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Lançamento

Filipe Catto é over em seu minimalismo

Uma crítica do show em que o cantor vai ganhar o País apenas ao lado de dois violões

Publicado em 01/07/2017, às 10h56

Filipe Catto: show minimalista e potente / Alexandre Eça - Divulgação
Filipe Catto: show minimalista e potente
Alexandre Eça - Divulgação
JC Online

SÃO PAULO - Filipe Catto está numa feliz contradição em sua carreira. Depois de anos sob o conforto coletivo de uma banda, o cantor gaúcho está em cena agora sob o minimalismo de dois violões. Vestido com um macacão cravejado de brilhantes que faria um David Bowie menos avisado parecer uma normalista, o figurino materializa o aparente impasse. Lançado na última quinta na Casa Natural Musical, em São Paulo, e prestes a pegar a estrada pelo País, Over é o nome do show.

"Eu acho que existe uma coisa sobrenatural dessa formação, há uma exposição, é uma espécie de nudez", ele diz, numa conversa no camarim, minutos antes de assumir o microfone. "Se colocar desse forma é uma exposição, e também, de certa forma, heroico, tem essa dualidade nessa bizarrice do Over, chega ser brutal e tem um pouco de deboche", ele diz.

Brutal, certamente. Deboche, ainda que ironia seja um dos caminhos da reverência, não há algum. Com a maturidade de quem se apropria cada vez mais de si, Filipe Catto tem, mais que devoção, uma cumplicidade de caule e espinho com cada canção de um repertório classudo - e para poucos. "Sempre fui meio corajoso", brinca. A partir da coragem em se despir de uma banda, Filipe sim, extrapola. Seu canto, em primeiro plano, vira faca só-lâmina.

No palco, ele é acompanhado pelo elegantíssimo violão de Sete Cordas de Luiz Felipe de Lima e pelo violão de nylon de Pedro Sá (sim, é o mesmo da banda Cê, de Caetano). O primeiro traz um certo sotaque erudito dos sambas e dos chorinhos; o segundo, moderno e complexo, chega a soar sinestésico em algumas canções. Mas, em cena, Filipe não tem apenas a companhia dos dois violonistas. Em alguns momentos, a cabeça busca o afago dos ombros - como fazia Elis Regina; noutros, as mãos geometricamente vertiginosas passeam por escalas imaginárias - como se mexia, em cena, Dalva de Oliveira. No palco, de Portshead a Chico Buarque, Catto se deixa a acompanhar pelas entidades que lhe permeiam.

É pop, camerístico e popular. "É como voltar ao começo da minha carreira, em Porto Alegre, quando cantava nos bares, com violões, às vezes até sem microfone", ele diz. "É como estar numa grande tasca", continua o compositor, que investe também num fado de Amália Rodrigues no espetáculo.
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De seu repertório mais clássico, Saga e Adoração recebem versções passionalmente mais cruas. "São canções que eu estava louco pra cantar há muito tempo, misturar com meu repertório, uma forma de fazer um afago nas músicas antigas".



Contido e agudo, ele pinça I ll be seeing you, do repertório de Billie Holliday. De Chico Buarque de Holanda, a ciranda amorosa de Flor da Idade. Do pernambucano Zé Manoel, uma versão metalicamente carinhosa de Canção e Silêncio. "É uma honra ser contemporâneo de um compositor tão brilhante como Zé Manoel", derramou-se, no palco.

Na próxima semana, Catto entra em estúdio para gravar o próximo disco - "Claro que já tem nome, mas não vou dizer agora", despista. Do repertório, pinçou a comicamente lubrica Canção do Engate, do português Antônio Variações - "engate", no português de Lisboa, é sinônimo de cópula. Morto precocemente aos 39 anos, em 1984, o artista pop lisboeta o tem entusiasmado: "Ele tinha aquela linguagem pop, dos anos 80, e ao mesmo tempo o fato de ser um dos primeiros artistas abertamente gays. Escrevia, como os portugueses sabem muito bem fazer, letras deslumbrantes", diz.

COM MARÍLIA MENDONÇA

Como disse outra vez, a voz de Filipe Catto segue sendo um grande condomínio - nela moram o metal da garganta de Ney Matogrosso, a precisão de Elis Regina, a densidade de Dolores Duran e Lupicínio Rodrigues, a ambiguidade de David Bowie e a passionalidade de Maysa ou Janis.

Mas sua garganta de contratenor e de androginia envolvente como plasma hospeda com um conforto maior seus habitantes. "Quero viajar muito com esse show. Brasília, Minas...e Recife", avisa.

Uma voz que abriga, com carinho, novos visitantes. A versão de Infiel, sucesso da "femineja" Marília Mendonça escolhido para encerrar o show, ganha tons de epopeia na ordinária saga de uma mulher traída. O minimalismo de Catto é over.

O repórter viajou a convite da Natura


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