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Disco

Djavan em busca da fluidez das canções

Disco fala de flores e política com acento pop

Publicado em 07/12/2018, às 09h50

Djavan, simplesmente pop / Foto: Divulgação
Djavan, simplesmente pop
Foto: Divulgação
JOSÉ TELES

Phalaenopsis, Sophronitis, Pleurothallis, Paphiopedilum, Cyrtopodium, Sarcoglottis, caberiam tais palavras num samba? Sim, se o autor se chamar Djavan. Elas couberam em Orquídea, faixa de Vesúvio, novo disco do cantor alagoano (Luanda Records/Sony Music). A canção é uma maneira de celebrar uma paixão pelas orquídeas que completou 16 anos. Ele as cultiva num sítio de dois alqueires de Mata Atlântica, na região de Petrópolis. Num imenso jardim onde florescem mais de 800 dessas plantas, de 350 espécies “Tenho flores dos mais diversos países do mundo, Austrália, Itália, Japão, Estados Unidos. Mexia com flores, mas não tinha orquídeas. Cismei de fazer um orquidário, chamei um especialista. A gente vai se envolvendo, é uma cachaça. Além disso, elas são lindas, multicoloridas, têm um perfume maravilhoso”.

Djavan revela que sempre teve curiosidade pelos nomes em latim com que batizam as orquídeas: “Cada um maior que o outro. Cheios de consoantes, são nomes lindos, sonoros. Quis dar uma música a esses nomes. Fazer uma homenagem às orquídeas. Acabei fazendo este samba, adorei o resultado”, conta Djavan em entrevista por telefone.

Mas nem tudo são flores. Ele está, feito todo brasileiro, na expectativa de um novo governo. Não se posiciona contra, nem a favor, mas espera que predomine entre as prioridades a segurança que leva, ressalta, as pessoas a viverem sitiadas: “Não sei o que vai realmente acontecer, acho que o novo governo tem suas prioridades, como a segurança pública. A segurança é uma prioridade urgentíssima. Uma sociedade que não tem liberdade de ir e vir está sitiada. O Rio é uma cidade belíssima que não tem segurança, isso faz com que nenhum projeto evolua. Antes de qualquer coisa tem que se pensar em dar segurança ao povo, pra que a sociedade tenha liberdade de trabalhar, estudar, ir aos bares. Sem isso a democracia é capenga. Não condiz com o nome. Uma democracia em que não se tem segurança pra ir e vir não é uma democracia. Então, acho que é esta a maior urgência do governo”, argumenta.

Mas, claro, Djavan espera mais do que segurança pública: “Evidentemente há todos aqueles setores que fazem parte do desenvolvimento de um povo, principalmente a educação. Não dá pra você pensar em nenhum tipo de crescimento, evolução, sem investir pesado na educação, sobretudo no caso do Brasil, um país continental, que tem uma carência enorme de informação. Você tem que pensar num projeto que envolva a educação de maneira definitiva, saúde, com certeza, saneamento básico, transporte público, mas acho que,
neste momento, a prioridade é a segurança publica”.

Quando concedeu a entrevista (em 23 de novembro), ainda não se sabia o que aconteceria com o Ministério da Cultura, que foi incorporado a outra pasta: “A cultura é importantíssima, porque é a identidade de um povo, não existe nação sem cultura. Acho que investir na cultura é um dever e uma obrigação, uma urgência também. Existe muita especulação, se vai ser anexado ao Ministério de Educação. A gente não sabe o que vai acontecer, mas não dá pra pensar em não existir um Ministério da Cultura. Não ter um orçamento que seja condizente, com a sua importância e necessidade”.

POP

Vesúvio é um dos discos de Djavan mais direcionados ao pop. Obviamente, não ao pop tal como atual, música para as pistas, de formato formulado. O pop em Vesúvio é de canções leves, melodias agradáveis, arranjos engenhosos, as harmonias nem sempre são tão simples, mas no geral mostram-se acessíveis. Djavan explica o motivo de privilegiar o pop: “Na verdade, em todo trabalho a gente busca uma maneira de se desafiar. Queria fazer um disco mais fluído, com uma organicidade maior para as pessoas. Minha música é baseada numa formação mais diversificada, passando por todos os gênero. E às vezes soa, como dizem, mais difícil, complexa. Claro que não estou dizendo que não haja isso neste disco. Mas nele há também, além da coisa mais complexa, uma coisa mais fluída em algumas canções, e era isso o que eu queria”.



Para chegar à fluidez desejada, ele simplificou o acompanhamento, formou um grupo com músicos com os quais já tocava, ou já tocou ou gravou em discos anteriores: “Queria uma banda mais enxuta e com um acento mais pop. Trouxe um baixista, Arthur de Palla, um jovem de 28 anos que toca muito bem; Felipe Alves, também jovem, 30 e poucos anos, tem um acento pop bastante forte. Continuei com Paulinho Calazans, que foi do disco anterior e de outros. Trouxe de volta Renato Fonseca, um tecladista, que tocou comigo em Milagreiro, no disco seguinte, é daí de Pernambuco. Torcuato Mariano, guitarra que fez parte de outros trabalhos meus, mas não do último.

CAPA
A grande maioria das capas dos álbuns de Djavan é ilustrada por fotos suas. Vesúvio não é exceção à regra, mas tem uma capa totalmente diferente, que remete ao título e conceito do disco: “Quis fazer uma analogia com o vulcão, usando negro em dourado. O processo desta capa foi gigantescamente trabalhoso, só a pintura levou três horas. Uma tinta vegana, que produziram para não dar problema de alergia. Foi um trabalho muito difícil de fazer, desconfortável. Eu queria uma capa que nunca tive. Que fosse diferente de tudo que já fiz. E veio bem a calhar. Enquanto fazia pensava: estou tendo este trabalho incrível, se ficar bom fico feliz, se não eu jogo fora. Ficou bom”.

VERSOS
“Você quis namorar/eu achei divertido/todo mar tem ondas/começou a rolar/foi ganhando sentido”. Estes são os versos iniciais de Vesúvio, que abre o disco, um funk de letra bem direta. Segue uma balada rock, “amor em queda/mesmo tal moeda/perde cotação/um mundo louco/evolui aos poucos/pela contramão”, de Solitude, uma das canções que vieram da perplexidade do clima em que vive o país e o mundo: “Guerra vende armas/mantém cargos/Destrói sonhos, tudo de uma vez/Sensatez/Não tem vez”.

Uma faixa chama atenção em especial, por ser a mais confessional do disco. O título diz tudo: Tenho Medo de Ficar Só, um sucinto ensaio sobre a solidão, na primeira pessoa: “Quando estou sem ninguém/Tudo é feito de ausência/Carência/Conheço esse estado/Todos os lados/Nada me faz feliz”, versos cantados em sequências de acordes complexos. Djavan explica a canção que acendeu a curiosidade de todos os jornalistas que o entrevistaram para este disco:
“É uma reflexão geral, mas tem um pouco de mim também. Acho que é uma coisa humana o medo de ficar sozinho. Uma solidão que você opta por ela é uma coisa, mas imposta pela vida, dói machuca, faz sofrer. E uma solidão que muita gente tem medo dela, eu também. Sobretudo porque ninguém nasceu pra viver só. Nasceu pra dividir a vida, os pensamentos, sensações, a alegrias, com alguém. Você busca a vida inteira uma pessoa pra dividir, nem digo o espaço físico, mas essas coisa todas que envolvem a existência”.

Isto posto, é montar mais um show e cair na estrada. A turnê Vesúvio começa em Santos (SP), em 22 de março de 2019, e chega ao Recife em 24 de maio.





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