Jornal do Commercio
Carnaval 2019

Blocos com 'viés ideológico' também fazem a folia do Recife e Olinda

Eles surgiram para levar o Carnaval de volta às ruas

Publicado em 10/02/2019, às 10h51

Tarcisio Sete, comandando o Nóis Sofre Mais Nóis Goza / Foto: acervo da agremiação
Tarcisio Sete, comandando o Nóis Sofre Mais Nóis Goza
Foto: acervo da agremiação
JOSÉ TELES

Depois do AI-5, o endurecimento do regime tirou muito da espontaneidade do Carnaval, com agremiações engessadas em passarelas, foliões em arquibancadas e músicas censuradas. De repente, a partir de 1975, foram surgindo os blocos com viés ideológico, criados por foliões cansados de tanto grito contido, tanto samba no escuro. Foi assim que surgiram os olindenses Segura a Coisa e o Eu Acho É Pouco, o recifense Nóis Sofre Mais Nóis Goza, e o recifense/olindense Siri na Lata.

Os dois últimos nasceram em bares. O Nóis Sofre no Bar 7, na Sete de Setembro, o Siri no Mustang, na Conde da Boa Vista. O Eu Acho É Pouco foi parto caseiro, na moradia de dois dos fundadores. Enquanto o Segura a Coisa, até onde o pessoal se lembra, numa rua de Olinda. O cara que trazia uma parada, para ser consumida, atrasou. Quando apareceu, alguém gritou “Segura a Coisa”. Tinham de comum entre si, a independência e cutucar o regime militar.

PROVOCADOR

 “Corria o ano de 1977 quando um grupo de jornalistas resolveu criar um bloco anárquico. A maioria era colega de trabalho na sucursal Nordeste do jornal O Estado de S. Paulo, ali, na rua Bispo Cardoso Ayres. Quem éramos? Que eu me lembre: Homero Fonseca, Carlão, Ricardo Carvalho, Mari, Tereza Cunha, Ricardo Leitão e o locutor-que-vos-fala. O bloco era tão anárquico que não tinha instrumento. Combinou-se que o grupo se encontraria no domingo de Carnaval, lá para as 11h, em frente ao Bar Atlântico.

 Quem teria batizado o bloco? Não me lembro. Ficou combinado que o bicho se chamaria de Bloco Anárquico Armorial Siri na Lata. Não havia orquestra. Depois de embalados por cervejas e batidas, os fundadores começaram a desfilar por Olinda. O início do trajeto: Rua do Sol, Praça da Preguiça, rumo à Cidade Alta. Se não havia instrumento musical, qual era o som que embalava? O barulho infernal produzido pelo atrito de uma lata de cerveja vazia contra outra”, diz o relato do nascimento do Siri na Lata, contado por um dos fundadores, o jornalista Geneton Moraes Neto (de depoimento ao livro Bloco Anárquico Armorial Siri na Lata: 30 anos de anarquia, folia e negócios, José Teles, Editora Bagaço, 2006).

 O Siri foi o mais conceitual dos blocos de resistência dos anos 70, acrescentou anarquia ao sisudo movimento armorial, idealizado pelo escritor Ariano Suassuna. Inventou-se um personagem fictício para presidir a troça, o comendador Adriano de Oliveira Freyre. Adriano, claro, é uma alusão a Ariano Suassuna, os sobrenomes Freyre e Oliveira, vêm de Gilberto Freyre e Valdemar de Oliveira. O comendador foi uma espécie de Julinho da Adelaide do Carnaval pernambucano. Julinho foi um alter ego inventado por Chico Buarque para driblar a censura.

 As maledicências do Siri Na Lata eram proferidas sempre pelo comendador, presidente vitalício do bloco, que se valia de outra tática: plantar notícias falsas, o que se chama hoje de fake news. A primeira delas foi a de que o Le Monde viria cobrir o desfile. Sirianos infiltrados no Diário de Pernambuco colocaram uma mensagem de telex falsa do Le Monde na mesa da editora geral. A notícia foi publicada, com chamada de capa. No inicio dos aos 80, o topless ameaçou chegar às praias do Recife. O delegado de costumes avisou que estava proibido o topless na cidade. Uma moça, moradora de Boa Viagem, anunciou que faria topless com habeas corpus preventivo.

 Em meio à polêmica, o comendador Adriano Freyre anunciou ser a favor de seios livres, e que o Siri na Lata desfilaria com um abre-alas com 30 jovens de topless, todas das mais distintas famílias olindenses. As viaturas da polícia ficaram de prontidão, para evitar a pouca vergonha. O que se viu no Siri foi um jornalista, sem camisa, com a palavra topless escrita no peito. A cada ano anunciavam a vida de alguma celebridade, de Madonna a deputada italiana Cicciolina. Ainda em 80, confirmaram a participação de Chico Buarque. Fãs se alvoroçaram e perseguiram todos os mascarados que viam pela frente. Enquanto isso Buarque, que realmente veio, saiu no desfile do Siri sem máscara e sem ser incomodado.



Ao longo de 43 anos, o Bloco Armorial Siri na Lata enfrentou dissidências, lutas intestinas entre sócio-fundadores. O bloco deixou de desfilar. Continua promovendo prévias, ainda com viés político. A deste ano tem o mote: “43 anos contra a intolerância, a censura, o preconceito e os falsos moralismos. E sempre a favor da alegria, do alto astral, da folia e da anarquia”.

NÓIS SOFRE

 O caso como o caso foi é contado pelo eterno diretor-presidente do Nóis Sofre Mais Nóis Goza, Tarcísio Sete Pereira. O “Sete” da Livro 7, era o ponto de encontro da esquerda militante e festiva dos anos 70 até principio dos anos 2000. Em 1976, saía-se da livraria e ia-se ao Bar 7, que ficava ao lado. “Era Carnaval, bebiam numa mesa Zé Mário Rodrigues, Ângelo Monteiro, Clenira Melo, Marcos Cordeiros, Wellington Virgolino, Sérgio Lemos, Roberto, do Liceu. Uma hora lá eles cismaram de formar uma troça. Pediram para arranjar o estandarte. Peguei uma toalha de mesa, preguei num cabo de um vassourão, e eles foram embora. Quando chegaram na Dantas Barreto, pararam num banco perto de um bar da Brahma. Num banco vizinho, um bebinho dormia. De repente vai se aproximando a troça. O bebinho acordou, animou-se e gritou ‘Nóis Sofre Mais Nóis Goza’. Voltaram ao Bar 7, e disseram que no ano seguinte sairia o Nóis Sofre Mais Nóis Goza”.

Sai até hoje. Na verdade, o bloco passa mais tempo na concentração do que no desfile, um pequeno percurso que vai da Rua Sete de Setembro à Rua da Aurora: “Com o Galo da Madrugada não dá mais para desfilar. O tema não está ainda definido, eu e Lailson, que fez o desenho de quase todas as camisetas do Siri, conversamos muito sobre isto, mas não definimos. Talvez seja a história de menino usar azul, menina usar rosa”, diz Tarcísio. Os temas versam sempre com um episódio badalado, sobre alguma escorregada de políticos. Cada um destes blocos tem sua característica. No caso do Nóis Sofre é o concurso de fantasia, criado para gozar com os suntuosos desfiles dos grandes clubes:

“As camisetas eu mesmo vendo, ou se vendem num bar perto do local da concentração. O Nóis Sofre é feito na hora”. Para Tarcísio Sete, a expressão que dá nome ao bloco não ficou datada, depois da volta da democracia: “Não se sofre apenas política. Há muitos motivos para se sofrer, amor, problemas pessoais, há mil maneiras de sofrer, e agora com este novo governo surgiu mais uma”.

SEGURA A COISA

“Depois que Negão Aldiflas sumiu, chegou um pessoal e deixou o estandarte do Segura a Coisa lá em casa, isto foi em 2008. Lula Côrtes se encontrou com a gente e disse que o bloco tinha que continuar. A camiseta de 2009 foi desenhada por ele. A gente botou o bloco na rua e continua saindo. Dia 23 vai ter o aniversário de 44 anos, na Cachaçaria Virgolino”, diz Okky das Olinda que, aos 53 anos, não tem idade para ser o fundador da agremiação, mas sai no bloco desde a adolescência. O Segura a Coisa desafiava o regime pela apologia à maconha. Tem tanta importância quanto o estandarte, o imenso cigarro da erva, um “morrão”, que passa de mão em mão durante o préstito. A polícia aparecia, ameaçava, mas os foliões tocavam o desfile:

“Uma vez prenderam Xirumba, um dos fundadores do bloco, mas a turma conseguiu tirar ele da viatura. Nos últimos anos, a polícia aparece, mas somente no começo, depois vai embora. A gente não se mete muito na política, a briga nossa pela descriminalização da erva, sem ter nada a ver com a marcha da maconha. O bloco teve como uma das integrantes mais entusiastas a cantora Miúcha (falecida em janeiro), que compôs e gravou (em 1982) o hino da agremiação.

EU ACHO É POUCO

A princípio era o Língua Ferina, não dizia muito. Por votação foi escolhido o Eu Acho É Pouco frase que aludia à conjuntura de 1976, quando nasceu o Grêmio Lítero Recreativo Cultural Misto Carnavalesco. Nasceu na Rua São Bento, 358, do casal Ivaldevan e Sônia, os dois inclusive foram presos pela polícia em 1972 (Ivaldevan foi do PCBR). O Eu Acho É Pouco começou com muita gente, intelectuais, artistas plásticos e profissionais liberais em geral. O bloco surgiu para preencher uma lacuna. A animação do Carnaval de Olinda resumia-se às agremiações tradicionais como Pitombeira, Elefante e o Homem da Meia-Noite. O pessoal contratou uma charanga para sair atrás. Sai até hoje, e renovou as fileiras. Dos quatro é o único que tem preferência dos jovens, e engajados, o que é importante. A camisa do bloco este ano, recheada de frases feito “Eu acho que este bloco é comunista”, “Jesus da goiabeira”, levou foliões bolsonaristas a anunciarem que farão boicote ao bloco. O Carnaval polarizado está de volta





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