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Shevchenko & Elloco vão 'gerar na alta' no Rec-Beat 2019

Dupla comemora 10 anos de carreira sendo uma das atrações do Festival que acontece no Cais da Alfândega durante o Carnaval

Publicado em 26/02/2019, às 05h00

Elloco e Shevchenko estão na estrada há 10 anos. / Foto: Filipe Jordão/JC Imagem
Elloco e Shevchenko estão na estrada há 10 anos.
Foto: Filipe Jordão/JC Imagem
Robson Gomes

Era um meio de tarde quando a reportagem do Jornal do Commercio chegou ao bairro do Arruda, Zona Norte do Recife. No final de uma entrada estreita, ao lado de um bar que fica na beira do canal, está o quartinho de uma das estrelas do bregafunk atual. E assim, sem a cerimônia ou o glamour que esse gênero ostenta nos videoclipes que geram milhões de acessos no YouTube, entramos no universo da dupla Shevchenko & Elloco, uma das atrações confirmadas do Festival Rec-Beat 2019, que apresenta atrações alternativas locais e nacionais em um palco montado no Cais da Alfândega durante o Carnaval. Neste ano, a programação vai de 2 a 5 de março, com entrada gratuita. Os MC's vão se apresentar no sábado (2/2).

Com dez anos de estrada, Shevchenko & Elloco – nomes artísticos de Robson Oliveira Rodrigues, 32 anos, e Cleiton José da Silva, 29, respectivamente – estão vivendo um momento de auge da carreira. Eles são os responsáveis pelas músicas mais executadas e coreografadas por grupos de passinho do bregafunk pernambucano. Basta perguntar a quem ouve o gênero se a pessoa conhece os hits inconfundíveis como Tome Empurradão, Braba de Milionário e Gera Bactéria.

Enquanto o videoclipe oficial de Gera Bactéria, por exemplo, acumula mais de 5,2 milhões de visualizações no YouTube, o clima milionário passa longe do local simples que Shevchenko mora. Órfão de pai e mãe, o vocalista mantém um quartinho perto da avó. Com ares de quitinete, a sala tem um colchão no chão, um banheiro e um estúdio improvisado, onde nascem as canções. A maior “ostentação” da casa se resume ao microfone profissional com pop filter (protetor) para as gravações. No contraponto, ele mantém, ao lado do seu quartinho, a lojinha do Bonde 24 por 48, a grife de roupas inspirada nos bordões da dupla como “Eu tô só calado”, citado nas faixas.

Timidamente, Shevchenko contou como a dupla com Elloco nasceu. “Eu fiz uma música meio que na brincadeira e pedi para Elloco fazer uma aberturinha para ela. Como a voz dele ficou imbatível com a minha, pedi para fazer uma parceria com ele. Era uma combinação perfeita. Estamos juntos há dez anos, de amizade e música”, conta ele sobre o parceiro, que mora no Alto do Pascoal, um bairro próximo do Arruda.

Elloco, além da música, mantém um negócio com o pai, mas diz que a música é sua principal fonte de renda. É ele o autor de Gera Bactéria, a faixa que “ressuscitou” a dupla no gênero há seis meses. Mas antes disso, a dupla diz que passou três anos de completa ausência dos palcos.

“Foi um tempo de luta. Nem tudo às vezes são flores. Passamos dificuldades, passamos fome um tempo, mas nunca desistimos. Nós sabíamos que uma hora, uma música, uma letra ia mudar isso”, relata Elloco.

Para a dupla de cantores, além do sucesso que os trouxe de volta à cena do bregafunk, isso só aconteceu devido aos grupos de passinho, uma manifestação artística que tem gerado controvérsias no Grande Recife.



Com letras diretas (e algumas explícitas) sobre o momento prazeroso de um casal, são eles que vão representar o bregafunk no Rec-Beat, que aos poucos começa a se abrir para o gênero, como foi ano passado quando levaram MC Tocha. “Quem nunca sonhou tocar num festival aberto ao público, durante a maior festa do Recife? Nós teremos a oportunidade da nossa vida! E vamos aproveitar como se fosse um jogo decisivo de Copa do Mundo”, afirmou Shevchenko.

Uma das novidades que Shevchenko & Elloco pretendem levar para o palco do Rec-Beat é o "10 Years Challenge do Brega", trazendo hits do "brega das antigas" com letra e batidas atualizadas ao ritmo do bregafunk.

VISIBILIDADE DO BREGAFUNK

A presença de Shevchenko & Elloco no Festival Rec-Beat 2019 coloca luz na discussão sobre o espaço que o bregafunk tem na Cultura do Estado. O jornalista e pesquisador GG Albuquerque conta que, embora o gênero se adeque ao conceito e proposta do Rec-Beat, o ritmo ainda não é valorizado a contento em Pernambuco. “Eles são duplamente invisibilizados: por um lado, o Estado os nega enquanto artistas legítimos (e por tabela toda a população a que eles representam); por outro, boa parte da classe média de esquerda, com boa vontade, os veem como frivolidades, fenômenos divertidos e descontraídos e não como criadores esteticamente radicais. Portanto, além da representatividade, a escalação de Shevchenko & Elloco no lineup do Rec-Beat coloca um outro contexto de escuta”, afirma.

A escalação dos donos do hit Gera Bactéria também evidencia a cultura do passinho, que ainda precisa ser vista com mais atenção pelas autoridades. Para Shevchenko, eles são os principais responsáveis por disseminar o bregafunk hoje.

“Hoje o cenário é fácil depois que começou a existir os grupos de passinho. Eles valorizam a nossa música, e através deles, a turma quer consumir o nosso som. Antigamente, quando batíamos 100 mil acessos (no YouTube), a música era sucesso. Hoje em dia, se bater 1 milhão, ainda não é sucesso. Mas se um grupo de passinho criar uma dança diferenciada, a música bomba. A música Tome Empurradão, por exemplo, gravamos há dois meses e só tinha 6 mil acessos. Depois que levei os meninos (do passinho) para gravar um clipe, virou hit do momento”, explica.

GG Albuquerque analisa a importância dessa manifestação artística: “O passinho se tornou um movimento praticamente independente, com seus próprios ídolos e eventos. Além disso, engendrou uma nova forma de composição no bregafunk. Uma característica marcante desse novo som são as batidas assimétricas e quebradas, cheia de breques ou crescendos repentinos, de modo que as batidas soam sempre inesperadas. Essa quebra da batida fixa, estável, rigidamente demarcada — isto é, o ‘click’, o bate-estaca que fundou a música eletrônica de pista — está em sintonia com os trabalhos mais inventivos e transformadores da música eletrônica contemporânea”.

Para GG, é preciso ver a apresentação de Shevchenko & Elloco com olhos mais atentos no festival. “Ouvindo o bregafunk numa noite com as bandas do Rec-Beat, passamos a ver possibilidades artísticas que normalmente não consideramos porque estamos viciados em apenas enquadrá-lo no rótulo superficial da cena brega”, conclui.




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