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Efeméride

Led Zeppelin lançava há 50 anos o álbum de estreia

Um disco que seria um divisor de águas no rock and roll

Publicado em 12/01/2019, às 09h05

Led Zeppelin, em foto clássica de 1969 / Foto: divulgação
Led Zeppelin, em foto clássica de 1969
Foto: divulgação
JOSÉ TELES

“Jimmy Page, ao redor do qual o Zeppelin gira, é, indubitavelmente, um guitarrista de blues extraordinariamente competente, um explorador das capacidades eletrônicas do seu instrumento. Infelizmente, é também um produtor limitado, e um compositor de canções fracas, de pouca imaginação. O álbum do Zeppelin sofre tanto por ele ter produzido, quanto por ter composto a maioria das músicas (sozinho ou com seus cúmplices de grupo)”. Este é um trecho da resenha, no então jornal Rolling Stone, do álbum de estreia da banda inglesa Led Zeppelin, cujo lançamento completa hoje 50 anos.

 John Mendelsohn, que assina a crítica, assim encerra o texto: “Me parece que, se querem ocupar a vaga deixada pelo fim do Cream (supergrupo formado por Eric Clapton, Ginger Baker e Jack Bruce), terão que encontrar um produtor, uma editora, e algum material a que valha a pena ser dado atenção.” Led Zeppelin (o título do álbum) foi gravado no final de 1968, ao vivo, no Olympic Studios, em Londres, (com Glyn Johns na mesa de som), com o mínimo de efeitos para que pusesse ser reproduzido fielmente no palco.

 A banda tinha oficialmente duas semanas e meia de existência, quinze horas de ensaios e a experiência de uma turnê à Escandinávia, feita às pressas, com o nome de New Yardbirds, a fim de cumprir contratos que o Yardbirds assinara, mas acabou antes de cumpri-los. Jimmy Page, guitarrista dos Yardbirds, formou rapidamente o Led Zeppelin, sem saber que traçaria a linha divisória do rock and roll entre a década de 60 e a de 70. O álbum foi feito em nove dias e 36 horas de estúdio. O grupo nem tinha ainda gravadora.

 Jimmy Page e o baixista John Paul Jones tinham já uma longa estrada no blues e no rock e receberam suficiente espaço na imprensa para suscitar uma corrida de gravadoras para contratar o grupo. Quem ganhou foi a Atlantic, do produtor Jerry Wexler e Ahmet Ertegun, este último um executivo que gostava de ganhar dinheiro na mesma proporção que apreciava boa música. A capa é uma arte de George Hardie em cima de foto do acidente com o dirigível Hindenburg, acontecido em maio de 1937, em New Jersey, EUA. A foto do grupo no disco é de Cris Dreja, ex-integrante dos Yardbirds.

 O baixista John Entwistle, do The Who, queixou-se de que tanto o nome do grupo, quanto a capa foram ideias dele, para um provável projeto paralelo, repassados a Jimmy Page pelo roadie Richard Cole, que trabalhou para The Who, antes de se integrar ao Led Zeppelin. “Fall down like a lead baloon” (“cair feito um balão de chumbo”), era uma expressão comum na época. Entwistle (falecido em junho de 2002) deve ter falado a verdade, porque Jimmy Page não hesitava em tornar seus canções ou solos de guitarra que apreciasse, modificando-os, indiferente ao que o dono dissesse dele.

 No álbum de estreia, uma das faixas mais elogiadas e um clássico no repertório da banda, Dazed and Confused foi tomada de “empréstimo” a Jack Holmes, um cantor folk americano que gravou a canção em seu álbum de estreia, The Above Ground Sound, de 1967. Holmes abriu um show do Yardbirds, assim Jimmy Page conheceu a canção. Ao gravá-la com o Led Zeppelin ele nem se preocupou em mudar o título (somente em 2010, o Zeppelin Jack Holmes se acertaram num tribunal americano).



 O supergrupo Cream e seu blues progressivo, extremamente amplifiado passaram muito rápido, mas a influência permaneceu. O Led Zeppelin foi o que melhor a aperfeiçoou. O blues inglês vinha desde o começo dos anos 60, mas o que grupos feito os Rolling Stones e ou as bandas de John Mayall faziam era emular o original. O Cream alterou o blues com excessos de decibéis e longos improvisos instrumentais. O Led Zeppelin foi adiante, em boa parte, pela origem e idade, dos integrantes. Bonham e Plant estavam com vinte anos quando entraram no grupo, quase inexperientes. Enquanto Page e Paul Jones, mais velhos quatro anos, trabalharam como músicos de estúdios desde o início da década de 60, respeitados e requisitados.

 O vocalista e o baterista precisavam mostrar serviço para fazer jus a tocar com a dupla. Enquanto John Bonham atacava a bateria com uma agressividade inédita no blues, criando uma escola própria no instrumento, Robert Plant ameaçava destruir as amígdalas jogando os agudos o mais alto que conseguia. Page empregava um artifício que muitos acreditam ter sido ele o inventor: tocar guitarra com arco de violino. Syd Barrett do Pink Floyd fez isto antes. E antes dele, Eddie Phillips, guitarrista da pouco lembrada banda inglesa Mark Four. Mas nem tudo é blues amplificado.

 A Led Zeppelin era um protótipo, um estilo ainda em formação. Your Time Is Gonna Come, meio spiritual, meio folk, é a faixa psicodélica do disco, com John Paul Jones tocando dois órgãos Hammond e Jimmy Page, slide guitar, e os quatro cantado vocais juntos, sem Robert Plant se destacar. Uma canção que destoa não apenas do álbum, mas do repertório do Led Zeppelin. Nunca foi apresentada na íntegra no palco. Somente em 1971, num show em Tóquio, um trechinho da música foi enxertada em Whola Lotta Love. Curiosamente, Time Is Gonna Come foi a primeira canção a ganhar uma regravação, feita, em 1969, pela cantora pop Sandie Shaw.

SOBRAS

O álbum inaugural poderia ter sido duplo, a banda registrou no Olympic bem mais do que as nove faixas lançadas. Das mesmas sessões é, por exemplo, Sugar Mama, que veio à tona na reedição Deluxe de Coda, em 2015. Sugar Mama é um “remake num blues de Yank Rachell, Sugar Farm Blues, de 1934, que Jimmy Page provavelmente aprendeu da versão de Sonny Boy Williamson, Sugar Mama Blue (1937). Seja lá de quem aprendeu, a música acabou gravada pelo Led Zeppelin, e assinada por Page/Plant.

Da mesma sessão que Sugar Mama, foi Baby Come On Home, de Bert Berns, um soul, que não se encaixava no repertório do primeiro do disco do LZ. A versão original foi gravada pelo grupo Hoagy Lands, também entrou na versão turbinada de Coda. Simples, se o Led Zeppelin considerasse uma canção apropriada para a banda, gravavam, sem dar crédito ao autor. Fizeram isto com As Long as Have You, cuja versão mais conhecida é de Garnet Mimms, lançada em 1964. Robert Plant a cantava no grupo anterior ao Zepelin, o Band of Joy. Mas a versão do Led é proto metal, caberia no álbum de 1969, ou no seguinte, é quase uma Whola Lotta Love.


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