Nuno Vaz em texto no encarte, acerta ao evocar o espírito artístico com o qual Gilberto Mendes fundou o festival há mais de quatro décadas. O CD Festival Música Nova preenche uma lacuna na história da música de concerto do Brasil.





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