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APR 2019

Ratos de Porão: a celebração de um marco de 30 anos com os fãs

Headliner da última noite do Abril Pro Rock, a Ratos de Porão fez show comemorando os 30 anos do disco 'Brasil', despertando memórias e agitação nos fãs

Publicado em 21/04/2019, às 15h35

Ratos de Porão no palco do Abril Pro Rock / Foto: Pei Fon/Divulgação
Ratos de Porão no palco do Abril Pro Rock
Foto: Pei Fon/Divulgação
Gustavo Arland

Uma noite que um verdadeiro fã de hardcore vai demorar para raciocinar. O terceiro e último dia da 27º edição do Abril Pro Rock foi mais do que especial e isso tem causa. Um dos shows mais aguardados pelo público que estava presente no Baile Perfumado, bairro do Prado, foi a apresentação da lendária banda Paulista Ratos de Porão. Mas não seria um show qualquer. A banda se tornou headliner da noite com uma mudança de cronograma e, o mais importante motivo, é que o show  comemorava o lançamento de um disco emblemático. Brasil, o 4º álbum da banda, completa 30 anos este ano e o grupo resolveu fazer uma turnê especial, tocando-o na íntegra.

Já dava para perceber que o show geraria fortes expectativas do público, especialmente dos fãs do Ratos. O supervisor de vendas Alexandre Matos, preencheu 20 dos seus 32 anos de vida ouvindo a banda e falou sobre o que ela representa. "O Ratos é uma ideologia de vida. João Gordo (vocalista da banda) proporciona várias percepções diferentes de sistema. Eu nunca perco Ratos aqui em Recife, R.D.P é um som de toda vida", relatou.

O álbum em si gera muitas discussões e comparações entre momento social e político que o país vive hoje e na época de seu lançamento, 1989, em que o mundo e, principalmente, o Brasil fervilhava de emoções e mudanças. Aquele final de década representou isso. O fim de um regime de exceção que durou 30 anos, primeira eleição direta desde 1960, hiperinflação no Brasil, ascensão do pop no mundo, interesses estrangeiros na Amazônia. Tudo isso foi contextualizado no álbum, deixando bem claro a posição da banda com relação a inúmeros assuntos que rodeavam o Brasil naquela época.

O disco foi gravado em Berlim, pela gravadora El Dorado e marca um salto de qualidade em questão de sonoridade, graças ao produtor Harris Johns, conseguindo extrair a já conhecida agressividade, com um pouco mais de técnica, característica do Thrash Metal. O disco também consolida o Ratos De Porão como uma das maiores bandas de Crossover (nome dado a mistura entre o punk rock e o thrash metal) do mundo, sendo uma das pioneiras na América Latina. É unânime entre os fãs a opinião de que o álbum, mesmo tendo sido lançado a 30 anos, as letras acabam se encaixando com o Brasil recente.

O funcionário público Robson Santana, 29, enfatiza esta afirmativa afirmando que as músicas do disco estão cada vez mais atuais. "O Brasil é um divisor de águas. A essência perfeita do Crossover, está neste disco. Só que infelizmente, nas letras, parece que o disco é mais atual do que nunca" A expectativa, dentro do contexto da comemoração do disco, era de um show memorável. “Qualquer show do Ratos de Porão já é uma destruição. Tem tudo para ser um show histórico, por conta da própria essência do disco e por conta do atual momento sócio-político que o Brasil está vivendo”,  complementa.

Quem compartilha a opinião é o engenheiro agrônomo, Pedro Henrique (35), ao falar da importância do disco dentro do cenário do Rock e o que ele representa. “Acho um disco muito importante e uma grande contribuição para o universo do Rock n’ Roll, principalmente na situação que a gente se encontra hoje, diz ele. Ansioso pelo show, assim como os outros fãs, ele esperava uma noite muito divertida. "Eu espero, como sempre, um show fantástico. Eles sempre enchem a casa e sempre tocam os clássicos que a gente espera. Vai ser uma grande noite",  conclui.

Chega o momento

Depois de uma maratona de bandas pesadas que passaram na noite, o tão aguardado show finalmente chega. Assim que terminou a apresentação da banda Sanctifier (RN), o público rapidamente foi ocupando os espaços próximos ao principal palco da casa. Por volta das 00:10, um sample trazendo a música tema da Voz do Brasil (trecho da ópera O Guarani), o hino do tricampeonato da seleção brasileira de futebol e outros sons de cunho patriótico, começou a ecoar pela casa, já sendo um prefácio do que estava por vir. O insano público já montava sua área para fazer o tão falado "mosh pit", popularmente conhecido como "roda punk".  



João Gordo e sua trupe composta por Jão (Guitarrista), Juninho (Baixista) e Boka (Baterista) entram no palco com o vocalista já alertando: “Cuidado! Se não, Amazônia Nunca Mais!”, anunciando a primeira música do disco e do show. A banda tocou cada faixa do álbum na ordem. Um dos pontos altos do show foi quando tocaram uma das mais famosas do grupo e a sétima música do álbum. Beber Até Morrer deixou o público em êxtase.

O viés político não ficou de fora da apresentação. Elementos que iam desde a bandeira do Movimento Sem Terra (MST) no amplificador do baixista aos gritos e faixas fazendo referência ao presidente Jair Bolsonaro deram o tom ao show. Momentos de respiro chegaram como na instrumental O Fim, tocada para João Gordo poder dar uma respirada, tomar uma água e se recuperar. As músicas que falavam sobre ditadura militar e repressão policial foram as que o público cantou com mais força. Retrocesso e Máquina Militar fizeram com que o ódio tomasse conta do público e cantassem estas músicas com mais fervor.

O mosh pit não parou em nenhum momento e, como é sempre comum nos shows do Ratos no Recife, João Gordo entre uma música e outra, exaltava a capital pernambucana, elegendo ela como dona da “melhor roda punk do Nordeste”. Depois de tocar todo o disco, durante uma pausa para a famosa volta, O público gritava o nome da banda e a música do sambista Bezerra da Silva, Se Gritar Pega Ladrão, foi tocada e cantada em alto e bom som por João Gordo e o público. Após a retorno, a banda emendou alguns covers e o vocalista afirmou que "estavam ficando velhos" e que não saberiam se estariam por aqui ano que vem, pedindo para que o público gritasse. O show foi encerrado com os clássicos Morrer e Crucificados pelo Sistema.

Ao fim do show, a impressão foi que o público estava querendo mais, desejando que aquela madrugada de 21 de abril, dia de Tiradentes nunca acabasse. Ao longo do percurso da saída da casa de shows, se ouvia dizer em várias bocas que foi o melhor show do Ratos de Porão dos últimos tempos.

Uma delas foi a do professor Cristiano Moura, afirmando que o momento do país colaborou para que a banda viesse com mais vontade fazer esta turnê. "Eles não fazem show ruim nem se eles quiserem. Eu já vi vários shows do Ratos e este foi o melhor. O que aconteceu no país serviu para deixar eles com 'sangue nos olhos' e com vontade. Serviu de combustível. Foi um show maravilhoso", relatou. Segundo ele, mesmo o público um pouco cansado, o Ratos ser o último a tocar na noite não foi um impasse, mas um merecimento. "Cansado ficaria, mas o Ratos a muitos anos merecia encerrar o festival. Há anos que o pessoal está pedindo isso. Para quem estava cansado, o show foi um 'viagra mental', conseguindo levantar o pessoal", concluiu com a inusitada analogia.

Para o idealizador do Abril Pro Rock, Paulo André Moraes, foi um momento muito pertinente trazer a banda com esta turnê. “30 anos de Brasil é muito especial porque é um disco clássico nacional. Fomos felizes com esta história dos 30 anos redondos do álbum, porque a gente queria o Ratos no ano passado, mas pintou uma turnê na gringa e eles não conseguiram vir, afirmou. O produtor ainda deixou um recado aos fãs. “O Ratos, enquanto viver, a cada 3 ou 4 anos, virá para o Abril Pro Rock. A banda sempre vai estar com esse compromisso com o underground”, explicou.

É o sinal de que a agressividade, as letras fortes e a conexão da banda com o público do Recife ainda se manterá por muito tempo. Se depender dos fãs tanto da velha, quanto da nova geração,  com certeza, enquanto o Ratos de Porão existir, não haverá A Lei do Silêncio,  como diz a quarta faixa do aniversariante.




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