Jornal do Commercio
Notícia
Diversidade

'Madame X': Madonna se arrisca, canta em português, e triunfa em disco

14º disco da Rainha do Pop conta com participações de Anitta e Maluma

Publicado em 12/06/2019, às 12h46

Madonna abraçou as influências da vida cultural em Portugal / Divulgação
Madonna abraçou as influências da vida cultural em Portugal
Divulgação
Márcio Bastos

Ao longo de sua carreira de quase quatro décadas, Madonna já assumiu diferentes personas, transformando cada lançamento em uma possibilidade de explorar novos terrenos temáticos, sonoros e afetivos. Em Madame X, seu 14º álbum de estúdio, ela reúne várias dessas facetas, da ativista política à rainha das pistas de dança, passando por seus questionamentos religiosos e coração partido. O disco, que chega oficialmente às plataformas de streaming na sexta-feira (14), é um caldeirão de influências que reflete as experiências da artista nos últimos quatro anos, desde o lançamento do Rebel Heart (2015).

Afeita a criar mitologias sobre si, Madonna contou que o nome Madame X lhe foi dado pela icônica coreógrafa Martha Graham, falecida em 1991, de quem foi aluna. Segundo a Rainha do Pop, Graham ficou intrigada com o caráter camaleônico da jovem bailarina e a desafiou, diariamente, a apresentar uma nova identidade, passando a chamá-la de Madame X. Independente da veracidade da história, o fato é que a cantora abraçou o conceito e fez da personagem um veículo para abordar suas angústias atuais.

“(Madame X é) Uma agente secreta viajando ao redor do mundo, trocando sua identidade, lutando por liberdade, trazendo luz a lugares sombrios. Ela é uma professora de dança, uma professora, uma chefe de estado; uma governanta, uma prisioneira, uma estudante; uma freira, uma cantora de cabaré, uma santa e uma prostituta”, explicou em um vídeo sobre o novo trabalho.

O processo de concepção do disco tem como um dos pontos-chaves a mudança da artista para Portugal, em 2017, para que o filho David Banda, de 13 anos, pudesse se dedicar aos treinos de futebol no Benfica. Em entrevistas recentes, Madonna contou que a mudança a deixou isolada e criativamente estagnada. Foi então que começou a circular mais por Lisboa e entrar em contato com a fervilhante cena artística da capital portuguesa, hoje um dos grandes centros criativos da Europa. Esses encontros com culturas múltiplas, especialmente africanas, ibéricas e latinas, permeiam todo o Madame X.

O álbum chega em um momento em que muito se fala sobre a idade de Madonna, como se os números depusessem contra ela (um recente perfil feito pela revista do New York Times irritou a artista por, segundo ela, focar demasiadamente neste tópico). Aos 60 anos, ela é uma figura solitária no cenário da cultura pop que idolatra a juventude. A perseguição ao seu envelhecimento não é novidade: aos 30, seu comportamento já era criticado. Como a pioneira que sempre foi, ela continuou desafiando os rígidos códigos patriarcais.

Nesse sentido, é interessante observar como Madame X mais uma vez subverte as expectativas, reforçando sua posição de artista inquieta e provocadora. Não se trata, aqui, se competir com Taylor Swift, Rihanna ou Ariana Grande, mas de se colocar mais uma vez à prova, ao invés de viver das glórias do passado (e seu catálogo precioso permitiria isso). A ambição artística de Madonna, aliás, é um de seus aspectos mais fascinantes e, no novo trabalho, ela se expressa na voracidade de explorar múltiplas sonoridades e se posicionar politicamente.

REALIDADE E UTOPIA

Medellín, faixa que abre o álbum, reforça a ligação de Madonna com a música latina, que remonta ao clássico La Isla Bonita e nunca abandonou a discografia da Rainha do Pop, eventualmente se manifestando em faixas de álbuns como Bedtime Stories (1994) e Hard Candy (2008), por exemplo. Parceria com Maluma (que aparece novamente em Bitch, I’m Loca, um reggaeton mais tradicional), a canção evoca um universo onírico de paixão e retorno a uma longínqua inocência.



A faixa, assim como metade do disco, tem produção do francês Mirwais Ahmadzaï, com quem Madonna trabalhou nos discos Music (2000), American Life (2003) e Confession on a Dancefloor (2005). A parceria dos dois volta afiada e abraça a experimentação, a exemplo das fascinantes Dark Ballet e God Control. Em ambas, Madonna subverte as expectativas de construção sonora submetida às fórmulas do pop contemporâneo.

Os temas políticos das faixas se manifestam também no audiovisual, como é intrínseco ao trabalho de Madonna. No clipe de Dark Ballet, a cantora volta a criticar o fanatismo religioso a partir de analogias com a Santa Inquisição. No entanto, ao contrário de se colocar como mártir (como já fez várias vezes), o protagonismo é do rapper Mykki Blanco, queer e negro.

God Control é uma crítica enfática aos Estados Unidos contemporâneo, sua obsessão por armas e falta de apreço pelos corpos dissidentes. Com um coral que evoca Like a Prayer, a canção se transmuta em uma transcendente e esperançosa faixa do disco. O otimismo que não nega a realidade e a empatia norteia o álbum, dando o tom de músicas como I Rise e Killers Who Are Partying.

“Eu sei o que sou e o que não sou/ O mundo é selvagem/ O caminho é solitário”, canta, em português, nesta última, que evoca o fado português que encantou Madonna.

A Rainha do Pop, aliás, abraça o idioma de seu novo endereço em diferentes faixas. “Eu te amo/ Mas não deixo você me destruir”, entoa em Crazy. “Aquilo que mais magoa/ É que eu não estava perdida”, afirma na delicada Extreme Occident, canção sobre como tantas vezes nos buscamos (erroneamente) em outros pontos geográficos ou outros corpos, como uma bússola quebrada.

O mergulho reflexivo de Madonna não exclui (e nem deveria) a libido que move a pista de dança, como ela mostra em Faz Gostoso, parceria com Anitta. Regravação do sucesso da cantora Blaya, a canção, surpreendentemente, funciona e abraça o funk e o passinho. I Don’t Search, I Find, reposiciona Madonna. Outros pontos altos do disco são a excelente Batuka, com um grupo de batukeiras de Cabo Verde, e Crave, esta mais próxima das tendências atuais, mas que apresenta Madonna com um desejo ardente, quase doído.

Mais do que tentar desvendar quem seria Madame X, o disco tem êxito ao abraçar o caleidoscópio de referências das vivências de Madonna nos últimos anos. Mais do que uma polaroide, ou uma foto de Instagram cheia de filtros (apesar do uso recorrente de autotune), é um ensaio cuidadoso de alguém que, afinal, sabe quem é, mas está sempre disposta a se reinventar.t


Palavras-chave




Os comentários abaixo são de responsabilidade dos respectivos perfis do facebook.

OFERTAS

Especiais JC

Copa América no Brasil Copa América no Brasil
Confira a relação da Copa América com o Brasil, o histórico e detalhes da edição deste ano, na qual a seleção terá que se virar sem Neymar, cortado do torneio. Catar e Japão participam como convidados
O nome dele era Gabriel Diniz O nome dele era Gabriel Diniz
José Gabriel de Souza Diniz, o Gabriel Diniz, ou simplesmente GD como os fãs o chamavam, morreu precocemente, aos 28 anos, em um acidente com um pequeno avião no litoral sul de Sergipe ocorrido na segunda-feira, 27 de maio de 2019.
Conheça o udigrudi pernambucano Conheça o udigrudi pernambucano
O udigrudi pernambucano reuniu um grupo de talentosos jovens músicos que, na primeira metade dos anos 70, gravou discos absolutamente não comerciais, fez rock and roll na terra do frevo, produziu festivais, insistiram na permanência do sonho.

    SIGA-NOS

    LICENCIAMENTO

  • Para solicitação de licenciamento, contactar editores@ne10.com.br

Jornal do Commercio 2019 © Todos os direitos reservados

EXPEDIENTE |

PRIVACIDADE

Sistema Jornal do Commercio Grupo JCPM